Um conjunto escultórico formado por sete esculturas — às quais se juntam mais duas, colocadas na fachada adjacente —, situado no terraço do Palácio Marquês da Fronteira, faz parte de um programa artístico e iconográfico mais vasto, cujo estudo deverá necessariamente ter em conta todo o contexto envolvente.
Trata-se do melhor e mais diversificado conjunto profano da segunda metade do século XVII que chegou aos nossos dias praticamente íntegro, constituindo o «mais interessante e completo exemplo que possuímos duma vivenda nobre seiscentista».
Construído na segunda metade do século XVII, por iniciativa do 2.º Conde da Torre e futuro Marquês da Fronteira, D. João de Mascarenhas, o primitivo palácio — «casa de campo, pavilhão de caça, segundo a tradição» — manteve a estrutura inicial numa construção de carácter muito italianizante e clássico, de planta aproximadamente quadrada, com torreões nos cantos, separados por loggias, inicialmente abertas.
A proposta feita pelo orientador e esteta deste Palácio é reveladora da sua personalidade erudita, racionalista e humanista, patente na adopção do modelo arquitectónico escolhido, bem como na preferência pelas Artes Liberais, pelos temas profanos e, sobretudo, pela mitologia greco-romana, que surge profusamente na decoração das paredes do Palácio, reflectindo a herança de um tempo classicista.
Todo este conjunto programático permitiu a D. João de Mascarenhas, 1.º Marquês de Fronteira (1632–1681), homem de Corte e cultor das Artes e das Letras, sob os auspícios de Apolo, deus tutelar da Academia dos Generosos, figurar como um dos grandes vultos da cultura portuguesa do século XVII.
A decoração do edifício encontra-se, em grande parte, revestida por azulejos figurativos de temática profana, abordando os mais diversos temas. No jardim encontramos os meses do ano, os signos do Zodíaco, os planetas, as constelações, cenas de caça e de pesca. No terraço, totalmente revestido a azulejos, surgem as Artes Liberais, as Faculdades Humanas e uma variedade de outros motivos: cenas de caça, flores, atlantes e diversos animais.
É neste local — a Galeria das Artes — que se encontra o grande enigma que nos propusemos estudar e que, ainda hoje, continuamos a investigar.
Galeria das Artes — um lugar mágico
A Galeria das Artes é um lugar mágico, talvez o local mais significativo e complexo, em termos artísticos e iconográficos, de todo o Palácio.
As palavras de Alexis Collote de Jantillet são elucidativas da magnificência do lugar:
«Aconselho-te que vejas a casa de campo ou palácio de Benfica do Marquês da Fronteira (homem eruditíssimo) que eu vi há poucos dias não sem sentir castigado por ter tardado tanto; e, certamente, incutir-te-ei o desejo de ir ali, ao descrever-te voluntariamente a beleza e graça do lugar...»
Um conjunto de painéis de azulejos alusivos às Artes Liberais, acompanhados e intercalados por igual número de nichos com esculturas representativas dos sete planetas então conhecidos — Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno — faz parte de um vasto programa que deverá ser lido no contexto cultural e religioso da época.
Estas representações planetárias estabelecem relações simbólicas com as sete virtudes — Fé, Esperança, Caridade, Justiça, Prudência, Temperança e Fortaleza — e, num plano mais amplo, com os sete sacramentos: Baptismo, Confissão, Eucaristia, Ordem, Matrimónio, Confirmação e Extrema-Unção.
É neste contexto que surge uma questão particularmente interessante: como compreender a inclusão de uma representação cosmológica geocêntrica num programa artístico concebido no século XVII, quando a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, apresentada no De revolutionibus orbium coelestium, de 1543, já tinha mais de um século de existência?
A resposta poderá residir menos na validade científica do modelo e mais na sua permanência enquanto sistema simbólico, filosófico e cultural.
Galeria das Artes — corpo escultórico e corpo cultural
O conjunto escultórico, cuja descrição iconográfica e análise estilística procuraremos desenvolver, distribui-se ao longo do terraço, também designado Galeria das Artes.
As sete esculturas, representando figuras mitológicas, encontram-se dispostas entre o Palácio e a capela, inseridas em nichos de configuração serliana e assentes sobre pedestais. Nas bases encontram-se conchas em forma de vieiras que serviam de receptáculo à água jorrada por finos tubos estrategicamente colocados nos atributos iconográficos das figuras.
Esses atributos, além de constituírem uma ajuda preciosa para identificar o tema de cada corpo escultórico, levam-nos a concluir que as esculturas funcionavam originalmente como fontes, adquirindo, assim, um valor iconográfico acrescido.
A água transforma a escultura em Fonte.
Fonte do ensinamento, pelas suas águas sempre novas, num perpétuo rejuvenescimento.
As fontes adquirem uma importância plástica significativa nos jardins renascentistas. O mesmo acontece nos jardins do Palácio Marquês da Fronteira, concebidos segundo a ideia de uma villa italiana, onde se exaltam os prazeres bucólicos e o imaginário do «jardim secreto», com os seus sistemas hidráulicos a fazer jorrar a água e a permitir, ao longo do percurso, o exercício de um vigor plástico tão presente no gosto europeu da época.
A sacralização das fontes é universal, pois constituem a boca da água viva ou da água virgem.
«Através delas dá-se a primeira manifestação, no plano das realidades humanas, da matéria cósmica fundamental, sem a qual não poderiam ser garantidas a fecundação e o crescimento das espécies. A água viva que elas deitam é, como a chuva, sangue divino, o sémen do céu.»
As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte da vida, meio de purificação e centro de regenerescência. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações imaginárias mais díspares e, simultaneamente, mais coerentes.
É nossa convicção que as obras presentes na Galeria das Artes obedeceram a um projecto extremamente preciso por parte do seu promotor, tanto no valor imagético e iconográfico — que deveria corresponder a uma interpretação erudita de gosto clássico — como na enunciação do programa escultórico, introduzindo valores moralistas ou moralizantes, tão próximos da influência do poder espiritual exercido pelos Jesuítas.
Assim, as esculturas da Galeria das Artes, de concepção clássica, patenteiam um carácter singular no panorama da escultura em Portugal, quer pelo seu carácter invulgar, quer pela sua conotação profana.
Pode, todavia, afirmar-se que a temática deste conjunto escultórico se integra num programa mais vasto e complexo dos jardins do Palácio Marquês da Fronteira, cuja concepção parece ter tido como fonte principal a literatura clássica e cuja descrição iconográfica encontra paralelo em numerosos autores, entre os quais se destaca Cesare Ripa, por sintetizar, na sua Iconologia, grande parte do pensamento simbólico da época.
Analisando iconograficamente as esculturas segundo a disposição que ocupam na Galeria das Artes, podemos identificar:
Diana, Mercúrio, Vénus, Apolo, Júpiter, Marte e Saturno.
Lua — Diana
Filha de Zeus e de Leto, Ártemis é irmã gémea de Apolo. Virgem, desconfiada e vingativa, sempre indomável, aparece na mitologia como o oposto de Afrodite.
Ártemis é «a ruidosa Ártemis, que arremessa as flechas com o arco de ouro, a irmã do Arqueiro».
Caçadora, massacra os animais que simbolizam a doçura e a fecundidade do amor, os cervos e as corças, excepto quando são jovens e puros.
Segundo Boccaccio, na sua Genealogia dos Deuses, Diana é descrita como uma «mulher de aspecto virginal que vai num carro puxado por dois cavalos, um branco e o outro negro, simbolizando, assim, a Lua que cumpre o seu curso de dia como de noite. O carro também podia ser puxado por cervos, já que o trajecto percorrido pela Lua se realiza mais velozmente do que qualquer outro planeta, por ser o planeta com a órbita mais reduzida. Prudêncio veste a Lua com um subtil véu branco».
No sistema geocêntrico, a Lua ocupava a primeira posição.
Mercúrio
«Um dos símbolos da inteligência realizadora; preside ao comércio. Tem por atributo sandálias aladas, que significam a força de elevação e a aptidão para os deslocamentos rápidos. (...). Mensageiro por excelência, chamado às vezes por uma palavra que é de Evangelho, o mensageiro da boa nova, Hermes simboliza os meios de troca entre o Céu e a Terra, a mediação, em suma, meios que se podem perverter em comércio simoníaco ou elevar-se até à santificação. Assegura a viagem, a passagem entre os mundos infernais, terrestre e celestes.»
Mercúrio é o segundo planeta do sistema geocêntrico.
Vénus
«Deusa da mais sedutora beleza, cujo culto é celebrado em numerosos santuários da Grécia, e principalmente na ilha de Citera. Filha do esperma de Urano (o Céu) derramado no mar, depois da castração do Céu pelo seu filho Cronos.»
Daí a lenda do nascimento de Afrodite, surgindo da espuma do mar, representada magistralmente no Nascimento de Vénus, de Botticelli.
A concha que sustenta na mão significa, segundo alguns autores, a forma como nasceu do mar.
«Simboliza as forças irreprimíveis da fecundidade, não nos seus frutos, mas sim no desejo apaixonado que ateia entre os seres vivos. É o amor em forma física, o desejo e o prazer dos sentidos.»
Segundo Cesare Ripa:
«Vénus representa-se jovem, nua e bela, com uma coroa de rosas, levando na sua mão uma concha marinha.»
Representa-se nua por despertar «o apetite dos abraços lascivos» e porque, segundo Ripa, quem se entrega aos prazeres venéreos pode acabar despojado dos seus bens, debilitando o corpo e manchando a alma.
Pela sua posição no sistema geocêntrico, Vénus representa o terceiro planeta.
Apolo — Sol
«Representa-se o Sol por uma figura masculina, jovem e nua. Tem o braço direito estendido, que sustém com a mão aberta três figurinhas que representam as três Graças. Com a esquerda segura um arco e as setas, aparecendo morta a seus pés uma serpente atravessada por uma flecha. (...). Com sua juventude simboliza a pujança do Sol, sempre produtor, graças ao calor que desprende. Sustém com a esquerda as três Graças, mostrando assim quão belo é neste mundo a sua luz.»
Na Ilíada, Apolo surge como «deus de arco de prata», o Febo Apolo que brilha como a Lua.
Apolo nasceu no sétimo dia do mês. Ésquilo baptizou-o de «augusto Deus sétimo», o Deus da sétima porta. As suas festas principais eram celebradas no dia sete de cada mês; a sua lira tinha sete cordas e a sua doutrina resumia-se em sete máximas atribuídas aos sete sábios.
Dada a sua proximidade da Terra e o seu movimento semelhante ao da Lua, e por ser mais lento do que Mercúrio e Vénus, acreditava-se que o Sol ocupava a quarta posição no sistema geocêntrico.
Júpiter
«Deus supremo dos romanos, correspondente ao Zeus dos gregos. Ele aparece como a divindade do Céu, da luz diurna, das condições climatéricas e também do raio e do trovão... o poder soberano, o presidente do concílio dos deuses, aquele de quem emana toda a autoridade. Júpiter simboliza a ordem autoritária, que é imposta do exterior. Seguro do seu direito e do seu poder de decisão, não procura nem o diálogo, nem a persuasão: troveja.»
Pelo seu tamanho, pela sua posição e pelo seu lento movimento, o planeta que tem o nome de Júpiter ocupa o lugar central entre os astros que giram em torno da Terra.
É precedido por Lua, Mercúrio, Vénus, Sol e Marte e seguido por Saturno.
Em analogia com este lugar de eleição, Júpiter encarna, na astrologia, um princípio de equilíbrio, ordem, estabilidade no progresso, abundância e preservação da hierarquia estabelecida.
Foi o planeta da legalidade social, da riqueza, do optimismo e da confiança. Os Antigos deram-lhe o nome de Grande Benfeitor. Governa, no Zodíaco, Sagitário, signo da justiça, e Peixes, signo da filantropia.
Júpiter é, portanto, o sexto corpo na sequência geocêntrica.
Marte
«Deus da Guerra, Ares é filho de Zeus e de Hera. Brilhantemente armado de elmo, couraça, lança e espada, simboliza a força bruta, a dos que se vangloriam do seu tamanho, peso, rapidez, tumulto, capacidade de massacre e de troçar das questões da justiça, moderação e humanidade. Sacia-se com o sangue dos homens, diz Ésquilo.»
Mais uma vez, a escultura da Galeria das Artes segue de perto a iconografia de Cesare Ripa:
«Representa-se desde os tempos antigos como uma figura de um homem feroz e terrível aspecto.»
Estácio, no seu sétimo livro da Tebaida, arma-o de uma armadura «toda lavrada com monstruosos espantos», cobrindo-lhe a cabeça com um elmo sobre o qual surge um pássaro.
Leva uma lança.
No sistema geocêntrico, Marte ocupa a quinta posição.
Saturno
«É o planeta maléfico dos astrólogos, cuja luz triste e fraca foi, desde os primeiros tempos, evocadora de tristezas e provações da vida e que a alegoria representa com traços fúnebres de um esqueleto com uma foice.»
Na figura mitológica grega, Cronos, para não ser destronado pela sua progenitura, segundo a profecia dos seus pais, devora os próprios filhos assim que nascem.
Saturno, de rosto triste, mostra a melancolia, condição atribuída a este planeta. Entre os Antigos, Saturno significa o Tempo e, por isso, aparece representado com uma idade avançada, a que melhor se adequa à sua lentidão no sistema planetário.
A escultura da Galeria das Artes representa Saturno segundo a descrição de Cesare Ripa:
«Representa-se com uma foice na mão, por quanto o tempo cega e abate todas as coisas. A criança que está a ser devorada mostra como o Tempo destrói, inclusive, as jornadas diárias, apesar de ser ele mesmo o pai que as gerou.»
Saturno é a sétima e última representação do sistema geocêntrico.
O enigma da ordem planetária
Porém, existe um erro na representação planetária, segundo a teoria geocêntrica, neste conjunto de esculturas distribuídas ao longo da Galeria das Artes.
Fazendo uma leitura da esquerda para a direita — isto é, desde a capela em direcção ao Palácio —, pudemos identificar, em 1998, as seguintes sete esculturas representando o sistema planetário:
Lua / Mercúrio / Vénus / Sol / Júpiter / Marte / Saturno
ao invés da sequência que seria expectável:
Lua / Mercúrio / Vénus / Sol / Marte / Júpiter / Saturno.
Modelo geocêntrico segundo Bartolomeu Velho, 1568
As sete esculturas, ordenadas no Palácio do seguinte modo — Diana, Mercúrio, Vénus, Apolo, Júpiter, Marte e Saturno — representam os sete planetas do sistema geocêntrico: Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno.
Esta crença pressupõe um duplo movimento do pensamento: por um lado, uma projecção das relações entre os planetas sobre as relações analógicas existentes entre os seres humanos; por outro, uma projecção, sobre o comportamento humano, dos fenómenos observados na evolução relativa dos astros.
Cada planeta era dotado de um determinado poder sobre os mortais, exercendo influência sobre os seres vivos da Terra.
Aos sete planetas «correspondem os sete céus, os sete dias da semana, as sete direcções do espaço, os sete estados ou as sete operações da alma, as sete virtudes teologais e morais, os sete dons do Espírito Santo, os sete metais, as sete fases da Grande Obra, etc.»
A simbologia planetária, quase inesgotável, assinala a crença numa simbiose entre a Terra e o Céu, animada por uma constante interacção entre os níveis do cosmos — o microcosmo (o Homem) em oposição e, simultaneamente, em correspondência com o macrocosmo (o Universo).
No entanto, pudemos descortinar que a ordem das esculturas de Júpiter e Marte se encontra invertida, alterando o sentido da representação dos planetas segundo a teoria geocêntrica — ou segundo qualquer outra ordenação cosmológica que porventura tenha presidido ao programa.
Esta troca não nos parece propositada e muito menos revela ignorância por parte do arquitecto ou do responsável por tão ambicioso projecto.
Muitas interrogações poderão ser colocadas acerca desta inversão. Mas a resposta poderá encontrar-se em algumas das intervenções de restauro e conservação realizadas no Palácio e no jardim.
Em 1755, realizaram-se obras de vulto na sequência do terramoto, passando o Palácio a constituir residência permanente da família Mascarenhas.
Em 1924, a partir desta data, foram realizados pelo 10.º Marquês da Fronteira muitos melhoramentos nos jardins do Palácio.
Em 1941, o ciclone que assolou Lisboa terá sido responsável por algumas das últimas transformações ocorridas na vegetação do Jardim Grande.
Poderemos ainda considerar a hipótese de a troca ter ocorrido quando foram desactivados os sistemas de canalização das fontes — as próprias esculturas — devido a problemas de infiltrações no interior do Palácio.
Em epílogo
Neste vasto programa arquitectónico e artístico não conseguimos, ainda, deslindar os motivos que levaram Júpiter e Marte a ocupar posições aparentemente erradas.
Seria uma alteração posterior?
Um erro de montagem?
Uma consequência das sucessivas campanhas de restauro?
Ou existiria uma razão simbólica que ainda não conseguimos decifrar?
Talvez algumas conjecturas históricas, ou o aparecimento de registos documentais relativos às sucessivas intervenções no Palácio e nos seus jardins, possam um dia justificar esta inversão.
O que parece certo é que, num conjunto em que nada parece ter sido deixado ao acaso, a troca entre Júpiter e Marte não pode deixar de despertar a nossa curiosidade.
É justamente nesse pequeno desvio da ordem que talvez resida o verdadeiro mistério da Galeria das Artes.
Nota editorial importante: mantive a sua tese central — a “troca” de Júpiter e Marte como mistério — mas tornei a conclusão mais prudente. Num texto destinado a publicação, eu evitaria afirmar categoricamente que se trata de um “erro” antes de excluir uma eventual lógica iconográfica ou uma alteração posterior. Isso, paradoxalmente, fortalece o mistério e dá maior credibilidade à investigação.
Também há aqui matéria para uma revisão de nível mais profundo, diferente da revisão linguística: confrontar as identificações das sete esculturas, a correspondência com Cesare Ripa, a sequência planetária, as Artes Liberais, as virtudes e sacramentos e, sobretudo, verificar se Júpiter e Marte estão realmente trocados ou se a disposição obedece a outro programa iconográfico. Essa análise poderia transformar o texto numa investigação histórico-artística bastante mais robusta.