Suzanne Valadon e o seu filho Maurice
Suzanne Valadon
Suzanne Valadon: entre o circo, a pintura e os aborrecimentos
Marie-Clémentine Valade, conhecida artisticamente como Suzanne Valadon, foi uma das personalidades mais singulares da vida artística parisiense de finais do século XIX e primeiras décadas do século XX. Pintora autodidata, modelo, acrobata e mulher de personalidade independente, construiu a sua própria trajectória num universo artístico dominado pelos homens.
Filha de uma mãe solteira e de origem humilde, Suzanne conheceu desde muito cedo a dureza da vida. Trabalhou como empregada em cafés de Montmartre e, ainda jovem, tentou a vida de acrobata em espectáculos circenses. A sua passagem pelo mundo dos cabarés parisienses, entre eles o célebre Le Chat Noir, colocou-a no centro de um ambiente onde artistas, escritores, músicos e boémios se encontravam para discutir arte, política, literatura e, naturalmente, os amores que atravessavam essa pequena sociedade.
Montmartre era então muito mais do que um bairro de Paris. Era um território de liberdade, experimentação e transgressão. Nos cafés-concerto e cabarés cruzavam-se pintores, poetas, músicos e personagens que procuravam escapar às convenções da sociedade burguesa. Foi nesse ambiente que Suzanne se aproximou de Miguel Utrillo, artista e crítico de arte catalão, com quem manteve uma relação amorosa.
Dessa relação nasceu, em 1883, Maurice Utrillo. Suzanne nunca identificou publicamente o pai da criança, embora Miguel Utrillo tenha posteriormente reconhecido legalmente a paternidade. Maurice viria a tornar-se também pintor, ficando conhecido sobretudo pelas suas paisagens urbanas de Montmartre.
Entretanto, a vida de Suzanne sofreria uma transformação decisiva.
Uma queda durante a actividade circense obrigou-a a abandonar o espectáculo. O corpo que até então lhe permitira desafiar a gravidade passou a ocupar outro lugar: tornou-se modelo.
Suzanne começou a posar para alguns dos mais importantes artistas da época. O seu corpo e o seu rosto atravessaram as telas de Renoir, Toulouse-Lautrec e Puvis de Chavannes, entre outros. Foi, durante algum tempo, objecto do olhar dos pintores.
Mas Suzanne não permaneceria para sempre do outro lado da tela.
A experiência como modelo proporcionou-lhe uma aprendizagem invulgar. Observava os artistas enquanto trabalhavam, compreendia os seus métodos e assimilava as soluções que procuravam para representar o corpo, a luz e o espaço. Foi nesse contexto que começou a desenhar e, posteriormente, a pintar.
Edgar Degas reconheceu o seu talento e incentivou-a a prosseguir. A relação entre ambos foi particularmente importante para a formação artística de Suzanne. Degas não a viu apenas como modelo: reconheceu nela uma artista.
A transformação é extraordinária.
A mulher que tinha sido observada começou a observar.
A mulher que tinha servido de modelo começou a criar modelos.
O corpo que fora objecto da pintura tornou-se sujeito da própria pintura.
Suzanne Valadon conquistou progressivamente o seu lugar no meio artístico parisiense e tornou-se uma das primeiras mulheres a afirmar-se com verdadeira autonomia nesse universo. A sua obra revela uma visão profundamente pessoal do corpo, sobretudo do corpo feminino, afastando-se frequentemente do idealizado erotismo académico.
Os seus nus não são apenas corpos destinados ao prazer do observador. São corpos reais: pesados, imperfeitos, envelhecidos, sensuais, vulneráveis. Há neles uma humanidade que contrasta com a tradição de transformar o corpo feminino num objecto ideal de contemplação.
Suzanne conhecia, por experiência própria, os dois lados da tela.
Sabia o que significava ser olhada.
E sabia também o que significava olhar.
Talvez seja precisamente essa experiência que torna a sua pintura tão singular.
Suzanne e os seus aborrecimentos
A vida sentimental de Suzanne foi tão intensa quanto a sua vida artística. Entre os homens que se apaixonaram por ela esteve Erik Satie, compositor excêntrico e figura igualmente singular da boémia parisiense.
Em 1893, Satie e Suzanne viveram uma relação breve, mas intensa. Terá sido a única paixão amorosa de Satie que assumiu contornos tão marcantes na sua vida pessoal. A relação terminou poucos meses depois, deixando no compositor uma profunda impressão.
É neste contexto que encontramos uma das mais curiosas histórias da música moderna.
Satie compôs Vexations — literalmente, “Aborrecimentos”.
A pequena peça, extremamente repetitiva, traz consigo uma indicação desconcertante: deveria ser executada 840 vezes. A repetição integral transforma aquilo que seria uma breve composição num exercício de resistência musical e física.
A obra só seria conhecida publicamente muito mais tarde, depois da morte de Satie, quando John Cage a recuperou e promoveu a sua execução.
É tentador estabelecer uma relação directa entre a ruptura amorosa com Suzanne e Vexations. A proximidade temporal e o carácter obsessivamente repetitivo da peça convidam a essa leitura. Contudo, a relação causal entre a paixão por Valadon e a composição não está documentalmente estabelecida de forma inequívoca.
Mas a história é demasiado boa para ser abandonada.
O compositor que se apaixona pela mulher que vive entre pintores, músicos e poetas; a paixão que dura poucos meses; a separação; e, depois, uma música construída sobre a repetição quase interminável.
Talvez seja apenas coincidência.
Ou talvez a arte seja precisamente isso: a transformação de uma experiência que não conseguimos suportar numa forma que conseguimos repetir.
Satie escreveu a Suzanne uma carta que começava com uma expressão de intimidade — Cher petit Biqui... — e nela podemos entrever o homem apaixonado por detrás da personagem excêntrica que a história da música conservou.
Suzanne, porém, não ficou conhecida por ter sido musa de Satie, Renoir ou Toulouse-Lautrec.
Esse seria o destino habitual das mulheres na história da arte: serem lembradas pelos homens que as amaram, pintaram ou desejaram.
Suzanne Valadon fez algo muito mais difícil.
Passou de modelo a artista.
E, ao fazê-lo, deixou de ser apenas a mulher representada na história da arte para se tornar, ela própria, autora dessa história.
Erik Satie e Suzanne Valadon
O compositor consumido se transforma em poeta e escreve esta magnífica declaração epistolar: Cher petit Biqui...
Impossible
de rester sans penser à tout
ton être; tu es en moi toute entière; partout
je ne vois que tes yeux
exquis, tes mains douces
et tes petits pieds d’enfant.
Toi tu es heureuse; ce n’est pas
ma pauvre pensée qui ridera ton front transparent ;
non plus que l’ennui de ne point me voir.
Pour moi il n’y a que la glaciale
solitude qui met du vide dans la tête
et de la tristesse plein le cœur.
N’oublie pas que ton pauvre ami
espère te voir au moins à un de ces trois rendez-vous:
1° Ce soir à 9 heures moins le quart de chez moi
2° Demain matin encore chez moi
3° Demain soir chez Devé (Maison Olivier)
J’ajoute, Biqui chéri, que je ne me mettrai
nullement en furie si tu ne peux venir à ces rendez-vous;
maintenant je suis devenu terriblement raisonnable;
et malgré
le grand bonheur que j’ai à te voir
je commence à comprendre que tu ne peux point toujours
faire ce que tu veux.
Tu vois, petit Biqui, qu’il y a commencement à tout.
Je t’embrasse sur le cœur.
Texto, 1998 – 2023 © Luís Carvalho Barreira
