Portrait of a Woman of the Hofer Family

Autor: desconhecido, artista suábio

Título: Portrait of a Woman of the Hofer Family

Data: c. 1470

Localização: The National Gallery, Londres

imagem: wikipedia

A mosca

O retrato de uma mulher da família Hofer, realizado por um artista suábio desconhecido por volta de 1470, apresenta uma combinação particularmente interessante entre a representação, a memória e a mortalidade. Embora a identidade da mulher não seja conhecida, a sua pertença à família Hofer é indicada pela inscrição presente na pintura.

Dois elementos assumem especial importância simbólica: a mosca, pousada no toucado da mulher, e a pequena flor miosótis, ou “não-me-esqueças”, que ela segura.

A miosótis está tradicionalmente associada à recordação, fidelidade e amor verdadeiro. A sua presença pode sugerir o desejo de preservar a memória da pessoa retratada e, simultaneamente, estabelecer uma relação entre o retrato e a ideia de um amor que permanece para além da morte.

Uma antiga lenda europeia explica essa associação. Segundo a narrativa, um jovem cavaleiro caminhava junto a um rio com a sua amada quando viu uma flor de miosótis. Ao tentar apanhá-la para oferecê-la à jovem, caiu no rio. O peso da armadura impediu-o de regressar à margem e, antes de desaparecer nas águas, teria lançado a flor à sua amada, pedindo-lhe que não o esquecesse. A partir daí, a miosótis passou a simbolizar a fidelidade e o amor que sobrevive à morte.

Existem ainda outras narrativas lendárias associadas ao nome da flor. Uma delas conta que Adão, enquanto nomeava as plantas do Jardim do Éden, se esqueceu de uma pequena flor. Quando esta lhe perguntou pelo seu nome, Adão respondeu que seria “Não-me-esqueças”, garantindo que jamais voltaria a esquecê-la.

No contexto do retrato, contudo, a flor pode assumir um significado mais amplo. Ao representar uma mulher cuja identidade individual se perdeu com o tempo, o artista parece preservar, através da pintura, aquilo que a própria história poderia apagar. A obra torna-se, desse modo, um instrumento de memória.

Memento mori

 

A presença da mosca introduz uma segunda dimensão simbólica.

A expressão latina memento mori significa “lembra-te de que morrerás” e remete para a consciência da inevitabilidade da morte.

A mosca pode ser interpretada como um símbolo da mortalidade e da passagem do tempo. Enquanto a miosótis evoca a memória, a fidelidade e o amor verdadeiro, a mosca recorda que a beleza e a própria vida são temporárias. Existe, portanto, um contraste deliberado entre os dois elementos: lembrar e morrer.

A escolha da mosca é particularmente significativa porque ela parece pousar realmente sobre o véu branco. A representação é tão minuciosa que cria uma forte ilusão de realidade. Este recurso demonstra também a habilidade técnica do artista, que transforma um pequeno detalhe numa parte essencial do significado do retrato.

A mulher apresenta uma expressão subtilmente ambígua. Os seus olhos parecem vivos e a boca aproxima-se de um sorriso, criando uma sensação de presença e individualidade. A mosca, porém, introduz uma nota inquietante nessa representação aparentemente viva. A mulher parece estar presente diante do observador, mas a pintura recorda simultaneamente que também ela, como todos os seres humanos, está sujeita à morte.

A combinação entre a miosótis e a mosca pode, assim, ser entendida como uma síntese visual da condição humana: o desejo de ser lembrado confronta-se inevitavelmente com a mortalidade. O retrato preserva a imagem de uma mulher cujo nome se perdeu, realizando precisamente aquilo que a flor simboliza: impedir que ela seja completamente esquecida.

Neste sentido, a obra aproxima-se da tradição do memento mori, mas de uma maneira menos convencional. Em vez de recorrer exclusivamente a imagens explícitas da morte, como um crânio, uma vela apagada ou um cadáver, o artista utiliza dois elementos aparentemente simples e quotidianos. A flor representa aquilo que permanece na memória; a mosca recorda aquilo que inevitavelmente desaparece.

O retrato torna-se, portanto, mais do que uma simples representação física. É uma reflexão sobre a relação entre beleza, amor, memória e morte. A mulher permanece viva na pintura, embora a sua identidade tenha sido esquecida pela história. A miosótis parece pedir ao observador que se lembre dela, enquanto a mosca recorda que nenhuma vida é permanente.

Assim, a obra pode ser compreendida como uma representação particularmente subtil do memento morio amor procura conservar a memória, mas a morte permanece como destino inevitável de todos os seres humanos.

2001 © Luís Barreira

Nota

[1] A flor miosótis, também conhecida como “não-me-esqueças”, está tradicionalmente associada à recordação, fidelidade e amor verdadeiro.

Amor Sagrado e Amor Profano

2023, fotografia de Luís Barreira

Amor Sagrado e Amor Profano — Ticiano

 

Artista: Ticiano (c. 1488/1490–1576)

Título: Amor Sagrado e Amor Profano

Data: c. 1514

Técnica: óleo sobre tela

Localização: Galleria Borghese, Roma

Amor Sagrado e Amor Profano é uma das obras mais célebres de Ticiano e uma das pinturas mais discutidas da arte renascentista. Realizada por volta de 1514, em Veneza, a obra foi encomendada por Niccolò Aurelio, por ocasião do seu casamento com Laura Bagarotto. O brasão de Aurelio encontra-se representado no sarcófago ou fonte situada entre as duas figuras femininas.

O significado original da pintura, contudo, não é totalmente consensual. Ao longo dos séculos, recebeu diferentes títulos, entre os quais Beleza sem ornamento e beleza ornamentada (1613), Três amores (1650) e Mulher divina e profana (1700). O título actual, Amor Sagrado e Amor Profano, consolidou-se apenas posteriormente e resulta de uma interpretação moralizante da obra, fortemente influenciada pelo pensamento neoplatónico.

As duas figuras femininas

A composição apresenta duas mulheres sentadas junto a uma fonte ou sarcófago de mármore. Uma encontra-se ricamente vestida, enquanto a outra aparece nua, coberta apenas por um tecido branco e por um manto vermelho ou púrpura.

Durante muito tempo, estas duas mulheres foram interpretadas como representações de duas formas de Vénus: a Vénus terrestre ou vulgar e a Vénus celeste.

A mulher vestida representa a beleza terrena, associada ao mundo material, ao casamento e aos valores sociais. A mulher nua, por sua vez, representa uma forma superior e espiritualizada de beleza. A sua nudez não deve ser entendida necessariamente como uma representação negativa ou erótica. No contexto do Renascimento, a nudez podia assumir um significado positivo, associado à beleza ideal, à pureza e à perfeição.

Entre as duas figuras encontra-se Cupido, que brinca com a água da fonte. A sua presença é fundamental para compreender a relação entre as personagens.

A interpretação neoplatónica

A interpretação tradicional da obra está relacionada com o neoplatonismo renascentista, particularmente com o pensamento de Marsilio Ficino. Segundo esta concepção, a beleza existente no mundo material seria um reflexo da beleza divina. A contemplação da beleza terrena poderia, portanto, conduzir o ser humano à contemplação de uma beleza superior e espiritual.

Esta ideia encontra uma das suas raízes no pensamento de Platão, especialmente no Banquete (Symposium), onde é apresentada uma distinção entre diferentes formas de amor e entre diferentes manifestações de Vénus.

A partir desta perspetiva, as duas figuras de Ticiano não devem necessariamente ser entendidas como representações de um amor “bom” e de um amor “mau”. Pelo contrário, podem representar duas dimensões diferentes de uma mesma realidade amorosa.

A beleza terrena pode funcionar como ponto de partida para uma experiência mais elevada da beleza. Assim, o amor humano não é necessariamente rejeitado: pode ser transformado e conduzido em direcção ao amor espiritual.

A simbologia dos objectos

A pintura apresenta vários elementos que contribuem para a sua dimensão alegórica.

A mulher vestida usa uma coroa de murta, planta tradicionalmente associada a Vénus, e segura rosas. A murta está relacionada com o amor e o casamento, enquanto as rosas podem representar a beleza e o amor.

O cinto que envolve a figura vestida pode ser associado à castidade e à fidelidade conjugal. A sua aparência luxuosa também reforça a relação com o mundo material e com a posição social da mulher.

A mulher nua, por outro lado, segura uma lamparina ou chama, que pode ser interpretada como símbolo da luz divina e da felicidade espiritual. O contraste entre os objectos das duas mulheres estabelece uma oposição entre os valores terrenos e os valores celestiais.

A figura vestida aparece, assim, ligada ao casamento, à beleza material e à vida terrena, enquanto a figura nua se aproxima de uma dimensão mais espiritual e eterna.

Cupido e a fonte

Cupido ocupa uma posição central entre as duas mulheres. Ao mexer na água da fonte, ele parece estabelecer uma ligação entre ambas.

Este gesto pode ser entendido como símbolo de harmonia e união. Em vez de separar completamente os dois tipos de amor, Cupido parece demonstrar que existe uma relação entre eles.

O amor terreno e o amor espiritual podem, portanto, ser compreendidos como duas manifestações de uma mesma essência. A experiência amorosa humana pode constituir um caminho para uma compreensão mais elevada da beleza.

Esta interpretação foi desenvolvida pelo historiador da arte Erwin Panofsky, que relacionou a pintura com a tradição neoplatónica. Para Panofsky, a obra pode ser entendida como um verdadeiro diálogo sobre o amor, no qual as duas figuras não representam simplesmente o bem e o mal, mas diferentes dimensões da experiência amorosa.

O contexto renascentista

A pintura deve ser compreendida no contexto do Renascimento italiano, período marcado pela redescoberta da Antiguidade clássica, pelo Humanismo e pelo interesse renovado pela filosofia e pela literatura antigas.

Ticiano combina nessa obra diferentes elementos da cultura renascentista: a beleza idealizada do corpo humano, a natureza, a mitologia clássica, o casamento, a filosofia neoplatónica e a simbologia cristã.

A paisagem desempenha também um papel importante. O cenário campestre, com árvores, água e construções ao fundo, cria uma atmosfera de serenidade e equilíbrio. Ticiano demonstra aqui a influência da tradição veneziana, especialmente da poesia lírica da natureza associada a artistas como Giovanni Bellini e Giorgione.

O casamento e a identidade da mulher

A interpretação tradicional da obra concentra-se sobretudo no papel de Niccolò Aurelio, considerado o responsável pela encomenda. Segundo essa leitura, a pintura teria sido realizada para celebrar o casamento com Laura Bagarotto e transmitiria uma mensagem relacionada com o amor, a fidelidade e a união matrimonial.

No entanto, estudos mais recentes questionaram a ideia de que a obra deva ser interpretada exclusivamente a partir do patrocínio masculino.

A figura de Laura Bagarotto pode assumir uma importância maior nessa interpretação. Laura era uma jovem viúva que se casava novamente, e a duplicidade das figuras femininas pode ser relacionada com a sua própria condição: simultaneamente viúva e noiva, com uma identidade marcada pelo passado e pelo início de uma nova etapa da vida.

A obra poderia, portanto, ser entendida também como uma representação da construção da identidade feminina no contexto do casamento renascentista.

A influência da poesia de Petrarca pode ser igualmente considerada. A literatura petrarquista construiu uma imagem idealizada da mulher, associando beleza física, virtude, amor e conflito interior. A duplicidade presente na pintura poderia refletir essa complexidade: a mulher renascentista deveria reunir características aparentemente contraditórias, como beleza e castidade, sensualidade e virtude, desejo e contenção.

O mito de Proserpina

A obra também pode ser relacionada com temas da mitologia clássica, embora a identificação das figuras não seja consensual.

Um dos mitos importantes da tradição clássica é o rapto de Proserpina por Plutão, correspondente ao mito grego de Perséfone e Hades. Proserpina, filha de Ceres, deusa das colheitas, é levada para o mundo subterrâneo por Plutão. A sua ausência provoca a tristeza e a ira de Ceres, levando à esterilidade da terra.

O mito relaciona-se com os grandes temas da morte, do renascimento e da renovação da natureza, temas particularmente importantes para a cultura renascentista. Contudo, esta associação deve ser utilizada com cautela, pois não existe consenso de que o mito de Proserpina constitua a narrativa principal representada por Ticiano.

Uma obra de múltiplas interpretações

O título Amor Sagrado e Amor Profano pode levar o observador a imaginar uma oposição simples entre dois tipos de amor. Contudo, a análise da pintura permite uma interpretação mais complexa.

As duas figuras femininas podem representar não dois amores opostos, mas duas dimensões complementares da experiência humana. O amor terreno está relacionado com a beleza, o casamento e a vida material; o amor celeste aponta para uma beleza superior e espiritual.

Nesse sentido, a obra não condena necessariamente o amor terreno. Pelo contrário, sugere que a beleza material pode constituir o ponto de partida para uma experiência espiritual mais elevada.

A própria posição de Cupido entre as duas mulheres reforça esta ideia de união. Ele actua como mediador entre os dois mundos, enquanto a água da fonte pode simbolizar a continuidade e a harmonia entre eles.

Conclusão

Amor Sagrado e Amor Profano é uma obra profundamente ligada ao pensamento humanista e neoplatónico do Renascimento. Através das duas figuras femininas, Ticiano explora temas como amor, beleza, casamento, sensualidade, castidade, espiritualidade e identidade.

A interpretação tradicional apresenta as duas mulheres como diferentes formas de Vénus: uma ligada à beleza terrena e outra à beleza celeste. Porém, a pintura parece ser mais complexa do que uma simples oposição entre o sagrado e o profano. As duas dimensões podem ser entendidas como partes de uma mesma experiência amorosa, na qual a beleza terrena pode conduzir à contemplação da beleza espiritual.

A relação entre as personagens, os objectos simbólicos, Cupido, a fonte e a paisagem criam uma composição em que o amor humano e o amor divino se encontram. É precisamente essa ambiguidade que faz da obra uma das mais importantes e fascinantes representações do pensamento neoplatónico na pintura do Renascimento.

 

 1999, © Luís Carvalho Barreira

Referência principal:

PANOFSKY, Erwin. Studies in Iconology: Humanistic Themes in the Art of the Renaissance. Oxford: Oxford University Press, 1939; reimpresso em 1962, p. 152.

Caravaggio — David com a cabeça de Golias

 Caravaggio — David com a cabeça de Golias, c. 1610

O Belo, o Horror, a Arte

Numa das salas da Galleria Borghese encontra-se uma das últimas obras de Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio: David com a cabeça de Golias, pintada por volta de 1610.

A pintura representa o episódio bíblico em que o jovem David, depois de derrotar Golias, apresenta a cabeça do gigante. Caravaggio, porém, transforma a cena numa reflexão muito mais complexa sobre violência, culpa, arrependimento e redenção.

David segura a cabeça de Golias pelo cabelo, enquanto o seu corpo permanece parcialmente oculto pela escuridão. A luz incide sobre o jovem e sobre o rosto ensanguentado do gigante, criando um contraste violento entre a beleza serena de David e o horror da morte.

Um dos aspectos mais perturbadores da obra é o facto de Caravaggio ter representado o próprio rosto na cabeça de Golias. A identificação é geralmente interpretada como uma possível manifestação de arrependimento e de consciência da própria mortalidade. Caravaggio havia cometido um homicídio em Roma, em 1606, e passou os últimos anos da sua vida em fuga e procurando obter o perdão papal.

David, por sua vez, não aparece como um herói triunfante. O seu olhar é melancólico e compassivo. A espada que segura traz a inscrição H-AS OS, geralmente interpretada como uma abreviação de Humilitas occidit superbiam — «A humildade mata o orgulho». Assim, a vitória de David sobre Golias transforma-se também numa vitória moral da humildade sobre a soberba.

A pintura possui, portanto, uma dimensão autobiográfica particularmente intensa. David pode ser simultaneamente o vencedor e aquele que concede a possibilidade de salvação ao próprio Golias-Caravaggio. A cabeça decapitada deixa de ser apenas o troféu de uma vitória bíblica e torna-se uma imagem da condição humana.

É justamente nessa tensão que reside a força da obra: o belo e o horror coexistem. A juventude de David, a delicadeza da luz e a composição cuidadosamente equilibrada contrastam com o sangue, a ferida aberta e o rosto morto de Golias.

Caravaggio aproxima o espectador da cena sem lhe oferecer distância confortável. Somos obrigados a olhar para a morte — e, através dela, para a fragilidade humana.

David com a cabeça de Golias pode assim ser entendido como uma espécie de memento mori e, simultaneamente, como um pedido de misericórdia: diante da morte, o vencedor contempla o vencido e reconhece nele a sua própria humanidade.

1999 © Luís Barreira

Alegoria da Primavera — Botticelli

Artista: Sandro Botticelli (1445–1510)

Título: A Primavera ou Alegoria da Primavera

Data: c. 1482

Técnica: têmpera sobre madeira

Localização: Galeria Uffizi, Florença, Itália

 

 

A Primavera, de Sandro Botticelli, é uma das obras mais conhecidas do Renascimento italiano e uma das pinturas mais estudadas da arte ocidental. Realizada por volta de 1482, a obra apresenta um conjunto de figuras mitológicas num jardim exuberante e pode ser interpretada como uma alegoria da chegada da Primavera, do renascimento da natureza, do amor e da fertilidade.

A origem exacta da pintura não é totalmente conhecida, embora seja geralmente associada ao círculo da poderosa família Medici. Botticelli terá recorrido a diferentes fontes literárias da Antiguidade clássica e do Renascimento, incluindo textos de Ovídio e Lucrécio, bem como à poesia de Angelo Poliziano. A obra pode também ser relacionada com os ideais do neoplatonismo florentino, segundo os quais o amor e a beleza podem conduzir o ser humano do mundo material para uma realidade espiritual superior.

A composição organiza-se num bosque de laranjeiras, onde as personagens se distribuem de forma harmoniosa. No centro encontra-se Vénus, deusa do amor, ligeiramente afastada das restantes figuras. Acima dela, o seu filho Eros (Cupido)aparece de olhos vendados, disparando uma flecha de amor. A posição de Vénus e a vegetação que a envolve conferem-lhe uma função central na composição. As árvores formam uma espécie de arco sobre a sua cabeça, funcionando visualmente como uma auréola.

A presença de Vénus reforça a importância do amor como princípio organizador da cena. A pintura pode ser entendida não apenas como uma celebração da Primavera, mas também como uma representação das diferentes formas de amor e das transformações que ele pode provocar.

Zéfiro e Clóris

No lado direito da pintura encontra-se Zéfiro, o vento do Oeste, representado como uma figura alada de tonalidade azul-esverdeada. Zéfiro aproxima-se de Clóris, uma ninfa associada à Primavera.

Na mitologia clássica, Zéfiro é uma divindade relacionada com o vento ocidental e com a chegada das condições favoráveis ao florescimento da natureza. A sua aproximação de Clóris representa a união entre o vento e a natureza fértil. Da boca de Clóris parecem sair flores, que se transformam visualmente nas flores presentes na personagem seguinte.

A figura que surge imediatamente ao lado de Clóris é identificada com Flora, a personificação da Primavera e das flores. Ela avança pelo jardim espalhando flores que retira do próprio vestido. O movimento estabelece uma continuidade entre as três figuras: Zéfiro aproxima-se de Clóris, Clóris transforma-se em Flora e Flora espalha a fertilidade e a beleza pela natureza.

O mito pode, assim, ser interpretado como uma representação da transformação e da fecundidade da natureza. O vento, que pode ser destrutivo quando violento, torna-se uma força benéfica quando associado ao florescimento da Primavera.

Vénus e Eros

No centro da composição encontra-se Vénus, que ocupa uma posição de equilíbrio entre os diferentes grupos de personagens. Acima dela está Eros, com os olhos vendados, disparando uma flecha.

A presença de Eros reforça o tema do amor como força universal. A venda sobre os seus olhos recorda a ideia tradicional de que o amor é imprevisível e pode atingir qualquer pessoa sem distinção.

Vénus surge como uma figura serena e majestosa, funcionando como elemento de equilíbrio entre o mundo natural e o mundo humano. A sua posição central contribui para organizar visualmente toda a composição.

As Três Graças

À esquerda de Vénus encontram-se as Três Graças — Aglaia, Tália e Eufrósina. As três figuras estão de mãos dadas e movimentam-se numa dança delicada e elegante.

As Graças são tradicionalmente associadas à beleza, à graça, à alegria e à sensualidade. A sua dança introduz um movimento circular na composição, contrastando com a posição mais estática de Vénus.

A relação entre as Graças, Vénus e Eros reforça a dimensão amorosa e idealizada da pintura. A beleza física deixa de ser apenas uma característica exterior e pode ser entendida como uma manifestação de uma beleza espiritual superior, ideia particularmente importante para a tradição neoplatónica florentina.

Mercúrio

Na extremidade esquerda encontra-se Mercúrio, mensageiro dos deuses. É facilmente reconhecido pelas suas sandálias aladas e pelo caduceu.

Mercúrio aparece voltado para cima, afastado das restantes figuras, utilizando o seu caduceu para tocar ou afastar algumas nuvens. A sua presença pode sugerir uma função de guardião do jardim, protegendo o espaço harmonioso representado na pintura.

A espada que transporta também pode reforçar essa interpretação. Enquanto as restantes personagens estão envolvidas na dança, no amor ou no florescimento da natureza, Mercúrio parece assumir uma função diferente, encerrando e protegendo o espaço representado.

A natureza e o renascimento

Um dos aspectos mais impressionantes da pintura é a representação extremamente detalhada da vegetação. O jardim está repleto de flores, árvores e plantas, criando uma atmosfera de abundância e fertilidade.

Botticelli demonstra um grande interesse pela observação da natureza, embora esta não seja apresentada simplesmente como uma paisagem realista. O jardim funciona sobretudo como um espaço simbólico, no qual cada elemento contribui para a ideia de renovação, beleza e fertilidade.

A Primavera surge, portanto, como uma metáfora do renascimento da vida. A natureza floresce, os seres humanos apaixonam-se e as divindades participam de um ciclo contínuo de transformação.

O amor e a interpretação neoplatónica

Uma das interpretações mais importantes da obra relaciona-se com o amor neoplatónico. Na filosofia neoplatónica desenvolvida no ambiente intelectual de Florença durante o Renascimento, a beleza física poderia constituir o primeiro passo para a contemplação de uma beleza mais elevada e espiritual.

Nesta perspectiva, Vénus não representa apenas o amor sensual. Ela pode simbolizar também uma forma superior de amor capaz de conduzir o ser humano da beleza material à beleza espiritual.

A própria organização das personagens pode ser lida como uma sequência de diferentes manifestações do amor: o desejo representado por Zéfiro, a fertilidade de Flora, o amor de Vénus, a graça das Três Graças e a dimensão intelectual associada a Mercúrio.

Possíveis retratos

Alguns estudiosos também propuseram que determinadas personagens da obra poderiam corresponder a figuras contemporâneas de Botticelli. Entre as hipóteses encontra-se a identificação de algumas das Graças com mulheres pertencentes à aristocracia florentina.

Também foi sugerido que Mercúrio poderia representar Lourenço, o Popolano, ou, segundo outras interpretações, Juliano de Médici. Do mesmo modo, existe a hipótese de que o modelo de Vénus tenha sido Simonetta Vespucci, conhecida pela sua beleza e considerada uma das musas de Botticelli.

Estas identificações, contudo, permanecem discutidas e não devem ser consideradas certezas. O interesse dessas interpretações está em mostrar como a pintura mitológica poderia também estabelecer relações com a sociedade e a cultura da Florença renascentista.

Significado da obra

A Primavera reúne diferentes dimensões do pensamento renascentista: a recuperação da mitologia clássica, o interesse pela natureza, a valorização da beleza, a representação do corpo humano e a reflexão sobre o amor.

A obra pode ser entendida, simultaneamente, como uma celebração da Primavera e do renascimento da natureza e como uma alegoria mais profunda sobre o amor, a beleza e a transformação.

A relação entre Zéfiro, Clóris e Flora representa a passagem da natureza aparentemente selvagem para a natureza fecunda e florida. Vénus e Eros introduzem o amor como força central. As Três Graças representam a beleza e a harmonia, enquanto Mercúrio encerra a composição e parece proteger o espaço idealizado do jardim.

Assim, Botticelli cria uma obra em que natureza, mitologia, amor e beleza se encontram numa única composição. A Primavera não é apenas a estação do ano: é também uma metáfora do nascimento, da renovação e da capacidade transformadora do amor.

 

 

 

Nota

A interpretação da obra permanece aberta a diferentes leituras. A identificação das personagens e o significado preciso de determinados elementos continuam a ser objecto de debate entre os historiadores da arte. O que parece evidente é que Botticelli construiu uma composição profundamente ligada à cultura humanista da Florença do século XV, na qual a mitologia clássica podia ser utilizada para expressar ideias filosóficas, morais e estéticas.

1999 © Luís Carvalho Barreira

As Tentações de Santo Antão

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516)

As Tentações de Santo Antão, c.1502

Museu Nacional de Arte Antiga

As Tentações de Santo Antão de Hieronymus Bosch: entre a Fé, a Loucura e a Crítica da Condição Humana

Hieronymus van Aeken, conhecido como Bosch (c. 1450-1516), é uma das figuras mais singulares da pintura europeia do final da Idade Média e do início da Renascença. A sua obra distingue-se pela extraordinária imaginação visual, povoada por criaturas híbridas, figuras grotescas e cenários fantásticos que desafiam os limites da realidade. Entre as suas criações mais emblemáticas encontra-se o tríptico As Tentações de Santo Antão, conservado no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, uma das mais complexas e fascinantes representações da luta espiritual do homem contra o pecado.

A pintura inspira-se na vida de Santo Antão do Deserto, considerado o pai do monaquismo cristão. Segundo a tradição hagiográfica transmitida por Santo Atanásio, Antão abandonou os bens herdados, distribuiu-os pelos pobres e retirou-se para o deserto egípcio, onde viveu em oração, penitência e contemplação. A sua existência tornou-se um modelo de ascese e de dedicação absoluta a Deus, influenciando profundamente o desenvolvimento do monaquismo cristão.

A estrutura do tríptico acompanha simbolicamente o percurso espiritual do santo. No painel esquerdo, Santo Antão inicia a sua caminhada para o deserto e para a vida eremítica. O painel central apresenta o momento mais intenso da sua provação espiritual, rodeado por visões demoníacas e tentações que ameaçam desviá-lo da fé. Finalmente, no painel direito, o santo surge sereno e recolhido, tendo alcançado a paz interior após vencer os assaltos do Mal.

O painel central constitui o núcleo dramático da composição. Bosch apresenta um universo caótico e inquietante, habitado por criaturas monstruosas, seres híbridos e cenas aparentemente absurdas. No entanto, por detrás dessa aparência fantástica esconde-se uma elaborada reflexão sobre os conflitos espirituais, morais e religiosos do seu tempo. Santo Antão surge ajoelhado em oração diante de Cristo, simbolizando a firmeza da fé perante as forças que procuram corromper a alma humana.

Uma possível leitura iconográfica sugere que parte da composição alude às divisões e heresias que marcaram a história da Igreja. Algumas figuras poderão representar doutrinas consideradas desviantes pela ortodoxia cristã, enquanto outras evocam a fragilidade das instituições religiosas perante a corrupção, a ambição e o erro. Mais do que ilustrar acontecimentos específicos, Bosch parece transformar a pintura numa alegoria da luta permanente entre a Verdade e a Falsidade, entre a fé autêntica e as suas deformações.

A dimensão moral da obra é igualmente evidente. As tentações que assaltam Santo Antão não se limitam ao domínio religioso; representam também os vícios e fraquezas da natureza humana. Bosch denuncia a luxúria, a avareza, a soberba, a inveja, a ira, a gula e a preguiça através de figuras grotescas e situações caricaturais. O recurso ao monstruoso não pretende apenas provocar medo, mas também expor ao ridículo os comportamentos humanos que afastam o homem da virtude.

No painel direito, Santo Antão aparece sentado, lendo serenamente os Evangelhos. A sua tranquilidade contrasta com o tumulto das cenas anteriores e simboliza a vitória espiritual sobre as paixões desordenadas. Em redor do santo persistem alusões aos pecados e às tentações, mas estes já não exercem qualquer domínio sobre ele. A leitura das Escrituras representa o triunfo da sabedoria, da disciplina espiritual e da fidelidade a Deus.

A originalidade de Bosch reside igualmente na sua linguagem visual. Ao contrário da harmonia e da racionalidade que caracterizam muitos artistas renascentistas italianos, como Leonardo da Vinci, Michelangelo ou Rafael, Bosch constrói um universo fragmentado e inquietante. Utilizando uma perspectiva elevada, distribui inúmeras figuras por toda a superfície pictórica, convidando o observador a alternar entre a visão de conjunto e a observação minuciosa dos detalhes. Cada figura, cada objecto e cada criatura parece encerrar um significado próprio, contribuindo para uma rede complexa de símbolos e alusões.

O grotesco assume um papel central nesta linguagem artística. Peixes transformam-se em embarcações, animais adquirem características humanas, corpos fundem-se com objectos e seres fantásticos povoam a paisagem. Estas imagens paradoxais, verdadeiras “oxímoras visuais”, encontram paralelo na tradição literária medieval e renascentista, desde as sátiras dos goliardos até obras como a Nau dos Insensatos de Sebastian Brant, o Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão ou o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Em todos estes casos, a loucura, o riso e a deformação servem como instrumentos de crítica social e moral.

A pintura pode igualmente ser entendida à luz do humanismo renascentista. Embora profundamente enraizada na tradição cristã, a obra ultrapassa a simples ilustração de episódios religiosos. Bosch reflecte sobre a condição humana, denunciando os excessos, a corrupção, a hipocrisia e os falsos profetas que ameaçam a sociedade. O seu olhar dirige-se simultaneamente ao indivíduo e às instituições, revelando uma consciência crítica que aproxima a sua pintura das preocupações intelectuais do seu tempo.

As Tentações de Santo Antão constituem, assim, muito mais do que uma representação da vida de um santo. Através de uma imaginação visual sem precedentes, Bosch transforma a narrativa hagiográfica numa reflexão universal sobre os medos, os desejos e as fragilidades humanas. O grotesco, a sátira, a loucura e o simbolismo convergem numa obra que continua a desafiar a interpretação e a fascinar os espectadores mais de cinco séculos após a sua criação. Entre o Céu e o Inferno, entre a razão e a loucura, entre a virtude e o pecado, Bosch oferece-nos uma das mais profundas meditações visuais sobre a condição humana na história da arte ocidental.


[1] Conflito entre a visão dos seguidores de Ário de Alexandria que negava a consubstancialidade entre Jesus e Deus Pai que os igualasse. Ário foi condenado por heresia no Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.).

[2] Oxímoro vem do grego Oxus – afiado, penetrante, agudo; e Moros – tolo, idiota, estúpido. A partir daí, podemos dizer que Oxímoro é uma figura de pensamento que consiste numa frase de sentido, aparentemente, absurdo, já que resulta da reunião de ideias contrárias num só pensamento. Essa figura de pensamento nos leva a enunciar uma verdade com aparência de mentira. Rene Magritte, ceci n’est pas une pipe, 1928, reforça esta ideia “oxímoro” numa leitura contraditória.

[3] Sebastian Brant (1457-1521) – Nau dos Insensatos, 1494; Erasmo (1469-1536) - O Elogio da Loucura (1511); Thomas More, Utopia; Gil Vicente (1465-1536), O Auto da Barca do Inferno, 1517.

[4] poema satírico A nau dos insensatos (Das Narrenschiff), publicado em 1494.

 

[5] Manuel Augusto Naia da Silva, Esboço do Quadro de Cebes, Cultura (revista), p. 207-213

Saturnália

Saturno devorando o seu filho por Goya, 1819-23


Chegámos ao mês X (Dezembro) para os romanos[1]. Mês das festas saturnálias ou saturnais (17 a 23 de Dezembro), em honra de Saturno, deus da agricultura, que coincidia com o solstício do inverno. As colheitas já se fizeram. A prosperidade era dádiva divina. Era tempo de agradecer aos deuses — Saturno. Os dias mais curtos davam lugar à noite e aos festejos que envolviam toda comunidade romana. Baquetes públicos, orgias, encontros familiares, troca de presentes, jogos de sedução, tudo decorria numa atmosfera de alegria e de grande permissividade. Os excessos públicos, faziam parte de uma atmosfera quase anárquica — saturnália — onde os júbilos ganhavam importância social: segundo o poeta Catulo, “o melhor dos dias”. Era o momento mais esperado após um período agrícola inteiro decorrido. Até os escravos eram desobrigados das restrições habituais pelos senhores (pater famiglia) que os libertavam — num momento único em que era habitual inverter-se os papéis. Viva o Rex Saturnalis (rei imaginário) eleito numa inversão temporária das normas sociais.


[1] Março — Marte (Deus)

Abril — Aprilis (mês das flores. Festas da Venerália em honra de Vénus (Deusa).

Maio — Maia (Deusa)

Junho — Juno (Deusa)

Julho — Júlio César (Imperador)

Agosto — Augustos (Imperador)

Setembro — mês VII (sete)

Ourubro — mês VIII (oito)

Novembro — mês IX (nove)

Dezembro — mês X (dez)

Janeiro — Jano (Deus)

Fevereiro — Februus (Deus)

 

Vénus de Vidago

Vénus de Vidago, Museu da Região Flaviense

fotografia: Luís Carvalho Barreira

O corpo pré-histórico — o Divino e a fertilidade

Vénus de Vidago é uma peça escultórica em granito, com cerca de 40 cm de altura, encontrada na região de Vidago, na aldeia de Selhariz [1], e actualmente patente no Museu da Região Flaviense. A peça apresenta um corpo feminino monolítico, sem cabeça, no qual se destacam os seios volumosos, envolvidos pelos braços e pelas mãos da figura, acentuando a presença de um ventre igualmente pronunciado. O tronco é sustentado por pernas fortes e robustas, sendo particularmente singular a representação do pé direito, disposto lateralmente, conferindo à figura uma inesperada sensação de movimento.

As ancas largas e o ventre volumoso permitem uma leitura associada à maternidade e à capacidade de gerar vida — aquilo que, numa expressão popular transmontana, poderíamos designar como uma mulher de “boas parideiras”. Trata-se, contudo, de uma interpretação e não de uma certeza quanto à intenção original da peça.

A escultura apresenta ainda uma característica particularmente significativa: não se trata de uma figura concebida para ser observada integralmente em vulto redondo. A parte posterior é lisa, de configuração aproximadamente paralelepipédica, sem o mesmo tratamento anatómico da face anterior. Esta característica poderá sugerir uma relação da peça com uma arquitectura, um espaço ou uma estrutura que condicionasse a sua observação. Poderá, portanto, ter existido uma função ritual ou simbólica específica, embora a ausência de contexto arqueológico suficiente não permita determinar com segurança a sua finalidade original.

A designação de Vénus de Vidago aproxima-a, pela tradição historiográfica, de um conjunto muito diferente de pequenas figuras femininas paleolíticas, como as de Hohle Fels, Willendorf, Lespugue ou Grimaldi. Essa aproximação é sobretudo formal e interpretativa. A designação “Vénus” foi atribuída posteriormente pelos investigadores e não constitui prova de que estas figuras fossem efectivamente deusas ou objectos de culto.

Ainda assim, a recorrência de determinadas formas — seios desenvolvidos, ventre acentuado e ancas largas — permite pensar numa possível valorização simbólica do corpo feminino e da sua capacidade de gerar vida. A associação entre o corpo da mulher e a fertilidade da Natureza constitui uma hipótese particularmente sugestiva: de um lado, a mulher que gera; do outro, a terra que produz. Ambas participam de uma mesma experiência fundamental — a renovação da vida.

É nesta relação que a ideia de Mãe-Natureza adquire sentido enquanto construção interpretativa. Mais do que afirmar a existência de uma divindade universal da fertilidade na Pré-História, interessa perceber como o ser humano poderá ter encontrado na Natureza e no próprio corpo modelos para representar aquilo que excedia a sua experiência imediata. A maternidade, a fecundidade da terra, a abundância dos alimentos e a continuidade da vida podiam constituir diferentes manifestações de um mesmo fenómeno: a capacidade de gerar.

O mesmo princípio pode ser observado, em sentido complementar, na representação do falo. Os monumentos fálicos, os menhires e determinadas estátuas-estelas permitem pensar numa simbologia relacionada com a fecundação, a potência e a criação. A estátua-menir fálica de Chaves constitui, neste contexto, um exemplo particularmente relevante. A peça foi estudada por Vítor Oliveira Jorge e Carlos Alberto Ferreira de Almeida numa publicação específica de 1980, dedicada à sua análise arqueológica.

O corpo feminino e o corpo masculino tornam-se, assim, duas possibilidades complementares de representação da criação: um associado à capacidade de gerar e nutrir a vida; outro à potência fecundadora. Não se trata necessariamente de uma oposição entre feminino e masculino, mas de duas dimensões de uma mesma inquietação humana perante a continuidade da existência.

Tudo isto nos conduz a um passado muito distante, a um período de milhares de anos em que o ser humano dependia directamente dos ritmos da Natureza. Muito antes da agricultura, o Homo sapiens observava a alternância entre o dia e a noite, o movimento dos astros, a sucessão das estações, o nascimento e a morte dos animais, o crescimento das plantas e os períodos de abundância ou escassez que condicionavam a sua sobrevivência.

A Natureza apresentava-se como uma realidade cíclica. O Sol desaparecia para regressar; as estações sucediam-se; as plantas nasciam, cresciam e morriam; os animais reproduziam-se; os alimentos reapareciam segundo ritmos que podiam ser observados e reconhecidos. O tempo podia, assim, ser experienciado como repetição e renovação.

Mas havia uma contradição fundamental nessa experiência.

Enquanto a Natureza parecia renovar-se continuamente, o indivíduo confrontava-se com a irreversibilidade da própria existência. O nascimento conduzia à vida e a vida conduzia à morte. O ser humano podia observar o retorno das estações, mas não podia observar o seu próprio retorno depois da morte.

É neste confronto entre o ciclo da Natureza e a finitude individual que podemos situar uma das questões fundamentais da experiência humana: aquilo que conhece e aquilo que não pode conhecer.

O desconhecimento pode ser progressivamente combatido através da experiência, da observação, da memória e da transmissão de conhecimentos entre gerações. A morte, porém, permanece como um limite radical. Ela introduz uma dimensão que não pode ser directamente experimentada: o desconhecido, o absoluto, o invisível e, eventualmente, o transcendente.

Perante esse limite, o ser humano produz símbolos.

Os objectos que cria, as imagens que grava ou pinta, as esculturas que modela e os monumentos que constrói podem ser entendidos como formas de estabelecer uma relação entre aquilo que é conhecido e aquilo que permanece desconhecido. Não sabemos exactamente que significados lhes eram atribuídos pelas comunidades que os produziram, mas sabemos que determinadas formas foram repetidamente seleccionadas, transformadas e incorporadas em contextos materiais e culturais específicos.

É aqui que o corpo adquire uma importância particular.

O corpo é a primeira realidade que o ser humano conhece directamente. É através dele que sente, deseja, sofre, se alimenta, se reproduz e experiência a passagem da vida para a morte. O corpo é, simultaneamente, matéria e experiência. É aquilo que permite ao indivíduo relacionar-se com a Natureza e, ao mesmo tempo, aquilo que lhe recorda permanentemente a sua própria condição finita.

O corpo poderá, por isso, ter constituído uma das primeiras linguagens através das quais o ser humano procurou representar o invisível.

A metafísica, quando surge como necessidade de pensar aquilo que ultrapassa a experiência imediata, não precisa de partir de conceitos abstractos. Pode nascer da própria realidade vivida. O corpo feminino que gera uma criança, a terra que produz alimento, o animal que se reproduz, a semente que germina, o Sol que desaparece e regressa — todos estes fenómenos oferecem modelos concretos para pensar a transformação e a continuidade da vida.

É neste ponto que proponho o conceito de corpo poiético.

Poiético, porque o corpo não é apenas matéria existente ou matéria representada: é também matéria capaz de criar, transformar e significar. O corpo é instrumento, suporte e linguagem. É através dele que o ser humano experiencia o mundo e é também através dele que transforma essa experiência em gesto, imagem, objecto e símbolo.

A criação simbólica não deve, portanto, ser reduzida à satisfação das necessidades imediatas de sobrevivência. Ela parece ultrapassar o estritamente necessário para viver. O ser humano produz formas, imagens e objectos que condensam experiências, emoções, memórias e inquietações que não encontram resposta apenas na dimensão material da existência.

É neste sentido que podemos compreender algumas das primeiras manifestações escultóricas, gráficas e monumentais conhecidas. Não sabemos se eram “arte” no sentido moderno da palavra, nem podemos atribuir-lhes automaticamente uma função religiosa. Mas podemos reconhecer nelas uma capacidade de transformar a experiência em matéria simbólica.

O objecto criado torna-se, então, mediador entre o ser humano e aquilo que o ultrapassa.

Vénus de Vidago pode ser observada a partir desta perspectiva. O seu corpo não é apenas uma representação anatómica. A ênfase colocada nos seios, no ventre e nas ancas transforma o corpo feminino num campo de significação. A mulher deixa de ser apenas indivíduo para poder representar — pelo menos enquanto possibilidade interpretativa — a capacidade de gerar, alimentar e perpetuar a vida.

A fertilidade da mulher e a fertilidade da Natureza podem, deste modo, ser aproximadas simbolicamente. A terra que dá alimento e o corpo que gera tornam-se imagens de uma mesma força criadora.

Mas a peça de Vidago não deve ser confundida cronologicamente com as pequenas figuras femininas paleolíticas. Ela pertence a um contexto histórico muito posterior e deve ser compreendida dentro das sociedades proto-históricas do noroeste peninsular. A sua importância reside precisamente nessa transformação: o corpo feminino continua a constituir uma matéria simbólica poderosa, mas surge agora inserido num universo cultural, social e religioso diferente daquele que produziu as figuras paleolíticas tradicionalmente designadas por “Vénus”.

É neste intervalo temporal — entre as primeiras representações humanas e as sociedades da Idade do Ferro — que se torna possível acompanhar uma transformação fundamental: o corpo deixa de ser apenas uma experiência individual para se tornar também um lugar de memória colectiva, identidade, poder e representação simbólica.

Vénus de Vidago, nesse sentido, interessa-nos menos como prova de uma suposta continuidade de um culto universal à “Deusa-Mãe” e mais como testemunho da persistência de uma questão humana: como representar a criação da vida e a relação do indivíduo com as forças que sente serem maiores do que ele próprio?

A resposta encontrada pelo ser humano passa repetidamente pelo corpo.

O corpo que gera.

O corpo que fecunda.

O corpo que trabalha.

O corpo que sofre.

O corpo que morre.

E o corpo que cria.

É nesta última dimensão que o corpo poiético encontra a sua verdadeira expressão: o corpo que transforma a experiência em criação e a criação em símbolo.

A Natureza continuará a assumir diferentes rostos e significados ao longo da História. As divindades mudarão, os rituais transformar-se-ão, os sistemas religiosos serão substituídos e reinterpretados. Mas permanecerá uma relação fundamental entre o corpo, a criação e a tentativa de compreender o absoluto.

A matéria torna-se símbolo.

O corpo torna-se linguagem.

E a criação torna-se uma das formas através das quais o ser humano procura ultrapassar a sua própria finitude.

Estela fálica, Museu da Região Flaviense[4]

Texto e fotografias: 1998-2025 © Luís Carvalho Barreira




Mapa: Vénus no Paleolítico


[1] Aquae Flaviae, pág 110. (Livro consultado no Museu da Região Flaviense)

[2] Ver mapa em anexo.

[3] Na Antiguidade Clássica ele era um símbolo apotropaico, ou seja, tinha o poder de afastar o azar e as influências maléficas, ao mesmo tempo em que simbolizava a protecção junto à ideia de fertilidade e vida.

[4] Casualmente descoberta em trabalhos de desassoreamento que no ano de 1980 se efectuaram junto da Ponte Romana, a Estátua-Menir de Chaves revela uma morfologia fálica esquadrada em quatro faces onde se insculpe um conjunto de atributos de carácter guerreiro com provável significação simbólica e ritual. A estela foi criada sobre o suporte de um bloco paralelepipédico, podendo ter resultado do reaproveitamento de um menir de cronologia mais recuada e onde a parte superior era destacada para dar a configuração geral de um falo. A peça, estudada em pormenor por Carlos Alberto Ferreira de Almeida e Vítor Oliveira Jorge (ALMEIDA; JORGE: 1980, p.5 - 24), é de um granito de boa qualidade, e apesar de algumas escoriações que resultaram da sua remoção do leito do rio Tâmega, encontra-se em bom estado de conservação.

[5] Aquilo que mais tarde Aristóteles definiu como Ethos / Pathos / Logos: Um apelo ao ethos depende da credibilidade, competência e reputação da pessoa que faz o argumento. O recurso para pathos é um argumento emocional. Argumentos dessa natureza podem ter como alvo sentimento comum, valores culturais compartilhados ou serem estruturados para manipular e provocar uma resposta emocional directa. A pessoa que faz o argumento procura fazer o ouvinte se identificar com ela. O recurso para logos é um argumento lógico. A credibilidade do argumento repousa sobre a sua coerência e estrutura interna, bem como a evidência apresentada no seu apoio. Um argumento pode ser de apenas um desses estilos, mas Aristóteles acreditava que um argumento eficaz mistura todas as três qualidades.

[6] Nota: para Platão um Ser é percebido a partir do espírito ou das Ideias que se sobrepõem às percepções sensoriais. Para Aristóteles a reunião das características comuns de cada Ser define a natureza intrínseca de cada Ser. Para S. Tomás de Aquino (Tomismo) a concepção geral de um Ser é percebida unicamente através do pensamento e eventualmente dissociada da realidade existencial, única e palpável.

[7] Tribos vindos do centro da europa principais responsáveis pela introdução e manufactura do ferro. Os celtas são considerados os introdutores da metalurgia do ferro na Europa, dando origem naquele continente à Idade do Ferro (culturas de Hallstatt e La Tène).

Brueghel, Pagamento de Impostos, 1616

'O Cobrador de Impostos'

Pieter Brueghel II, o Jovem ou do Inferno (1564-1637)

Flandres, 1616

Óleo sobre madeira de carvalho

Alt. 51,9 cm. x Larg. 83,7 cm.

Colecção Museu Medeiros e Almeida


O pintor flamengo Pieter Brueghel II recriou esta imagem dezenas de vezes com dimensões diferentes. É uma composição satírica datada de 1616, pensada para estigmatizar a pressão fiscal que os Países Baixos suportaram durante a ocupação espanhola.

«Nesta pintura, conhecida como “O Cobrador de Impostos”, “O Advogado dos Camponeses”, “O Advogado das más Causas” ou “O Escritório do Notário”, é mostrado o interior de um escritório com duas janelas, uma porta entreaberta, duas secretárias cheias de papéis e inúmeros sacos pendurados pelas paredes. À direita, por trás de uma das secretárias, um personagem sentado, de barba em bico, vestimenta escura e barrete – o advogado ou cobrador - analisa um documento, flanqueado por um homem em pé à esquerda e outro homem à direita que olha para um almanaque pendurado na parede. Do outro lado da secretária uma fila de pessoas – seis homens e uma mulher-, em atitude humilde, carregando cestos e sacos com géneros para fazer o pagamento dos seus impostos, esperam a sua vez para ser atendidos. No fundo do escritório, junto da porta, um escriturário escreve alheio à confusão e à desordem dominante.

A temática:

Esta composição insere-se nda tradição da caricatura europeia, não só na forma e na narrativa quase teatral, como também na temática. O tema abordado - o pagamento de impostos ou o escritório do advogado - era relativamente frequente e popular na Flandres do século XVII, resultando de uma sociedade em que a actividade financeira se tinha desenvolvido muito rapidamente.

O facto da figura principal ter uma certa semelhança com um espanhol fez com que esta obra tenha sido identificada como uma crítica às condições sufocantes que o povo dos Países Baixos suportou durante a ocupação filipina. Porém, norma geral, estas pinturas não aludiam a personagens concretos, funcionando como reflexo da sociedade, constituindo-se sim como sátiras da avareza e corrupção dos homens de leis e da sua relação com o poder.

São vários os autores que, baseando-se na paleta de cor e em alguns pormenores – nomeadamente nas vestimentas das personagens e no facto de o almanaque à direita do quadro estar escrito em francês (não esquecendo que naquela altura o francês era a língua erudita na Flandres) -, sugerem que esta obra surgirá a partir de um protótipo francês desconhecido, havendo também a leitura de que este exemplar específico poderá ser originário de um encomendante francês. O certo é que, independentemente da fonte de inspiração, este será um dos temas inventados pelo próprio Pieter Brueghel o Novo e não, como muitas das suas outras criações, resultado de cópias de obras do seu pai, Pieter Brueghel o Velho.                                                                                                                      

Conhecem-se 91 cópias desta pintura (relação feita pelo historiador Georges Marlier em 1969) realizadas entre 1615 e 1630, muitas delas saídas do próprio atelier de Pieter Brueghel II e outras realizadas pelo seu filho Pieter Brueghel III, que diferem apenas em pormenores; esta multiplicação que resulta chocante hoje em dia, onde a exclusividade e a originalidade são qualidades per se, não era em absoluto inusual na altura, onde a reprodução de composições célebres era bem aceite sendo uma forma de responder à grande demanda por parte da burguesia em relação a certas obras que se tornaram populares.

A maioria destas cópias são de um formato similar, próximo dos 55cm x 88cm, como é o caso do exemplar da Casa-Museu, dado que eram realizadas pela técnica de trespasse conhecida como 'punção'; porém existem alguns exemplos de maiores dimensões, à volta dos 79 cm x 126 cm. Esta produção a grande escala dá fé da popularidade do tema, chegando a abrir-se já em 1618 uma gravura, divulgada pelo livreiro Paulus Fürst de Nuremberga, e que foi inclusivé usada como modelo para ilustrar panfletos atacando a corrupção dos advogados. Outros autores também continuaram este tópico, como Pieter de Bloot que, em 1628 pintará um quadro com o título “O Escritório do Advogado” – hoje no Rijksmuseum de Amsterdão – com uma inscrição satírica alusiva aos homens de leis.

  

O autor:

Pieter Brueghel II (1564-1636), também conhecido como Pieter Brueghel o Novo para diferenciá-lo do seu pai, ou Pieter Brueghel do Inferno (esta última denominação tem sido discutida por alguns autores que não encontram sustento para a sua atribuição), provém de uma família de pintores sendo filho mais velho de Pieter Brueghel o Velho (1525/1530-1569) e irmão de Jan Brueghel (1568 – 1625). O seu filho, Pieter Brueghel III continuará também a tradição familiar.

Aos cinco anos de idade fica órfão de pai e aos 14 anos perde também a mãe. Ele e os irmãos Jan e Marie irão viver com a avó paterna Marie Verhulst de Bessemers, viúva do artista Pieter Coecke van Aelst (d’Alost). Sendo ela própria pintora miniaturista, vai ser a primeira professora dos irmãos Brueghel - Jan irá especializar-se em pintura de pequena escala (veja-se a obra ‘A Paragem’ pertencente à Casa-Museu). Mais tarde Pieter entrará como aprendiz no atelier de Gillis van Coninxloo (1544-1607), em 1585 aparece já registado como membro da Guilda de São Lucas e pouco depois casará com Elisabeth Goddelet, com quem tem sete filhos.  

Pieter, ao contrário de seu irmão, nunca sairá dos Países Baixos e, embora não tenha aprendido o ofício com o seu pai, dedicará grande parte da sua carreira a fazer cópias das obras deste no seu atelier, às que juntará algumas composições próprias - nomeadamente paisagens, temas religiosos e pinturas fantasiosas - entre as quais a mais conhecida será “O Cobrador de Impostos”.

Mesmo que sempre se fale de Pieter Brueghel como o “pobre” da família em comparação com seu irmão Jan, a verdade é que, apesar de ter atravessado algumas dificuldades económicas, dirigiu um próspero atelier que recebia numerosas encomendas e no qual trabalhavam vários artistas, como testemunha a grande quantidade de obras nele produzidas.»

Proveniência:

Pertenceu à colecção dos Condes de Lafon, Borgonha (Christian Charles Louis, 1853-1934)

Anunciado na revista Art & Curiosité, de Junho-Julho-Agosto de 1971.

Adquirido a J. O. Leegenhoek Tableaux - 96, Av. Kléber, Paris - em Junho de 1971, por FFR 120.000. Nessa altura será feita a moldura, a tartaruga, oferta do vendedor a Medeiros e Almeida.


Samantha Coleman-Aller


Casa-Museu Medeiros e Almeida

 FONTE: http://www.casa-museumedeirosealmeida.pt/




Bibliografia:

BENEZIT, E., Dictionnaire critique et documentaire des Peintres, Sculpteurs, Dessinateurs et Graveurs, Librairie Gründ, France,  1961, vol. 2, p.171

FRANCO, Anísio, Realidade e Capricho. A pintura Flamenga e Holandesa da Fundação Medeiros e Almeida, Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa, 2008

MARLIER, Georges, Pierre Brueghel Le Jeune, Editions Robert Finck, Brussels, 1969

Artigos:

ART & CURIOSITÉ, Junho-Julho-Agosto, Paris, 1971, p.41

CONNAISSANCE DES ARTS, Fevereiro, 1968, pp.94 a 100 e 105

LE FIGARO MAGAZINE, ‘Les Bruegel. Tel père tel fils’, 23 Março 2002, pp.62-67

Diogo Teixeira, Incredulidade de S. Tomé, 1595

Diogo Teixeira, Incredulidade de S. Tomé, 1595

óleo sobre tábua, finais do século XVI

Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Arouca


A teatralização da pose, a robustez anatómica do corpo, as tonalidades simultaneamente ácidas e baças e a atmosfera sombria, onde a luz faz emergir a figura central para o primeiro plano, constituem alguns dos elementos através dos quais se afirma o perfil espiritualista e metafísico do Maneirismo contra-reformista português.

Nesta pintura, contudo, Cristo já não é o corpo exangue, frágil ou esquelético de certas representações medievais. A imagem da Ressurreição exige agora um corpo transformado: não simplesmente um corpo que venceu a morte, mas um corpo glorioso, íntegro, vigoroso e fisicamente credível. A humanidade de Cristo torna-se visível na sua corporeidade.

É precisamente nessa tensão entre o divino e o humano que reside uma das dimensões mais significativas da obra.

O tratamento cuidado dos tecidos, através de uma modelação que lhes confere densidade e volume, demonstra o interesse do pintor pela dimensão material das coisas. As superfícies são construídas de modo a adquirir presença quase táctil, enquanto a iluminação modela os volumes e organiza a hierarquia visual da composição.

Existe, simultaneamente, uma liberdade criativa que permite conferir às figuras principais um protagonismo inequívoco. As personagens que se dispõem em segundo plano não desaparecem da narrativa; pelo contrário, contribuem para acentuar a tensão dramática do episódio e funcionam como uma espécie de contraponto colectivo à atitude céptica e expectante de São Tomé.

O centro psicológico da composição encontra-se precisamente no encontro entre Cristo e o apóstolo.

A elegância da modelação anatómica, articulada através de uma cuidadosa harmonização luminosa, transforma o corpo de Cristo num corpo simultaneamente transcendente e palpável. A Ressurreição deixa de ser apenas um acontecimento que se acredita para se converter numa realidade que quase se pode tocar.

Cristo segura vigorosamente a mão de São Tomé e conduz os dedos do apóstolo até à ferida. O gesto é de uma extraordinária eficácia narrativa: torna verosímil aquilo que, pela sua própria natureza, pertence ao domínio do sobrenatural.

Ver para crer.

A incredulidade de São Tomé torna-se, assim, o próprio mecanismo através do qual a pintura procura convencer o espectador. O apóstolo precisa de tocar para acreditar; o observador, perante a materialidade do corpo representado, é convidado a acreditar através daquilo que vê.

Diogo Teixeira recorreu, nesta composição, a uma fonte gravada de Albrecht Dürer, inscrevendo a obra numa tradição de circulação de modelos e imagens que era fundamental para a cultura artística europeia dos séculos XVI e XVII. A fortuna desta composição é igualmente revelada pelas várias réplicas e versões que dela foram realizadas posteriormente, testemunhando a sua aceitação e difusão.

 

O corpo na cultura da Contra-Reforma

 

A transformação do corpo de Cristo não pode ser dissociada das profundas alterações ocorridas na cultura visual europeia após o Concílio de Trento.

A imagem religiosa adquiriu então uma função pedagógica e devocional particularmente importante. Não bastava representar correctamente os conteúdos da fé: era necessário produzir imagens capazes de instruir, comover e orientar espiritualmente o fiel, evitando simultaneamente aquilo que pudesse ser entendido como indecoroso, ambíguo ou susceptível de provocar erro.

As constituições sinodais dos diferentes bispados, amplamente difundidas no período pós-tridentino, contribuíram para regulamentar a produção e o uso das imagens religiosas. Procurava-se evitar representações consideradas inadequadas, nomeadamente as chamadas “imagens de formosura dissoluta”, ou aquelas que pudessem dar ao povo “ocasião de erro, ou escândalo”.

A representação do corpo passou, por isso, a situar-se num território particularmente delicado.

O corpo de Cristo tinha de ser suficientemente humano para tornar credível a Encarnação e a Paixão, mas suficientemente ordenado e dignificado para manifestar a sua natureza divina. A sensualidade não poderia sobrepor-se à devoção; a beleza deveria estar subordinada à verdade religiosa.

É nesta tensão que podemos compreender a nova centralidade do corpo na pintura religiosa portuguesa do final do século XVI.

 

Do corpo flagelado ao corpo ressuscitado

 

A representação de Cristo constitui uma das mais complexas questões da iconografia cristã. O corpo sofredor, ferido e flagelado da Paixão coexistia com a necessidade de representar o corpo ressuscitado como manifestação da vitória sobre a morte.

O que se altera não é apenas a aparência física de Cristo, mas a própria concepção do corpo como veículo de uma verdade teológica.

O corpo deixa de ser apenas o lugar da dor e da mortificação para se tornar também o lugar da Encarnação, da Ressurreição e da manifestação visível do Logos.

A matéria corporal, longe de ser negada, passa a funcionar como instrumento de afirmação da fé.

Na Incredulidade de São Tomé, esta questão adquire uma expressão particularmente poderosa: a ferida que o apóstolo toca é simultaneamente prova física da morte e sinal da vitória sobre ela. A chaga permanece, mas o corpo já não pertence ao domínio da corrupção.

É um corpo que conserva a memória do sofrimento sem permanecer submetido a ele.

 

O corpo elegíaco

 

A expressão “corpo elegíaco” pode, neste contexto, ser entendida como uma chave interpretativa para a cultura visual da Contra-Reforma: um corpo que transporta simultaneamente a memória da dor, a dignidade do sacrifício e a promessa da redenção.

Não se trata, portanto, simplesmente de um novo ideal anatómico.

A robustez física de Cristo possui uma função teológica. O corpo atlético, vigoroso e perfeitamente modelado não procura apenas satisfazer uma preocupação estética; pretende tornar visível a realidade da Ressurreição.

A matéria é chamada a testemunhar o espírito.

Neste sentido, a pintura de Diogo Teixeira encontra-se num momento particularmente significativo da arte portuguesa: aquele em que a tradição maneirista, com as suas figuras alongadas, os seus espaços comprimidos, as atmosferas densas e a sua forte carga espiritual, começa a incorporar uma atenção renovada à corporeidade e à eficácia sensorial da imagem.

O resultado é uma pintura simultaneamente disciplinada e teatral, devocional e sensorial.

O corpo de Cristo não é apenas representado: é apresentado como prova.

E é precisamente aí que reside a extraordinária eficácia desta Incredulidade de São Tomé: perante o olhar desconfiado do apóstolo, a pintura transforma a imagem em argumento.

São Tomé quer tocar para acreditar.

O espectador olha para acreditar.

E a arte, entre a fé e a matéria, procura tornar visível aquilo que, por definição, pertence ao invisível.



1998 © texto de Luís Carvalho Barreira


[1] É sabido da grande importância das gravuras e a obra de Dürer teve na pintura em geral e na portuguesa em particular. As gravuras funcionavam para os pintores e escultores como os tratados de arquitectura para os arquitectos. E se o tratado do Vitrúvio foi “bíblia clássica” para os novos tratadistas (Alberti, Bramante, Sebastião Serlio, Vignola, Palladio, Scamozi, Pietro Cataneo, etc.) tornando bem claro os cânones clássicos que a arquitectura havia de obedecer; ordem, simetria, proporção, forma, para a arte portuguesa regia-se pelo dogma religioso.

[2] O corpo, essa «forma, segundo José Fernandes Pereira, essa incontornável presença do mundo e da condição humana, era um marco disperso pela terra como ordem e sinal, sendo do domínio da arte. A beleza era outra coisa, pressupunha a eliminação da Multiplicidade e a relação ao Uno incorpóreo, fonte do nosso desejo que o despojamento e o amor permitem alcançar». in Vieira Lusitano 1699-1783, o desenho, Catálogo, Ministério da Cultura, Museu de Arte Antiga, Lisboa, 2000, pp.14-15.

[3] O grande teólogo Hugues de Saint-Victor acrescentaria ainda: «se o acasalamento dos pais não puder ser feito sem desejo carnal, a concepção dos filhos não se faz sem pecado». Citado por Georges Duby, Amor e sexualidade no Ocidente, p.200.

[4] Flávio Gonçalves, A legislação sinodal portuguesa da Contra-Reforma e a Arte Religiosa, in Comércio do Porto, Fevereiro, 1960.

[5] A representação figurativa do corpo, na arte portuguesa, limitava-se, salvo raras excepções, a veicular dor, sofrimento, martírio, compaixão. Este corpo elegíaco fará escola no romantismo português.

Os artistas criam, mas a Arte — essa — é obra dos Homens.

 

Francois-Joseph Heim (1787-1865)

Charles X galardoando os artista do Salão de 1824 no Louvre.

O que é a Arte? Será a Arte indizível?

A Arte é…

Aceitemos, como ponto de partida, a conhecida definição de Dino de Formaggio: «A arte é tudo aquilo a que os homens chamam de arte.»

Esta afirmação não procura propriamente definir o que é a Arte. Em vez disso, coloca a questão da sua validação: aquilo que é considerado arte depende, em grande medida, dos homens e das comunidades que legitimam determinados objetos, práticas e experiências como artísticos. Museus, academias, críticos, artistas, historiadores, instituições e comunidades participam, assim, na construção daquilo que entendemos por Arte.

Surge então uma pergunta fundamental:

Sempre foi assim?

Os artistas criam, mas a Arte — enquanto conceito e instituição — é também uma construção humana.

A concepção contemporânea de Arte é, em grande parte, herdeira do academismo desenvolvido a partir do século XVII e, sobretudo, da tradição das Belas-Artes, associada ao pensamento enciclopedista e às transformações culturais desencadeadas pela Revolução Francesa. Esta concepção distancia-se da tradição medieval dos métiers, isto é, das artes aplicadas e dos ofícios desenvolvidos nas guildas e pelos mestres artesãos.

Mesmo quando a arte contemporânea questiona a própria existência da obra, da ideia ou da materialidade artística, a relação entre obra e espectador continua a ser fundamental. A experiência artística nasce precisamente desse encontro entre aquilo que é apresentado e o olhar de quem observa, interpreta e atribui significado.

Por isso, a obra não pode ser completamente separada da sua dimensão formal. Mesmo quando a arte procura destruir a forma, negar a obra ou questionar a própria ideia de arte, permanece alguma coisa que pode ser experienciada, interpretada e discutida esteticamente.

 

O artista e a memória

Todo o artista é, de certo modo, herdeiro da memória artística da humanidade.

Antes de desenvolver uma linguagem própria, o artista dialoga com aquilo que recebeu dos seus antecessores. As suas obras carregam referências, influências, imagens, técnicas e ideias provenientes de outros tempos e de outros artistas.

O artista é, portanto, simultaneamente criador e continuador.

Com o tempo, porém, desenvolve a sua própria voz. A obra deixa de ser apenas uma repetição do passado e passa a constituir uma nova possibilidade de olhar para o mundo.

Mas uma obra de arte nunca possui uma interpretação única e definitiva. Cada época, cada cultura e cada espectador podem encontrar nela novos significados. A obra permanece aberta a novos pontos de vista, novas interpretações e novas experiências estéticas.

É por isso que uma obra de arte não pode ser reduzida a uma explicação causal. Podemos estudar as suas circunstâncias históricas, compreender as intenções do artista, analisar os seus elementos formais ou recorrer a teorias para interpretá-la. No entanto, nenhuma dessas explicações consegue esgotar completamente aquilo que a obra significa.

A obra de arte pode ser explicada, mas nunca completamente encerrada numa explicação.

 

A Arte como interpretação

Aquilo que hoje consideramos uma obra de arte nem sempre foi produzido com essa intenção.

Muitos objectos actualmente expostos em museus foram originalmente criados com funções religiosas, políticas, funerárias, decorativas ou utilitárias. Da mesma forma, aquilo que hoje valorizamos como arte poderá deixar de ser considerado artístico no futuro.

O conceito de Arte está, portanto, em permanente transformação.

Interpretar os fenómenos artísticos significa reconhecer que a nossa própria ideia de “obra de arte” depende do tempo, da cultura e da sociedade em que vivemos.

Não existe, por isso, um olhar absolutamente neutro. Cada interpretação parte de uma determinada época, de determinados valores e de uma determinada experiência humana.

O espectador não é apenas alguém que observa passivamente. Ele participa na construção do significado da obra.

 

A relação entre sujeito e objecto

Neste sentido, podemos compreender a Arte como uma relação entre sujeito e objecto.

A obra existe enquanto objecto, mas a experiência artística acontece no encontro entre esse objecto e aquele que o contempla.

Nós mudamos e, por consequência, as obras também mudam connosco.

A mesma pintura pode provocar diferentes sentimentos e interpretações em pessoas diferentes, ou até na mesma pessoa em momentos distintos da sua vida. Uma obra observada na juventude pode adquirir um significado completamente diferente muitos anos depois.

A realidade encontra-se, tal como nós próprios, num permanente processo de transformação. Espaço, tempo, memória e experiência participam desse movimento contínuo.

A obra de arte nunca está completamente acabada porque cada novo olhar pode recriá-la simbolicamente.

 

O Corpo Poiético

Se procurarmos um elemento comum entre o artista e a Arte, podemos encontrar o corpo.

É através do corpo que o artista vê, sente, pensa, cria e transforma a matéria. É também através do corpo que o espectador observa, experimenta e sente a obra.

O corpo torna-se, assim, um lugar de passagem entre a experiência interior e o mundo exterior.

É neste sentido que podemos falar do Corpo Poiético: o corpo enquanto lugar de criação, transformação e produção de sentido.

A Arte não nasce apenas de uma ideia abstracta. Ela envolve o corpo, a memória, a experiência, a percepção, a emoção e a relação com o mundo.

 

A Arte é indizível?

Talvez seja precisamente aqui que se encontre a dificuldade de definir a Arte.

Podemos falar sobre uma obra, descrevê-la, contextualizá-la, analisá-la historicamente, interpretá-la filosoficamente ou estudar a sua forma. Mas existe sempre alguma coisa que escapa à linguagem.

A experiência estética não é totalmente traduzível em palavras.

Por isso, podemos dizer que a Arte é indizível, não porque não possa ser discutida ou interpretada, mas porque nenhuma linguagem consegue esgotar aquilo que uma obra pode provocar em nós.

A Arte permanece aberta.

Aberta ao tempo, à memória, ao olhar, à interpretação e à experiência.

A Arte é a nossa faculdade de espanto.

É a capacidade de olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer e descobrir algo inesperado.

É a possibilidade de ver, sentir e pensar de outra maneira.

E talvez seja precisamente por isso que a Arte nunca possa ser definida de forma definitiva: porque, enquanto nós mudarmos, também mudará aquilo que somos capazes de ver numa obra.

 

 



A Arte é a nossa faculdade de espanto, 2000 © Luís Carvalho Barreira


[1] extraído da tese de mestrado em teorias da arte - Faculdade de Belas Artes, no ano 2 mil.

Êxtase de Santa Teresa

Êxtase de Santa Teresa de Gian Lorenzo Bernini, 1647–1652

Igreja de Santa Maria della Vittoria

Roma, 2023

fotografia: © Luís Carvalho Barreira

À descoberta do pathos na obra de Bernini

 

 

Gian Lorenzo Bernini teve uma longa e profícua carreira artística, marcada por obras que testemunham de forma exemplar a sua genialidade. Entre elas destaca-se o Êxtase de Santa Teresa, realizado por encomenda do Cardeal Cornaro para a capela funerária da sua família, na igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma.

Quando recebeu esta encomenda, Bernini ainda não recuperara do humilhante revés sofrido com o projecto das torres sineiras da fachada da Basílica de São Pedro. Após uma das torres ameaçar ruir, foi ordenada a sua demolição. Ferido no orgulho e publicamente desacreditado — tendo o seu rival Francesco Borromini sido apontado como aquele que denunciou as deficiências do projecto — o escultor atravessava um dos momentos mais difíceis da sua vida. Perdera o favor do Papa Inocêncio X e, com ele, as grandes encomendas que haviam feito dele o artista mais admirado de Roma.

A esta crise profissional somava-se um profundo drama pessoal. Consumido pelo ciúme, Bernini mandou desfigurar o rosto da sua amante, Costanza Bonarelli, ao descobrir que esta mantinha uma relação com o seu irmão, Luigi. Conhecedor dos extremos da paixão humana e da força devastadora do desejo, encontrou nos escritos místicos de Santa Teresa de Ávila um terreno fértil para sublimar a sua própria experiência emocional. A encomenda do Cardeal Cornaro ofereceu-lhe a oportunidade de transformar sofrimento e paixão numa das mais extraordinárias realizações do Barroco.

Êxtase de Santa Teresa constitui uma síntese perfeita das artes barrocas. Escultura, arquitectura, pintura, luz e decoração fundem-se numa verdadeira obra de arte total. O altar é enquadrado por duas colunas coríntias de cada lado, acompanhadas por pilastras da mesma ordem que sustentam um frontão interrompido. Sobre este, uma clarabóia oculta permite que a luz natural incida sobre o grupo escultórico, congelando o instante da transverberação de Santa Teresa.

Toda a capela foi concebida como um espaço teatral. A exuberância decorativa, marcada por mármores policromos, motivos vegetalistas, putti e querubins, traduz os princípios fundamentais da estética barroca: teatralidade, ilusionismo e sedução dos sentidos. O observador deixa de ser um simples espectador para se tornar participante da experiência espiritual que ali se desenrola.

É neste palco que o dramatismo atinge a sua máxima expressão. A obra procura despertar emoções intensas, promovendo empatia e identificação com a experiência mística da santa espanhola. Bernini revela uma atenção extraordinária ao detalhe. Nos camarotes laterais, os membros da família Cornaro assistem ao acontecimento como espectadores privilegiados, trocando olhares discretos e comentando silenciosamente a cena. A sua presença reforça a dimensão teatral da composição e transforma-nos, também nós, em testemunhas da visão.

O olhar percorre inicialmente toda a envolvência arquitectónica da capela para, inevitavelmente, convergir sobre o momento culminante da levitação de Santa Teresa. É a arte da sedução elevada ao seu expoente máximo. O espectador é cativado pelo desenrolar da acção; o crente é arrebatado pela intensidade da experiência espiritual.

Os escritos da santa revelam uma paixão tão intensa que, segundo ela própria, as palavras se mostram insuficientes para traduzir aquilo que a alma experimenta. Trata-se de um amor indizível. Bernini, profundo conhecedor das paixões humanas, encontrou nessa linguagem mística a possibilidade de representar, através do mármore, a união entre o amor terreno e o amor divino.

Do bloco de mármore branco de Carrara faz emergir formas dotadas de extraordinária vitalidade. Cada gesto parece corresponder a uma palavra; cada dobra do hábito traduz um movimento da alma. O escultor trabalha com notável minúcia a anatomia, os tecidos e todos os elementos envolventes, alcançando um realismo simultaneamente físico e psicológico que intensifica a resposta emocional do observador.

A composição adquire especial dramatismo através da figura do serafim, que segura uma seta dourada, prestes a trespassar o coração da santa com «aquela seta eleita, ervada em sulcos de amor». O hábito agita-se num movimento ondulante, deixando entrever um dos pés de Teresa e sugerindo a leveza da levitação. O corpo abandona o peso da matéria enquanto o espírito se entrega plenamente ao amor divino.

O rosto da santa constitui talvez o elemento mais expressivo de toda a composição. Os olhos semicerrados, a cabeça reclinada e a boca entreaberta captam o instante de maior intensidade extática, evocando os versos:

 

«Me atingiu com sua seta,

Nos meigos braços do Amor

Minh'alma aninhou-se quieta.»

 

A expressão facial traduz simultaneamente prazer, abandono e transcendência, tornando visível uma experiência que pertence ao domínio do inefável. O observador reconhece, nessa expressão, uma emoção profundamente humana, ainda que orientada para o divino.

Por fim, a luz proveniente da clarabóia desempenha um papel essencial na construção do pathos. Ao incidir sobre os raios dourados e sobre o mármore branco, acentua os contrastes, reforça a sensação de movimento e confere à cena uma dimensão sobrenatural. A iluminação transforma-se, assim, num elemento narrativo que evidencia a união entre a paixão terrena e o amor divino.

Bernini permanece fiel ao programa artístico definido pela Reforma Católica e pelas determinações do Concílio de Trento, segundo as quais a arte religiosa deveria ser inteligível, verosímil e emocionalmente persuasiva. A sua escultura procura instruir, comover e fortalecer a fé do crente através da emoção.

Êxtase de Santa Teresa constitui, por isso, uma das mais elevadas manifestações do pathos na escultura barroca. É uma obra que continua a despertar emoções intensas, promovendo empatia e identificação no observador contemporâneo. Nela, a paixão torna-se linguagem universal, permitindo que cada espectador interprete, segundo a sua sensibilidade e as suas convicções, o mistério da união entre o humano e o divino.

 

Dilectus meus mihi

(meu amado é para mim)

 

Entreguei-me toda e assim

Os corações se hão trocado

Meu Amado é para mim,

E eu sou para o meu Amado.

 

Me atingiu com sua seta,

Nos meigos braços do Amor

Minh'alma aninhou-se quieta.

E a vida em outra, seleta,

Totalmente se há trocado:

Meu amado é para mim,

E eu sou para meu Amado.

 

Era aquela seta eleita

Ervada em sulcos de amor,

E minha alma ficou feita

Uma com o seu Criador.

Já não quero eu outro amor,

Que a Deus me tenho entregado:

Meu Amado é para mim,

E eu sou para meu Amado.

 


 

[1] Fenómeno místico: de almas atingidas por setas incandescentes arremessadas por Serafins aos amantes de Cristo.

[2] Sobre Aquelas Palavras: Dilectus meus Mihi, PIII

[3] Sobre Aquelas Palavras: Dilectus meus Mihi, PIII

Bernini: sob o signo do pathos

Costanza Bonarelli [*], 1638-9. Museo Nazionale del Bargello, Florença

Bernini — a obra de uma paixão patológica

Há obras de arte que nos fazem estremecer.

Não apenas porque são belas, mas porque parecem possuir a capacidade de nos retirar, ainda que por instantes, da realidade quotidiana e transportar-nos para um lugar onde a matéria se transforma em emoção. É talvez nesse momento que pronunciamos a palavra génio. O génio artístico poderá ser, afinal, essa extraordinária capacidade de produzir espanto: surpreender-nos perante aquilo que julgávamos conhecer e revelar, através de uma forma, uma intensidade que não esperávamos encontrar.

A arte barroca compreendeu particularmente bem esse poder.

O Barroco não procura apenas representar o acontecimento; procura fazer-nos participar nele. Congela o instante, intensifica o movimento, acentua os contrastes, dramatiza a luz e transforma o corpo num território de emoções. O Pathos — a paixão, o afecto, o excesso, a dor, o sofrimento — torna-se uma das suas principais ferramentas de comunicação. A obra deixa de ser apenas algo para contemplar e transforma-se em algo para experimentar.

Perscrutamos numa cinzelada a violência do gesto; numa superfície polida reconhecemos a suavidade da pele; numa expressão surpreendemos a dor; numa boca entreaberta imaginamos o suspiro. A matéria deixa de parecer matéria.

É neste território que se move Gian Lorenzo Bernini.

Escultor, arquitecto, pintor, cenógrafo e homem de teatro, Bernini foi uma das figuras centrais da Roma do século XVII. Trabalhou para papas, cardeais e grandes famílias romanas, e a sua actividade esteve profundamente ligada ao ambiente artístico e político da cidade. Sob Urbano VIII e, posteriormente, sob outros pontífices, participou na transformação monumental de Roma e da Basílica de São Pedro. O seu David, o Apolo e Dafne, o Rapto de Prosérpina e, mais tarde, o Êxtase de Santa Teresa demonstram uma capacidade singular para transformar o mármore em movimento, emoção e teatralidade.

Bernini parecia possuir uma relação quase física com a matéria.

O mármore não era simplesmente pedra. Era uma pele à espera de ser revelada. O corpo não era apenas representação anatómica. Era movimento, desejo, sofrimento, êxtase. E o espectador não era um observador passivo: era convocado a participar emocionalmente na obra.

Mas existe um episódio na vida de Bernini em que esta relação entre corpo, desejo e criação adquire uma dimensão particularmente perturbadora.

Costanza

Entre as relações amorosas conhecidas da vida de Bernini destaca-se a que manteve com Costanza Bonarelli, mulher de Matteo Bonarelli, um dos seus colaboradores. O busto que Bernini lhe dedicou distingue-se de muitas das suas obras porque não resulta de uma encomenda pública ou de um programa monumental. É, aparentemente, um retrato de natureza privada, realizado num contexto de intimidade.

E talvez seja precisamente essa intimidade que torna o busto tão perturbador.

Costanza não aparece idealizada segundo os modelos convencionais de beleza. O cabelo parece desalinhado; a roupa encontra-se aberta junto ao peito; a expressão é intensa; os olhos parecem dirigir-se directamente para quem observa. A boca entreaberta e o tratamento do tecido introduzem no retrato uma dimensão sensual que dificilmente pode ser dissociada da relação pessoal existente entre modelo e escultor.

Não estamos perante a representação distante de uma mulher.

Estamos perante a presença de uma mulher.

O busto parece conservar alguma coisa do instante vivido: a proximidade, a intimidade, o desejo. Bernini não parece querer transformar Costanza numa figura ideal; procura conservar a pessoa concreta, a mulher que conheceu e desejou.

É precisamente aqui que o retrato se aproxima do conceito de corpo poiético.

O corpo de Costanza transforma-se em matéria de criação. A experiência pessoal transforma-se em imagem. O desejo transforma-se em mármore. A paixão transforma-se em objecto.

A criação artística torna-se, assim, uma forma de conservar aquilo que a própria vida não consegue conservar.

Mas esta paixão teve um desfecho violento.

Quando Bernini descobriu a relação de Costanza com o seu irmão, Luigi Bernini, reagiu violentamente. Segundo os relatos biográficos, mandou que o rosto de Costanza fosse desfigurado e atacou o próprio irmão. O episódio provocou um escândalo e teve consequências sociais e familiares. Costanza sofreu as consequências da acusação de adultério, Luigi foi afastado de Roma e Bernini recebeu uma reprimenda papal e foi conduzido a regularizar a sua vida matrimonial.

O episódio revela uma contradição brutal entre o artista capaz de transformar o desejo em beleza e o homem incapaz de controlar a violência provocada pelo próprio desejo.

A paixão que produziu uma das imagens mais intensas de Costanza foi a mesma paixão que esteve na origem da sua destruição física.

Daí o título desta reflexão: uma obra de uma paixão patológica.

Não porque possamos diagnosticar retrospectivamente Bernini, mas porque a relação entre desejo, posse, ciúme, criação e violência ultrapassa claramente os limites de uma paixão amorosa convencional.

O fracasso e a queda

Este período da vida de Bernini coincidiu ainda com uma fase particularmente difícil da sua carreira.

Sob Urbano VIII, Bernini esteve profundamente ligado aos grandes projectos da Basílica de São Pedro. Entre esses trabalhos esteve a intervenção na fachada e a construção das torres sineiras. Os problemas estruturais que surgiram acabaram por conduzir à demolição das torres, num episódio que atingiu fortemente a reputação do artista. A mudança de pontificado, com a eleição de Inocêncio X em 1644, contribuiu para a perda temporária da posição privilegiada que Bernini mantivera junto da corte papal.

O artista que parecia ter Roma a seus pés conhecia agora a fragilidade da sua própria condição.

E é neste contexto de crise pessoal e profissional que surge uma das suas maiores obras.

Santa Teresa

Em 1647, Bernini iniciou a intervenção na Capela Cornaro, na igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. A encomenda partiu do cardeal Federico Cornaro e destinava-se à capela funerária da sua família.

O resultado seria o Êxtase de Santa Teresa, realizado entre 1647 e 1652.

A obra representa Santa Teresa de Ávila durante uma das suas experiências místicas. A santa encontra-se desfalecida sobre uma nuvem, enquanto um anjo segura a flecha que acaba de atravessar o seu coração.

Mas aquilo que Bernini representa não é simplesmente um acontecimento religioso.

É uma experiência do corpo.

Santa Teresa descreve a visão de um anjo que lhe atravessa o coração com uma flecha cuja ponta parecia estar em fogo. A experiência era simultaneamente dolorosa e profundamente prazerosa; a própria Teresa explica que se tratava de uma dor espiritual, embora o corpo participasse intensamente dela. É precisamente essa dimensão corporal da experiência mística que Bernini transforma em linguagem escultórica.

A escolha não poderia ser mais barroca.

O corpo de Teresa abandona a verticalidade. A cabeça inclina-se para trás. A boca abre-se. As vestes multiplicam-se em pregas violentas e profundas. O corpo parece perder peso e dissolver-se na matéria. O anjo, pelo contrário, apresenta uma serenidade quase desconcertante.

A flecha introduz a tensão.

É simultaneamente arma, instrumento de dor e símbolo de amor.

A penetração física torna-se metáfora da penetração divina.

O erotismo não desaparece porque o tema é religioso. Pelo contrário: é através da linguagem do corpo que Bernini consegue representar aquilo que é invisível.

É neste ponto que a obra se aproxima de uma questão fundamental: como representar o transcendente através da matéria?

Bernini responde com o corpo.

O corpo entre o desejo e o divino

É tentador estabelecer uma relação directa entre Costanza e Santa Teresa.

A proximidade temporal entre os acontecimentos, a experiência amorosa de Bernini e a extraordinária sensualidade do Êxtase parecem convidar-nos a essa leitura. Poderíamos imaginar que o artista, depois de experimentar o desejo carnal, encontrou na experiência mística de Teresa uma forma de transformar essa mesma intensidade numa linguagem religiosa.

Mas não podemos afirmar que Teresa seja um retrato espiritual de Costanza.

O que podemos afirmar é algo talvez mais interessante: Bernini encontrou no misticismo de Teresa uma linguagem em que o corpo e o espírito não estão separados.

O corpo é o veículo da experiência divina.

A dor é prazer.

A penetração é união.

A flecha é ferida e amor.

O êxtase é simultaneamente abandono físico e aproximação espiritual.

A obra torna visível aquilo que não pode ser visto.

E é aqui que o Barroco atinge uma das suas maiores conquistas: fazer com que o espectador experimente corporalmente aquilo que a obra pretende representar espiritualmente.

Bernini não coloca apenas Santa Teresa diante dos nossos olhos. Constrói uma verdadeira máquina teatral de experiência. A escultura está integrada na arquitectura, na pintura e na luz; membros da família Cornaro surgem nas laterais como espectadores do acontecimento, quase como se estivessem em camarotes de um teatro. Uma abertura oculta permite que a luz incida sobre a composição e contribua para a sua dimensão sobrenatural.

A obra não é apenas escultura.

É arquitectura, teatro, luz, pintura e escultura reunidos num único acontecimento.

É uma experiência total.

Da paixão ao êxtase

Talvez seja esta a verdadeira proximidade entre Costanza e Teresa.

Não a identidade entre duas mulheres, nem a transformação literal de uma paixão profana numa paixão religiosa, mas a permanência de uma mesma linguagem: a linguagem do corpo.

Costanza é o corpo desejado.

Teresa é o corpo arrebatado.

Costanza é a intimidade humana.

Teresa é a intimidade divina.

Num caso, o corpo é tomado pelo desejo de outro corpo. No outro, o corpo é tomado pelo desejo de Deus.

Em ambos, porém, Bernini representa um corpo que perdeu a sua autonomia perante uma força que o ultrapassa.

É talvez aqui que a obra de Bernini encontra a sua dimensão mais profunda.

O artista não separa o corpo da alma. Não separa a sensualidade da espiritualidade. Não elimina o erotismo para representar o divino. Pelo contrário, utiliza a experiência corporal para tornar inteligível aquilo que não possui forma.

O mármore torna-se carne.

A carne torna-se desejo.

O desejo torna-se êxtase.

E o êxtase torna-se transcendência.

A obra de Bernini pode, assim, ser entendida como uma das mais extraordinárias manifestações do corpo poiético: o corpo como matéria de criação, como instrumento de comunicação e como lugar onde o humano procura representar aquilo que o ultrapassa.

No Busto de Costanza, Bernini transforma a paixão em memória.

No Êxtase de Santa Teresa, transforma a experiência mística em matéria.

Entre uma e outra obra existe uma diferença fundamental: uma pertence ao domínio do desejo humano; a outra, ao domínio da experiência religiosa.

Mas existe também uma continuidade.

Em ambas, Bernini procura aquilo que talvez constitua a essência da sua escultura: o instante em que o corpo deixa de ser apenas corpo e se transforma em experiência.

É nesse instante que a pedra estremece.

E é nesse instante que Bernini se torna génio.

Êxtase de Santa Teresa de Bernini

Igreja Santa Maria dela Vittoria

Roma

©Luís Barreira, Roma, 2023

A escultura resultante, “O Êxtase de Santa Teresa”, inserida na arquitectura da capela, é reconhecida por muitos críticos de arte como talvez a conquista suprema do poder do erotismo na escultura religiosa do século XVII. 


[1] Domus Pia de Urbe (Mosteiro de Casa Pia)

[2] Mormando, Franco. Domenico Bernini: The Life of Gian Lorenzo Bernini: A Translation and Critical Edition, 2011.

[*]  Costanza Bonarelli foi uma nobre, comerciante e negociante de arte italiana, descendente de uma família nobre de Siena. Ela é conhecida por ser retratada pelo artista Gian Lorenzo Bernini no busto agora exibido no Museu Nacional de Bargello em Florença, criado entre 1636 e 1639.

O Nome que a Memória Guardou

Giovanni di Paolo

Beatriz conduz Dante à porta do céu diante S. Pedro

Ilustração da Divina Comédia (45)

c.1440

créditos: wikimedia

Há pessoas cujo nome esquecemos, mas cuja imagem permanece intacta. Talvez exista um pacto secreto entre a alma e a memória, uma espécie de acordo pelo qual esta recusa aquilo que não considera suficientemente importante para permanecer. Ou talvez a memória seja apenas obstinada e escolha, sem nos consultar, o que há-de guardar.

Tenho dificuldade em memorizar nomes de pessoas. Posso reconhecer-lhes o rosto, a maneira de andar, os gestos, a voz, a forma como se relacionam com os outros e comigo. Posso recordar uma expressão, um movimento quase imperceptível, uma peça de roupa, uma cor. A minha memória é, sobretudo, visual. Preciso de uma imagem para fixar uma pessoa.

O nome, porém, escapa-me.

Ao longo de um ano lectivo, tão distante que a memória já não o recorda, uma aluna interrogou-me diversas vezes:

— Professor, já sabe o meu nome?

A pergunta, repetida com uma insistência que me deixava desconfortável, obrigava-me a procurar subterfúgios. Desviava a conversa para outro assunto, fingia uma distracção, socorria-me da ironia — “a expressão mais perfeita do pensamento”, como escreveu Florbela Espanca — e seguia adiante, esperando que a pergunta não voltasse.

Voltava sempre.

Eu precisava de uma mnemónica.

Ela era uma aluna responsável, aplicada, inteligente. Merecia, talvez, uma atenção que eu não lhe conseguia dar pela via mais simples: o nome. O paradoxo estava precisamente aí. Eu conhecia-a sem conseguir nomeá-la.

Conhecia-lhe os olhos brilhantes, a tensão que por vezes se concentrava no rosto rosado, a inquietação de quem parecia ter pressa de conhecer o mundo. Recordo o vestido vermelho e o casaco masculino que, por vezes, lhe alterava a aparência, como se antecipasse uma idade que ainda não tinha. Recordo os chinelos de banda branca, escapando-lhe dos pés enquanto o corpo adolescente se movia com uma inquietação difícil de conter. Recordo o verniz vermelho-amaranto, aplicado sem grande cuidado. Lembro, sobretudo, os cabelos lisos, presos quase sempre por um gancho.

De vez em quando soltava-os.

Deixava que lhe caíssem sobre o rosto e, logo depois, voltava a prendê-los. Repetia o gesto com a maior naturalidade, sem consciência de que também os gestos, quando observados, podem transformar-se em memória.

Já tínhamos falado sobre os cabelos na História da Arte, sobre a sua importância iconográfica e sobre o seu valor iconológico. Por que razão Maria Madalena é tantas vezes representada com longos cabelos? Por que razão Botticelli envolve o corpo de Vénus numa cabeleira que funciona quase como uma segunda pele?

Ela nem sempre interiorizava estas coisas. O que era compreensível. A História da Arte revela coisas para as quais a beleza da inocência ainda não está preparada.

Porém, era brilhante.

Talvez seja isso que mais recordo nela: a inteligência acompanhada de uma espécie de urgência. Não escondia a ansiedade de conhecer mundo. Tinha pressa de o viver.

Os seus apontamentos eram outra forma de a reconhecer. Gatafunhos espalhados pela folha em movimentos aparentemente arbitrários, formas circulares que pareciam tentar impor alguma ordem ao caos. Só ela sabia exactamente onde começava e acabava cada ideia.

Eu olhava para aquelas páginas e via uma espécie de cartografia interior.

Decifro uma frase: “Coisa bela e mortal passa e não dura”, que acabara de proferir, citando Petrarca, enquanto a mirava nos olhos.

Era alegre. Jovial. Tinha uma alegria que não precisava de ser anunciada. Amiga do seu amigo sem transformar a amizade em espectáculo. Havia nela uma formação humana que me aprazia reconhecer.

Nunca lhe revelei essa admiração.

O desprendimento fingido funcionava como uma espécie de gelo protector. Ocultava aquilo que não precisava de ser dito. Há sentimentos que, quando nomeados, perdem precisamente aquilo que os torna verdadeiros.

Ela perguntava pelo nome.

O seu nome.

Eu procurava-o.

E, entretanto, observava.

Talvez tenha sido essa a minha forma imperfeita de a memorizar.

Foi então que compreendi que não precisava propriamente de decorar o nome. Precisava de encontrar a imagem que o pudesse guardar.

O nome deixou de ser uma palavra solta. Passou a habitar uma imagem.

Dante ajudou-me.

Na Divina Comédia, Beatriz é muito mais do que uma personagem. É a figura que conduz Dante ao Paraíso, a representação de uma beleza que ultrapassa o corpo e se transforma em ideia. Entre os dois existe a distância própria do amor idealizado, dessa forma de amor que encontra na ausência a possibilidade de permanência.

Em Vita Nuova, Dante recorda o encontro com Beatriz ainda na infância. O que permanece não é apenas a pessoa, mas a imagem.

Um rosto.

Um instante.

Um vestido.

A memória, afinal, não arquiva a vida como uma sequência ordenada de acontecimentos. Selecciona. Recorta. Colore. Transforma.

Talvez seja por isso que a imagem tenha tanta importância na construção da memória.

Dante viu Beatriz e guardou-a.

Eu precisava de fazer o mesmo.

E, no entanto, esqueci-a.

Ou talvez não.

É a cor que ficou.

A imagem precedeu o nome e acabou por salvá-lo do esquecimento. O que eu procurava como uma palavra encontrou-se, afinal, como uma imagem.

Foi assim que a incógnita aluna passou a ter nome.

Um nome resgatado à memória por Dante, por Beatriz, por um vestido vermelho.

Somos um somatório de memórias. Algumas desaparecem sem deixar rasto; outras permanecem presas a um gesto, a um rosto, a uma cor, a uma frase.

Talvez recordar alguém seja, afinal, aceitar que nunca possuímos inteiramente a sua memória. Guardamos apenas aquilo que o tempo, por alguma razão, decidiu não levar.

E há pessoas que permanecem.

Mesmo quando já não sabemos exactamente porquê.

Mesmo quando o nome quase se perdeu.

Às vezes basta uma cor para que regressem.

Um vestido vermelho.

 

 texto © Luís Barreira

P.S. Quando forem a Florença não deixem de visitar a Chiesa di Santa Margherita (também conhecida por Chiesa di Dante) e numa alcofa ao lado da pedra tumular de Beatriz Portinari deixem o vosso testemunho.

Pedra tumular de Beatriz Portinari na Igreja de Santa Margherita dei Cerchi, em Florença

Fotografia actualizada em 13.04.2024 © Luís Carvalho Barreira


Françoise Gilot (1921-2023)

Quem é Françoise Gilot?

Segundo Picasso, Françoise Gilot era "a mulher que diz não".

A história conta-se com uma imagem que vale mais do que mil palavras. A composição fotográfica é perfeita: o equilíbrio pelas linhas horizontais (desenhadas pelas ondas na rebentação e pelo mar bem definido na linha-do-horizonte) é reforçado pela verticalidade do guarda-sol (justapondo-se na mediana vertical), enquanto que o dinamismo é-nos sugerido pela perspectiva linear das figuras em diferentes escalas reforçadas, num vai e vem constante, entre o incógnito banhista, passando pelo acólito cavalheiro segurando o baldaquino, até à jovem sortuda que se delicia com tanta distinção. Tudo isto é uma bela e cuidada encenação. Uma fotografia de Robert Capa realizada em Golfe-Juan, França, 1948. Françoise Gilot era uma jovem pintora quando conheceu Picasso, um artista maduro e consagrado. Gilot era admiradora da obra de Picasso quando o conheceu num café em Paris. Ela tinha 21 anos, enquanto Picasso tinha 61 anos e atravessava momentos conturbados com Dora Maar (sexta esposa). Picasso, o malaguenho, amante de touradas, provocador, necessitava de alimentar o génio com alguém que fosse uma nova fonte de inspiração, de uma paixão tórrida que só as mulheres lhe souberam dar. Françoise Gilot, em 1943, era estudante de direito quando conheceu Picasso e largou os estudos para viver ao lado do artista. Os dois tiveram dois filhos: Claude e Paloma nascidos em 1947 e em 1949. Porém, os casos de Picasso com outras mulheres e sua natureza abusiva fizeram com que os dois se separassem em 1953 após uma década juntos. A separação foi difícil, revelada no livro, Vida com Picasso, publicado em 1964, no qual Gilot partilha as suas memórias e experiências com Picasso. O livro dá-nos uma perspectiva diferente sobre a relação e as complexidades de viver com o artista, o génio e o homem.

Françoise Gilot morreu hoje, 6.06.2023, aos 102 anos, a mulher que disse não a Picasso.

texto, 2023 © Luís Carvalho Barreira

Lydia Delectorkaya

Em 1910, Matisse tinha 40 anos quando pintou, em Paris, A Dança encomendada pelo colecionador russo Sergey Shchukin. Nesse mesmo ano nascia em Tomsk, Rússia, Lydia Delectorkaya. Filha de uma família nobre e culta russa que durante a Revolução de Outubro (1918) se refugiou em Harbin, Manchúria, na China e depois em Paris. A perda dos pais muito cedo, uma vida precária, assim como um casamento fugaz quando tinha 20 anos, fizeram com que a jovem russa procurasse desesperadamente um emprego que lhe permitisse alguma segurança. Chegada a Paris, em 1928, foi figurante, dançarina e modelo para alguns artistas. O gosto pela arte desde muito cedo fez parte do universo cultural da jovem russa, quiçá, o seu desígnio de vida. Henri Matisse já era um artista reconhecido quando, em 1916, se mudou para Nice com a família até ao final da sua vida, em 1954. O pai dos Fauves, como é conhecido, rivalizava com outros artistas de grande nomeada. A “cacofonia demoníaca” – como apelidaram alguns críticos no Salão de Outono – há muito que o atento mercado da arte era disputado por grandes colecionadores. Matisse posiciona-se dentro de uma elite de artistas invejados. Em 1932 e em resposta a um anúncio para assistente no atelier de Matisse, a jovem russa pode sonhar com a estabilidade desejada viajando para Nice. Lydia tinha 22 anos e Matisse, de 62 anos. O pintor estava a braços com uma nova encomenda feita, por Albert C. Barnes, para um fresco de grandes dimensões (465X385 cm) a ser realizado em Merion, Filadélfia[1]. Era um trabalho árduo para o artista sexagenário. Vários desenhos e estudos foram feitos em papel de várias cores (à escala natural) e redimensionados, recortados, com uma tesoura, conforme a simetria, o equilíbrio, pretendido pelo artista. Matisse conseguiu unir o desenho e a cor num gesto rico em reverberações plásticas. A obra exigia algum vigor físico e demorou quase três anos a ser concluída. O tempo suficiente para que o Mestre reconhecesse a ajuda e o profissionalismo de Lydia. Terminada a obra, acabou também a relação laboral que os associava.

Todavia, Madame Matisse adoeceu e precisava de alguns cuidados. Matisse necessitava de uma pessoa que gerisse a sua agenda profissional; carecia de alguém a quem depositasse confiança na governação da casa e do atelier. A família tinha um nome em mente para desempenhar essa tarefa e a escolha recaiu em Lydia Delectorkaya. Enquanto Madame Matisse esteve doente, Lydia provou não ser só uma boa cuidadora, mas também foi uma excelente governante e secretária. Paulatinamente, Lydia foi assumindo todos os assuntos pessoais da família Matisse chamando à atenção do pintor. A graciosidade de Lydia desperta a indiscrição do pintor. Ela foi importante na vida diária de Matisse organizando-lhe o atelier, preparando-lhe os materiais, posando para vários quadros realizados neste período. A relação entre Matisse e Lydia era de profunda amizade e colaboração artística. Desmentida, talvez, por parte de Amélie Noellie Matisse-Parayre (Madame Matisse) que, em 1939, justifica o pedido de divórcio pela relação ambígua mantida entre Matisse e Lydia. O processo de divórcio nunca foi iniciado, mas o casal viveu separadamente pelo resto das suas vidas. Motivos seguramente fortes obrigaram Amélie a dolorosa decisão. Ciúmes de uma nova musa? Ou magoada pelo espaço ocupado pela nova governanta? Desde o aparecimento de Lydia, e a sua estada em Nice, que a pintura de Matisse sofreu uma mudança formal e estética. A modelação dos corpos, as luzes suaves sugerem espaços cada vez mais vibrantes. O fascínio pelo o Oriente e pela cultura árabe, locais visitados pelo o artista, levá-lo-á a uma nova pesquisa formal e estética. O seu traço baseado muito na linha arabesca reforçam a “luz negra[2]” por ele defendida. O cromatismo é explorado entre as cores rosa e o azul. Os nus vagueiam entre o equilíbrio da composição e o nivelamento dos corpos. O tema da janela e do corpo feminino (nu) aparece no seu trabalho realizado neste período. O exotismo das odaliscas assim como os trajes russos fazem parte da renovada temática matissiana. Lydia foi retratada em muitas das obras do artista: O Nu Rosa (1935), várias Odaliscas (1937) além de retratos personalizados de Lydia são registos de uma musa em que Matisse “preservou a sua beleza para a eternidade” (frase atribuída a Picasso). Quando as forças do artista se desvaneceram (ele sofria de asma, de artrite e, nos últimos anos, contraiu um cancro) Lydia esteve sempre presente confortando-o e defendo os seus interesses com os negociantes de arte. Aliás, Lydia criou a sua coleção de arte ao longo do tempo, investindo o ordenado recebido em obras de Matisse[3]. Após a morte de Matisse ela regressou a Paris fazendo trabalhos de tradução de russo, nomeadamente do escritor Konstantin Paustovsky, que conheceu na década de 50, para francês e organizou monografias, exposições, encontros sobre Matisse. Durante esses encontros e quando interrogada sobre o relacionamento que teve com o artista, Lydia nunca se esquivou, mas nunca deu uma resposta direta[4]. Mas foi evidente que o artista francês, o seu talento, o seu trabalho é fruto de uma cumplicidade mantida tornando-se o verdeiro sentido de sua vida. Uma vida dividida entre dois amores: a arte de Matisse e a terra que a viu nascer, a Rússia. A ela se deve o maior acervo de obras de Matisse estarem em museus russos. Um dia ela aclamou: “Eu dei à França Paustovsky, e à Rússia Matisse!” Foi esse o último desejo de Lydia Delectorskaya: ser sepultada na Rússia. Ela morre em Paris em 1998, aos 88 anos, mais tarde transladada para Pavlovsk, perto de São Petersburgo, e numa réplica da lápide original pode-se ler: “Matisse preservou sua beleza para a eternidade

Matisse, Nu Rosa, 1935



texto, 2002 © Luís Carvalho Barreira


[1] Fundação Barnes, Merion, Filadélfia, Estados Unidos da América. Albert Barnes foi um colecionador de arte tendo pagado pelo mural 30 mil dólares.

[2] Matisse considerava o preto a cor intensa, a cor absolta. A cor que faz a ligação entre todas as cores, que a reforçam.

[3] Matisse tinha como hábito de presentear, regularmente, Lydia com obras de arte de sua autoria.

[4] Lydia escreveu várias monografias dedicadas a Matisse.

Lee Miller

Lee Miller fotografada por Man Ray,

Elizabeth Lee Miller (1907-1977)

 

 

Lee Miller: a musa que deixou de ser musa

A história da arte está povoada de grandes paixões. Mas está também cheia de silêncios. Por detrás de muitos artistas consagrados encontramos mulheres que foram modelos, amantes, musas, assistentes ou companheiras de criação e cuja participação acabou, demasiadas vezes, reduzida a uma nota de rodapé.

É precisamente essa história esquecida que importa recuperar.

Lee Miller é um desses casos.

Antes de ser fotógrafa, foi modelo. Antes de ser correspondente de guerra, foi musa do surrealismo. Antes de ser reconhecida pelo seu próprio trabalho, foi associada ao nome de Man Ray. A sua história é, por isso, também a história de uma mulher que procurou deixar de ser objecto do olhar para se tornar sujeito desse mesmo olhar.

Lee Miller tinha apenas vinte anos quando a sua imagem apareceu na capa da Vogue, em Março de 1927. A beleza abriu-lhe as portas do mundo da moda e da fotografia, mas não lhe bastava ser fotografada. Havia nela uma ambição maior: queria compreender a fotografia, dominar a técnica e tornar-se artista.

Paris era o lugar inevitável.

A cidade continuava a ser o grande laboratório cultural da modernidade europeia. Artistas, escritores, fotógrafos e intelectuais chegavam de diferentes partes do mundo atraídos pela liberdade, pela provocação e pela extraordinária efervescência cultural das vanguardas. Dadaísmo, surrealismo e outras experiências artísticas procuravam romper com os modelos tradicionais de representação.

Lee Miller queria fazer parte dessa revolução.

Em 1929, chega a Paris e procura Man Ray. Não lhe pede apenas para ser fotografada. Quer aprender. Man Ray responde inicialmente que não aceita alunos. Mas a recusa dura pouco. Lee torna-se sua assistente, modelo e, rapidamente, amante.

Começa então uma das relações mais intensas do surrealismo.

A câmara de Man Ray transforma Lee Miller em imagem. O corpo da modelo torna-se matéria artística, objecto de experimentação, superfície onde o fotógrafo projecta as suas inquietações. Mas há uma inversão silenciosa a acontecer: enquanto Man Ray fotografa Lee, Lee aprende a fotografar Man Ray.

A musa começa a transformar-se em artista.

É essa passagem que torna a sua história particularmente interessante.

Lee Miller não permaneceu simplesmente diante da câmara. Entrou para trás dela.

A musa contra o mestre

Lee aproximou-se do círculo surrealista e estabeleceu relações com figuras como Pablo Picasso, Paul Éluard e Jean Cocteau. Cocteau convidou-a para participar no filme Le Sang d'un Poète (O Sangue de um Poeta), onde desempenhou o papel de uma figura que se transforma em estátua.

A mulher que inicialmente era contemplada começa agora a participar na construção da imagem.

E é aqui que surge o conflito.

Algumas fotografias realizadas por Lee Miller foram posteriormente associadas a Man Ray, originando uma disputa sobre autoria. A relação entre os dois deteriorou-se e terminou violentamente. A conhecida história segundo a qual Man Ray a teria ferido com um x-ato durante uma discussão tornou-se parte da narrativa da separação, embora alguns pormenores dessa história devam ser tratados com prudência.

O que sabemos é que a ruptura foi profunda.

Man Ray transformaria posteriormente a dor da separação em obra. Object Indestructible, inicialmente concebido em 1923 e reconstruído em 1933, apresenta um metrónomo cujo movimento é acompanhado por uma fotografia de um olho. A imagem tornou-se inseparável da história da relação com Lee Miller.

O olho observa.

Mas já não vê.

A metáfora é poderosa: o amor transforma-se em objecto; a memória transforma-se em imagem; a imagem transforma-se em arte.

Lee, entretanto, segue outro caminho.

De musa a autora

Em 1932 regressa a Nova Iorque e abre o seu próprio estúdio fotográfico. Já não é a mulher que espera diante da objectiva. É ela quem escolhe o enquadramento, controla a luz e decide aquilo que merece ser visto.

A transformação é radical.

Lee Miller passa de objecto fotografado a sujeito fotógrafo.

E talvez seja esta a verdadeira ruptura com Man Ray. Não apenas uma ruptura sentimental, mas uma ruptura artística. A antiga musa deixa de precisar do mestre.

Mais tarde, a sua vida sofreria uma nova transformação.

Com a Segunda Guerra Mundial, Lee Miller abandona o universo da moda e entra num dos territórios mais brutais da história contemporânea: a guerra.

Como correspondente fotográfica, regressa à Europa e fotografa soldados, hospitais, mortos, cidades destruídas e, posteriormente, os campos de concentração nazis.

A mulher que tinha começado a carreira diante das câmaras encontra-se agora diante do horror.

A fotografia deixa de ser sedução.

Passa a ser testemunho.

A banheira de Hitler

Entre as imagens que realizou durante a guerra existe uma que se tornou quase um manifesto da sua personalidade.

Lee Miller é fotografada por David E. Scherman, fotógrafo da Life, dentro da banheira do apartamento de Adolf Hitler, em Munique, pouco depois da notícia da sua morte.

A imagem é desconcertante.

Lee está dentro da banheira. No chão encontram-se as botas enlameadas que traz consigo da guerra. Ao fundo, quase como uma presença espectral, está o retrato de Hitler.

A composição é quase teatral.

A mulher toma banho no espaço privado do homem que personificou uma das formas mais extremas do poder e da violência do século XX.

As botas sujas introduzem a guerra dentro da casa.

A água procura limpar aquilo que não pode ser lavado.

E o retrato de Hitler observa silenciosamente a cena.

É uma fotografia carregada de ironia. Não é simplesmente uma mulher a tomar banho. É uma invasão simbólica do espaço do ditador.

Aquela banheira, espaço íntimo e privado, transforma-se numa espécie de palco onde se encena a derrota do poder.

Lee Miller não está ali como vítima.

Está ali como testemunha.

E, sobretudo, como alguém que decidiu olhar directamente para aquilo que a história gostaria de esquecer.

O preço de ver

A guerra deixou marcas profundas em Lee Miller.

O seu filho, Antony Penrose, viria a revelar posteriormente uma dimensão muito mais dolorosa da personalidade da mãe. A mulher que regressou da guerra não era simplesmente a fotógrafa vitoriosa que havia produzido imagens extraordinárias.

Trazia consigo aquilo que tinha visto.

A fotografia, que antes fora instrumento de beleza, moda e experimentação surrealista, transformara-se num instrumento de memória.

Lee Miller tinha atravessado quase todos os papéis que a sociedade artística do seu tempo reservava às mulheres: modelo, musa, amante, companheira, artista.

Mas recusou permanecer neles.

E talvez seja essa a parte mais importante da sua história.

A mulher que deixou de ser musa

Durante muito tempo, Lee Miller foi apresentada sobretudo como a musa de Man Ray.

Essa definição é confortável porque coloca a mulher no lugar tradicional que a história da arte tantas vezes lhe reservou: a mulher é o rosto; o homem é o autor.

Mas Lee Miller subverteu essa narrativa.

Foi modelo, sim.

Foi amante, sim.

Foi musa, também.

Mas foi fotógrafa.

E foi uma fotógrafa extraordinária.

A sua vida percorre a história da arte e da cultura do século XX como uma espécie de linha de fractura: começa na moda, atravessa o surrealismo, passa pela fotografia experimental e termina no coração da guerra.

Da beleza ao horror.

Do estúdio ao campo de batalha.

Da musa à autora.

Talvez seja por isso que Lee Miller seja uma personagem tão fascinante da história da fotografia. Não porque tenha pertencido ao universo de Man Ray, Picasso ou Cocteau, mas porque conseguiu escapar à condição de personagem secundária na história dos outros.

A câmara que um dia a transformou em objecto do olhar tornou-se, nas suas mãos, uma arma de testemunho.

E a mulher que começou por ser fotografada acabou por ensinar-nos uma coisa essencial:

olhar não é apenas ver. É também escolher quem tem o direito de olhar.

“Objecto Indestrutível”, 1933

 

Lee Miller fotografada por David E. Scherman, 1945

 

A l'heure de l'observatoire, les Amoureux, 1932-34

créditos: arthistoryproject

 

Texto, 2023 © Luís Carvalho Barreira

 


[1] Charles Darwent, ed. (27 de janeiro de 2013). «Man crush: When Man Ray met Lee Miller». The Independent.

[2] Man Ray, faz alusão à força do desejo sexual criando um “readymade”: “Objecto Indestrutível”, 1923. Em 1933, quando a amante o abandonou Man Ray acrescentou o olho de Lee Miller ao “Objecto a ser destruído”. Em 1957, um grupo de estudantes destruiu o metrónomo durante uma exposição Dada, em Paris.

[3] Nicole Olmos (ed.). «The Life of Lee Miller, From Fashion To War Photography». The Culture Trip.

 

Suzanne Valadon - Cher petit Biqui...

Suzanne Valadon e o seu filho Maurice

Suzanne Valadon 

  

Suzanne Valadon: entre o circo, a pintura e os aborrecimentos

Marie-Clémentine Valade, conhecida artisticamente como Suzanne Valadon, foi uma das personalidades mais singulares da vida artística parisiense de finais do século XIX e primeiras décadas do século XX. Pintora autodidata, modelo, acrobata e mulher de personalidade independente, construiu a sua própria trajectória num universo artístico dominado pelos homens.

Filha de uma mãe solteira e de origem humilde, Suzanne conheceu desde muito cedo a dureza da vida. Trabalhou como empregada em cafés de Montmartre e, ainda jovem, tentou a vida de acrobata em espectáculos circenses. A sua passagem pelo mundo dos cabarés parisienses, entre eles o célebre Le Chat Noir, colocou-a no centro de um ambiente onde artistas, escritores, músicos e boémios se encontravam para discutir arte, política, literatura e, naturalmente, os amores que atravessavam essa pequena sociedade.

Montmartre era então muito mais do que um bairro de Paris. Era um território de liberdade, experimentação e transgressão. Nos cafés-concerto e cabarés cruzavam-se pintores, poetas, músicos e personagens que procuravam escapar às convenções da sociedade burguesa. Foi nesse ambiente que Suzanne se aproximou de Miguel Utrillo, artista e crítico de arte catalão, com quem manteve uma relação amorosa.

Dessa relação nasceu, em 1883, Maurice Utrillo. Suzanne nunca identificou publicamente o pai da criança, embora Miguel Utrillo tenha posteriormente reconhecido legalmente a paternidade. Maurice viria a tornar-se também pintor, ficando conhecido sobretudo pelas suas paisagens urbanas de Montmartre.

Entretanto, a vida de Suzanne sofreria uma transformação decisiva.

Uma queda durante a actividade circense obrigou-a a abandonar o espectáculo. O corpo que até então lhe permitira desafiar a gravidade passou a ocupar outro lugar: tornou-se modelo.

Suzanne começou a posar para alguns dos mais importantes artistas da época. O seu corpo e o seu rosto atravessaram as telas de Renoir, Toulouse-Lautrec e Puvis de Chavannes, entre outros. Foi, durante algum tempo, objecto do olhar dos pintores.

Mas Suzanne não permaneceria para sempre do outro lado da tela.

A experiência como modelo proporcionou-lhe uma aprendizagem invulgar. Observava os artistas enquanto trabalhavam, compreendia os seus métodos e assimilava as soluções que procuravam para representar o corpo, a luz e o espaço. Foi nesse contexto que começou a desenhar e, posteriormente, a pintar.

Edgar Degas reconheceu o seu talento e incentivou-a a prosseguir. A relação entre ambos foi particularmente importante para a formação artística de Suzanne. Degas não a viu apenas como modelo: reconheceu nela uma artista.

A transformação é extraordinária.

A mulher que tinha sido observada começou a observar.
A mulher que tinha servido de modelo começou a criar modelos.
O corpo que fora objecto da pintura tornou-se sujeito da própria pintura.

Suzanne Valadon conquistou progressivamente o seu lugar no meio artístico parisiense e tornou-se uma das primeiras mulheres a afirmar-se com verdadeira autonomia nesse universo. A sua obra revela uma visão profundamente pessoal do corpo, sobretudo do corpo feminino, afastando-se frequentemente do idealizado erotismo académico.

Os seus nus não são apenas corpos destinados ao prazer do observador. São corpos reais: pesados, imperfeitos, envelhecidos, sensuais, vulneráveis. Há neles uma humanidade que contrasta com a tradição de transformar o corpo feminino num objecto ideal de contemplação.

Suzanne conhecia, por experiência própria, os dois lados da tela.

Sabia o que significava ser olhada.

E sabia também o que significava olhar.

Talvez seja precisamente essa experiência que torna a sua pintura tão singular.

Suzanne e os seus aborrecimentos

A vida sentimental de Suzanne foi tão intensa quanto a sua vida artística. Entre os homens que se apaixonaram por ela esteve Erik Satie, compositor excêntrico e figura igualmente singular da boémia parisiense.

Em 1893, Satie e Suzanne viveram uma relação breve, mas intensa. Terá sido a única paixão amorosa de Satie que assumiu contornos tão marcantes na sua vida pessoal. A relação terminou poucos meses depois, deixando no compositor uma profunda impressão.

É neste contexto que encontramos uma das mais curiosas histórias da música moderna.

Satie compôs Vexations — literalmente, “Aborrecimentos”.

A pequena peça, extremamente repetitiva, traz consigo uma indicação desconcertante: deveria ser executada 840 vezes. A repetição integral transforma aquilo que seria uma breve composição num exercício de resistência musical e física.

A obra só seria conhecida publicamente muito mais tarde, depois da morte de Satie, quando John Cage a recuperou e promoveu a sua execução.

É tentador estabelecer uma relação directa entre a ruptura amorosa com Suzanne e Vexations. A proximidade temporal e o carácter obsessivamente repetitivo da peça convidam a essa leitura. Contudo, a relação causal entre a paixão por Valadon e a composição não está documentalmente estabelecida de forma inequívoca.

Mas a história é demasiado boa para ser abandonada.

O compositor que se apaixona pela mulher que vive entre pintores, músicos e poetas; a paixão que dura poucos meses; a separação; e, depois, uma música construída sobre a repetição quase interminável.

Talvez seja apenas coincidência.

Ou talvez a arte seja precisamente isso: a transformação de uma experiência que não conseguimos suportar numa forma que conseguimos repetir.

Satie escreveu a Suzanne uma carta que começava com uma expressão de intimidade — Cher petit Biqui... — e nela podemos entrever o homem apaixonado por detrás da personagem excêntrica que a história da música conservou.

Suzanne, porém, não ficou conhecida por ter sido musa de Satie, Renoir ou Toulouse-Lautrec.

Esse seria o destino habitual das mulheres na história da arte: serem lembradas pelos homens que as amaram, pintaram ou desejaram.

Suzanne Valadon fez algo muito mais difícil.

Passou de modelo a artista.

E, ao fazê-lo, deixou de ser apenas a mulher representada na história da arte para se tornar, ela própria, autora dessa história.

Erik Satie e Suzanne Valadon

O compositor consumido se transforma em poeta e escreve esta magnífica declaração epistolar: Cher petit Biqui...


Impossible
de rester sans penser à tout
ton être; tu es en moi toute entière; partout
je ne vois que tes yeux
exquis, tes mains douces
et tes petits pieds d’enfant.
Toi tu es heureuse; ce n’est pas
ma pauvre pensée qui ridera ton front transparent ;
non plus que l’ennui de ne point me voir.
Pour moi il n’y a que la glaciale
solitude qui met du vide dans la tête
et de la tristesse plein le cœur.
N’oublie pas que ton pauvre ami
espère te voir au moins à un de ces trois rendez-vous:
1° Ce soir à 9 heures moins le quart de chez moi
2° Demain matin encore chez moi
3° Demain soir chez Devé (Maison Olivier)
J’ajoute, Biqui chéri, que je ne me mettrai
nullement en furie si tu ne peux venir à ces rendez-vous;
maintenant je suis devenu terriblement raisonnable;
et malgré
le grand bonheur que j’ai à te voir
je commence à comprendre que tu ne peux point toujours
faire ce que tu veux.
Tu vois, petit Biqui, qu’il y a commencement à tout.
Je t’embrasse sur le cœur.

 

 

Texto, 1998 – 2023 © Luís Carvalho Barreira







[1] Marques, Luiz, Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Arte Francesa e Escola de Paris. II, pág. 176

[2] A misteriosa partitura foi descoberta após a morte do compositor, por John Cage.

Suzon de Édouard Manet

Édouard Manet (1832-1883)

Un bar aux Folies-Bergère, 1882

Suzon (garçonete)

Óleo s/tela [130 X 96 cm]

Período: Realismo / Impressionismo

The Courtauld Gallery Londres

 

Suzon: o fantasma do Folies-Bergère

Suzon é o nome da jovem mulher que encontramos atrás do balcão do Folies-Bergère, em Paris. É a figura central de Um Bar no Folies-Bergère, de Édouard Manet (1832–1883), aquela que seria a sua última grande pintura, concluída em 1882, apenas um ano antes da sua morte. 

Suzon trabalhava efectivamente no Folies-Bergère. Manet conhecia o local, fez aí estudos preparatórios e levou depois a jovem para o seu estúdio, onde a fez posar diante de um balcão especialmente montado para a pintura. 

Mas aquilo que parece ser uma simples cena da vida nocturna parisiense rapidamente se transforma numa das mais desconcertantes pinturas da modernidade.

Manet representa um lugar de espectáculo, de divertimento e de desejo. O Folies-Bergère era um dos grandes espaços de entretenimento de Paris, onde se cruzavam teatro, música, circo, álcool e vida mundana. No canto superior esquerdo, os pés de um acrobata, suspensos no ar, lembram-nos que estamos perante um espectáculo. Ao fundo, uma multidão de espectadores ocupa os camarotes. Garrafas, copos e bebidas preenchem o primeiro plano. Tudo parece estar em movimento.

Tudo, excepto Suzon.

A multidão agita-se.

O acrobata voa.

Os espectadores divertem-se.

As garrafas esperam pelos clientes.

E Suzon permanece imóvel.

É como se o ruído de todo aquele espectáculo tivesse subitamente desaparecido.

O espelho

Há, porém, outra coisa que perturba imediatamente o nosso olhar: o enorme espelho atrás da jovem.

É ele que transforma a pintura numa espécie de palco dentro do palco. O que julgamos ver directamente é, afinal, também uma reflexão. O espelho amplia o espaço e introduz nele os espectadores, a multidão, as luzes e o movimento do Folies-Bergère. Projecta o mundo que está diante de Suzon para dentro do espaço do espectador. 

É neste ponto que Manet nos obriga a desconfiar daquilo que vemos.

O reflexo de Suzon não coincide exactamente com a figura que temos diante de nós. O homem que aparece no espelho encontra-se deslocado para a direita e parece aproximar-se dela. Também os objectos colocados sobre o balcão apresentam relações espaciais que não obedecem inteiramente à perspectiva convencional. 

A pintura parece conter uma impossibilidade.

Onde estamos nós?

Estamos diante de Suzon?

Estamos no lugar do homem que aparece reflectido?

Estamos dentro do Folies-Bergère?

Ou estamos simplesmente dentro de uma pintura que se recusa a oferecer-nos uma posição estável?

O espelho não esclarece.

O espelho complica.

E talvez seja essa a sua verdadeira função.

C'est un fantôme!

O homem que aparece no reflexo deveria ser o cliente que se encontra diante do balcão. Contudo, ele não existe no espaço que nós vemos.

É um fantasma.

C'est un fantôme!

A sua presença só existe porque o espelho o revela. Ele não está no nosso espaço; está num espaço imaginado pela pintura.

Suzon, pelo contrário, está fisicamente diante de nós. Podemos vê-la, quase podemos tocá-la. Mas a sua expressão transmite exactamente o contrário: ela parece estar ausente.

O seu olhar não se fixa no homem.

Não sorri.

Não manifesta entusiasmo.

Não parece seduzida.

O rosto é sereno, quase impassível.

É uma presença física acompanhada por uma ausência psicológica.

E talvez seja precisamente isso que torna Suzon tão perturbadora.

Ela está ali, mas parece não estar.

A mulher atrás do balcão

À sua volta estão todas as coisas que o Folies-Bergère tem para oferecer: vinho, champanhe, cerveja, licores. As garrafas estão meticulosamente alinhadas diante do espectador. O balcão é, simultaneamente, mesa de serviço e vitrina.

E Suzon está no centro dessa mercadoria.

Folies-Bergère oferecia bebidas, espectáculo e, implicitamente, uma certa economia do desejo. As empregadas do bar eram frequentemente associadas, no imaginário contemporâneo, à prostituição clandestina. Manet introduz, portanto, na pintura de grande formato um tema socialmente ambíguo: a mulher que serve atrás do balcão e que é simultaneamente observada pelo público masculino. 

Mas Manet não transforma Suzon numa caricatura de prostituta.

Pelo contrário.

Ela não se oferece.

Ela não seduz.

Ela não sorri.

Ela não participa da festa.

Está simplesmente a trabalhar.

E é justamente esta neutralidade que torna a pintura socialmente incómoda.

O cliente que vemos no espelho parece querer iniciar uma conversa. Suzon escuta-o. Mas a sua expressão não nos permite saber o que pensa.

O pintor não nos oferece a resposta.

Realismo e modernidade

É frequente associarmos Manet ao nascimento do Impressionismo. No entanto, o próprio artista manteve uma relação complexa com os impressionistas e nunca participou nas suas exposições. Preferiu o circuito oficial do Salon, embora tivesse uma profunda influência sobre a geração impressionista. 

Por isso, talvez seja mais adequado falar aqui de uma pintura precursora da modernidade do que simplesmente classificá-la como impressionista.

As pinceladas rápidas e a aparente espontaneidade do fundo contrastam com o tratamento mais concentrado da figura de Suzon. A multidão é movimento; Suzon é suspensão.

O espaço é instável; ela é o centro.

O mundo exterior é ruído; ela é silêncio.

É essa oposição que sustenta a composição.

Manet não pretende simplesmente reproduzir aquilo que existe diante dos seus olhos. Pretende mostrar-nos a experiência de estar naquele lugar: a multiplicidade dos olhares, a confusão espacial, o espectáculo, a mercadoria e a solidão.

Folies-Bergère é um lugar cheio de pessoas.

Mas Suzon está sozinha.

O último quadro

Há ainda uma dimensão biográfica que não podemos ignorar.

Quando Manet pintou esta obra, encontrava-se já gravemente debilitado por uma doença neurológica progressiva. A causa exacta da sua doença é hoje tratada com alguma prudência pelos historiadores e especialistas, embora as biografias tradicionalmente a relacionem com complicações tardias de uma sífilis. A sua mobilidade estava severamente comprometida. Em abril de 1883, uma gangrena obrigou à amputação do membro inferior esquerdo; Manet morreu a 30 de abril desse mesmo ano. 

Assim, Um Bar no Folies-Bergère adquire inevitavelmente uma dimensão quase testamentária.

Manet pinta um mundo que ainda está cheio de vida.

Luzes.

Música.

Champanhe.

Mulheres.

Homens.

Circo.

Desejo.

Movimento.

E, no centro de tudo, uma mulher imóvel.

Talvez seja excessivo transformar Suzon numa representação da própria morte do pintor. Mas é difícil não perceber a estranha coincidência entre a vitalidade frenética do mundo exterior e a imobilidade daquela figura que ocupa o centro da composição.

Manet está doente.

Suzon está imóvel.

A multidão continua a divertir-se.

E o espectáculo continua.

Olhar não é ver

É talvez aqui que a pintura encontra uma das questões que atravessam toda esta nossa reflexão sobre a arte.

Olhar não é ver.

O primeiro olhar identifica uma empregada de bar.

O segundo percebe um espelho.

O terceiro descobre uma contradição.

O quarto interroga a identidade do homem.

E, finalmente, começamos a perceber que a pintura não está apenas a representar uma cena do Folies-Bergère.

Está a representar o próprio acto de olhar.

O espectador olha para Suzon.

Suzon olha para o espectador.

O homem olha para Suzon.

Suzon olha para o homem apenas através do espelho.

Nós olhamos para todos eles.

E ninguém parece ocupar exactamente o lugar onde deveria estar.

Talvez seja por isso que o espelho de Manet continua a fascinar-nos.

Ele não reflecte apenas uma sala.

Reflecte-nos a nós.

E, ao fazê-lo, transforma o espectador numa personagem da própria pintura.

No Folies-Bergère, todos parecem estar a olhar para alguém.

Só Suzon parece ter deixado de olhar.

Talvez porque já tenha percebido aquilo que nós ainda estamos a tentar compreender:

que, naquele lugar, todos são espectadores e todos são espectáculo.


texto, 2001 © Luis Carvalho Barreira


[1] A mulher no bar é uma pessoa real, conhecida como Suzon, que trabalhava no Folies-Bergère no início da década de 1880. Para a sua pintura, Manet convidou-a a posar no seu estúdio.