Luís Barreira
Homage to Helena de Almeida, 2018
série:
Fotografia
Luís Barreira
Homage to Helena de Almeida, 2018
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Templo de Luxor
Divindade Min
Foto by Luís Barreira
arquivo: 2018_07_16_DSCF9242
O corpo poiético — do phallus à arquitectura do poder
Há comportamentos humanos que atravessam culturas, religiões e civilizações. Gestos aparentemente espontâneos, práticas de veneração, superstições e rituais podem sobreviver à passagem do tempo, mesmo quando os sistemas de crenças que lhes deram origem desapareceram. São como estratos sobrepostos de uma memória colectiva: cada época acrescenta uma nova camada, mas raramente apaga completamente a anterior.
É talvez por isso que determinados lugares continuam a provocar no visitante uma estranha sensação de familiaridade. Entramos num templo antigo, já não conhecemos os deuses que nele foram venerados, desconhecemos os rituais que ali se praticavam e, contudo, determinadas imagens continuam a interpelar-nos.
No Templo de Luxor, no Egipto, uma dessas imagens é particularmente perturbadora: a representação itifálica do deus Min, divindade associada à fertilidade, à sexualidade e à potência geradora.
O visitante contemporâneo confronta-se, assim, com uma imagem que pertence a um sistema religioso desaparecido, mas cujo significado corporal permanece imediatamente inteligível. O falo não necessita de tradução. Antes de ser símbolo religioso, é corpo. Antes de ser atributo de uma divindade, é matéria. E, enquanto matéria, remete para uma das experiências fundamentais da existência humana: a capacidade de gerar vida.
É precisamente nesta passagem — do corpo à representação e da representação ao símbolo — que encontramos uma das manifestações daquilo que designamos por corpo poiético.
O corpo poiético não é apenas o corpo representado. É o corpo que produz significado. É o corpo transformado em imagem, a imagem transformada em símbolo e o símbolo convertido em linguagem artística, religiosa ou arquitectónica.
No Egipto antigo, a fertilidade não podia ser dissociada da continuidade da vida. A sexualidade, a fecundidade, a morte e a regeneração faziam parte de um mesmo universo simbólico. A representação do falo de Min pode, neste sentido, pode ser entendida como uma celebração da potência criadora: aquilo que é corporal torna-se divino; aquilo que é sexual torna-se cosmológico; aquilo que é matéria torna-se símbolo.
Mas a relação entre corpo e arquitectura torna-se ainda mais sugestiva quando observamos o obelisco.
A forma vertical, ascendente, terminada numa pequena pirâmide, estabelece uma poderosa relação visual com as ideias de potência, elevação e ligação entre a terra e o céu. Não significa, naturalmente, que todos os obeliscos devam ser reduzidos a uma representação fálica. A sua simbologia egípcia é muito mais complexa. Contudo, a associação entre verticalidade, fecundidade, luz solar e poder permite compreender como determinadas formas corporais podem participar na construção de linguagens arquitectónicas.
O corpo torna-se arquitectura.
E a arquitectura, por sua vez, torna-se corpo simbólico.
É nesta reciprocidade que o corpo poiético adquire uma dimensão que ultrapassa a própria anatomia. O corpo não é apenas aquilo que a arquitectura representa; pode ser também a matriz a partir da qual a arquitectura pensa, organiza e materializa o espaço.
A verticalidade é talvez uma das primeiras experiências através das quais o corpo humano se relaciona com o poder. De pé, o corpo distingue-se da matéria que o rodeia. Ergue-se, ocupa espaço, domina visualmente. A postura vertical é simultaneamente uma condição anatómica e uma declaração simbólica: estar de pé é afirmar presença.
Não será, portanto, surpreendente que muitas das arquitecturas do poder tenham procurado essa mesma verticalidade. Torres, colunas, obeliscos, campanários, minaretes, monumentos e arranha-céus parecem prolongar, em diferentes épocas e culturas, o desejo humano de se elevar acima do espaço quotidiano.
A arquitectura monumental pode ser entendida, neste sentido, como uma espécie de corpo ampliado. A coluna transforma-se em membro; a torre, em corpo erecto; o eixo vertical, em espinha dorsal; o monumento, em presença corporal petrificada.
A pedra adquire uma anatomia.
E quando a anatomia se transforma em arquitectura, a arquitectura pode adquirir poder.
A dimensão fálica da verticalidade não reside necessariamente numa intenção sexual consciente do arquitecto ou do construtor. Ela pode resultar de uma associação simbólica muito mais profunda, inscrita na experiência humana: a altura como domínio, a erecção como potência, a ascensão como transcendência e a permanência como vitória sobre o tempo.
Do phallus ao obelisco, do obelisco à coluna, da coluna à torre, da torre ao arranha-céus, encontramos uma longa genealogia de formas que parecem repetir, sob diferentes linguagens culturais, uma mesma aspiração: elevar o corpo, ultrapassar o horizonte e transformar a matéria em poder.
Talvez seja essa uma das grandes capacidades do corpo poiético: não apenas representar o mundo, mas inventar formas através das quais o mundo possa ser compreendido.
O corpo produz o símbolo.
O símbolo produz a arquitectura.
E a arquitectura, quando monumentalizada, produz poder.
[1] Phallus [Latim]. Pénis erecto.
[2] Este templo era dedicado ao deus Amon, era também dedicado às divindades Mut (esposa de Amon) e Khonsu. Construído principalmente durante o reinado de Amenhotep III (1390 a 1352 a.C.), é um belo exemplo da capacidade técnica e decorativa dos egípcios deste período.
[3] “Em vez disso, deverão destruir os seus altares pagãos, quebrem os obeliscos que eles adoram e derrubem os seus vergonhosos ídolos. Não deverão adorar outro deus senão só Jeová, porque é um Deus que requer uma lealdade absoluta e uma devoção exclusiva.” Êxodo 34:12 (O Livro)
[4] O vice-rei do Egipto, Mehmet Ali, ofereceu os dois obeliscos de Luxor ao povo francês em 1829, mas só um é que foi colocado em Paris.
[5] Abichegam é uma cerimónia hindu de culto ao falo ligada à divindade Xiva; Kurupi é um deus mitológico guarani; Menhir cravado na terra como forma de a fecundar pelos povos pré-históricos; Min é uma divindade egípcia itifálica, que além de proteger as caravanas, promovia a fertilidade; Priapo é o deus grego da fertilidade, filho de Dioniso e Afrodite; e Frey deus nórdico com os mesmos propósitos.
[6] O mais antigo phallus encontrado foi na gruta Hohle Fels e estima-se ter cerca de 28000 anos. E o mais recente e significativo culto ao phallus celebra-se, ainda hoje, no “Festival do Falo de Aço” — Kanamara Matsuri — na cidade de Kawasaki, Japão, celebrando a entrada da primavera de forma inusitada.
[7] Deus egípcio antigo dos mortos e moribundos, guiava e conduzia a alma dos mortos no submundo, Anúbis era sempre representado com cabeça de chacal, entretanto os egiptólogos mais conservadores afirmam que não há como saber com certeza o animal que o representa, era sempre associado com a mumificação e a vida após a morte na mitologia egípcia, também associado como protector das pirâmides.
Templo de Luxor, 2018
arquivo: 2018_07_16_DSCF9259
Texto/Fotos 2018©Luís Barreira
"Nascimento de Vénus" by Luís Barreira
Lisboa, 2018
modelo: Érica Oliveira
Série: Retratos na Arte
Fotografia / Colagem
arquivo: 02/19/nk-19504, 2018
O Nascimento de Vénus é uma pintura de Sandro Botticelli, realizada em 1484/6.
A obra está exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença, na Itália.