REDUTOS

  REDUTOS   Photography book  24.0x22.0 cm (9.45x8.66 in.)  123 Pages / 111 Photos  author edition, 2017  Limited edition (20 Books)  signed copy  Published by Luís Barreira  ISBN: 978-989-20-8025-3  Depósito Legal: 433873/17

REDUTOS

Photography book

24.0x22.0 cm (9.45x8.66 in.)

123 Pages / 111 Photos

author edition, 2017

Limited edition (20 Books)

signed copy

Published by Luís Barreira

ISBN: 978-989-20-8025-3

Depósito Legal: 433873/17


Os redutos da Natureza.

Não foi na pesquisa arqueológica dos espaços naturais ou de paisagens imaculadas que este projecto fotográfico se empenhou e se fundamentou. E muito menos no registo óbvio ou na sua evidência formal. Durante vários anos, fomos impelidos para o seio dos grandes espaços naturais, recolhendo vários registos fotográficos numa tentativa, quase religiosa, de comunhão mútua. O prazer extraído desses momentos, como se tratasse de uma consonância poética, foi o de podermos viver no seu corpo em demasia. Assim, nesse excesso, nessa necessidade, nesse desejo que se exprime através de actos ou acções que se confundem com a sensibilidade quotidiana, porque o acto criativo é também o sentimento, reside a nossa pesquisa e o nosso objecto de trabalho. As singelas fotografias apresentadas aqui, quase subsumidas em mantos de nevoeiro, remetem-nos para os últimos REDUTOS de uma nova dimensão plástica, testemunham essa preocupação minimal ao mesmo tempo que ganham uma plasticidade, quase irreal, tangível ao processo criativo – corpo poiético – das artes plásticas. É nessa condição de criador e artista plástico que fotografo. Fotografo com os modelos que pinto, e pinto com a mesma natureza que fotografo. Esta justaposição de naturezas de expressão plástica distintas leva-nos a querer que no dia em que a fotografia – portadora de uma linguagem e expressão plástica - deixar de reflectir esta dimensão “poética”, possibilitando à comunidade construir um “juízo crítico”, capacidade extrema de sentido, dizível, na medida em que o objecto estético se caracteriza pela expressividade apreendida não só pelo sentimento, mas também pelo entendimento, diremos que a fotografia (ou a arte em geral) prostitui-se ao eclectismo crítico fuliginoso, ou a intervenções artísticas de simples persuasão. Nada é mais redutor do que entender uma “imagem” unicamente pela emanação do logos (reflexo, comparação ou reflexão) no objecto artístico (vulgo, obra de arte). A expressão plástica é, muitas das vezes, mais simples: e a sua simplicidade reside apenas na sua plasticidade tangível a gestos felizes e a felicidades de expressões. Neste sentido, procurei na fotografia o médium privilegiado para testemunhar a minha relação com as coisas a dois níveis: primeiro, numa inegável atracção física e, por último, numa cumplicidade poética e plástica. O primeiro impulso físico libertou-me enquanto fruidor, o segundo condicionou-me enquanto criador artista. Condicionou-me porque nem sempre a Natureza se apresenta com as roupagens almejadas, com as cores pretendidas ou com a luz desejada, factores importantes para que se possa alcançar a ideia pretendida ou objecto final – a fotografia. Nesta busca obsessiva, nem sempre observável, transformou-se em desafio constante a pesquisa fotográfica até aos seus últimos REDUTOS. O pathos extraído da Natureza realizou-se, por vezes, de uma forma mais singela, inaudita, que é quando o seu corpo transmigra para a nossa vida e quando o seu registo passa a fazer parte da nossa existência. É nesta dicotomia de fruidor e criador que estas fotografias devem ser lidas: o nosso re-encontro com a Natureza… e com a natureza da fotografia.

 

texto de Luís Barreira


Ovo da Páscoa

 Luís Barreira  Ovo da Páscoa, 2018  ...   E se o  Ovo contém em si o mistério da vida  celebremos a entrada da primavera e/ou a ressurreição de Cristo com alegria, com abundância, com fertilidade, com esperança na concretização dos nossos desejos e num futuro melhor .  ver texto:  Ovo da Páscoa, 1991   Fotografia  arquivo: 03_30_NK2_0504, 2018

Luís Barreira

Ovo da Páscoa, 2018

...

E se o Ovo contém em si o mistério da vida celebremos a entrada da primavera e/ou a ressurreição de Cristo com alegria, com abundância, com fertilidade, com esperança na concretização dos nossos desejos e num futuro melhor.

ver texto: Ovo da Páscoa, 1991

Fotografia

arquivo: 03_30_NK2_0504, 2018

Cão

 Luís Barreira  Cão (fragmento) do quadro  Pintura   MNAA   série:  Museion  - espaços revisitados  Fotografia  arquivo: 04_02_IMG_6221, 2017

Luís Barreira

Cão (fragmento) do quadro

Pintura

MNAA

série: Museion - espaços revisitados

Fotografia

arquivo: 04_02_IMG_6221, 2017

"ecce homo"

  ecce homo  fotografado/reinterpretado por Luís Barreira, 2017  Pintura realizada c. 1570  Autor desconhecido  Pintura a óleo sobre madeira (carvalho)   Museu Nacional de Arte Antiga   Série:  espaços revisitados   Fotografia  arquivo: 04_02_IMG_6089, 2017

ecce homo fotografado/reinterpretado por Luís Barreira, 2017

Pintura realizada c. 1570

Autor desconhecido

Pintura a óleo sobre madeira (carvalho)

Museu Nacional de Arte Antiga

Série: espaços revisitados

Fotografia

arquivo: 04_02_IMG_6089, 2017

LAVRA

 Livro de Fotografia (2011-2017)  LAVRA  98 páginas / 92 fotos  220x240x9 mm  edição de autor  20 exemplares  numerados e assinados  ISBN 978-989-20-8014-7  Depósito Legal: 433872/17

Livro de Fotografia (2011-2017)

LAVRA

98 páginas / 92 fotos

220x240x9 mm

edição de autor

20 exemplares

numerados e assinados

ISBN 978-989-20-8014-7

Depósito Legal: 433872/17

Um conjunto de fotografias registadas ao longo dos últimos anos dá corpo a esta publicação tendo a Natureza como referente – ou objecto retratado. Ao mesmo tempo que este projecto busca a tangibilidade material entre o eu e o objecto, coloca perenemente em discussão uma certa linguagem visual centrada na fotografia. Será que um acto mecânico de um registo fotográfico pode transformar-se em objecto de arte?

A resposta não é fácil, nem será essa a nossa preocupação. Interessa-nos sobremaneira colocar a fotografia no “ad momentum” criativo: espaço, tempo e memórias. É nesta intersecção do momento que o simples acto de fotografar não se reduz a limitar o campo visual, a reenquadrar o objecto retratado, a explorar as formas através da luz, etc., mas a reinterpretar uma realidade fazendo com que possamos exponenciar a fotografia em novas formas de expressão plástica. Assim, este conjunto de fotografias propõe uma nova realidade, pois ele evidencia o que o autor quer mostrar e “não o espelho de uma realidade[1]” habitada. Nesta experimentação imaterial vivida, dificilmente explicável, porque é pessoal, foram lavrados “ad momentum” incontáveis registos cuja edição nos afasta da realidade e que a memória evoca permanentemente - “ad infinitum”. Não são simplesmente registos mecânicos ou compromissos entre dados técnicos (a velocidade do obturador, a escolha do diafragma ou da sensibilidade do filme) são fragmentos de um novo discurso promovido pelos mais diversos mediadores passíveis de ser reinterpretados. Falamos de registos fotográficos – ou grafias poéticas com a luz - que brotam de um processo complexo de mnemografias[2] revelando as sensações que o “corpo poiético[3]” apela à pesquisa estética. Este ensaio sulca cumplicidades evidentes estabelecidas com a Natureza e com a natureza das coisas; revela uma pesquisa obsessiva patente nestas 86 fotografias agora sulcadas neste livro e descobre no secretismo da solidão que a natureza das nossas raízes nos incita a rasgar caminhos, nos impelem inexoravelmente para o contacto com os elementos da Natureza: a terra, a água, o ar e o fogo (a energia).

Foi neste o espaço privilegiado, vivenciado em isolamento, que as emoções se revelaram. Foi neste o tempo assolado pelo silêncio que os pensamentos e o entendimento se transformaram em conhecimento. E foi, sobretudo, no apelo à memória que esta Lavra, para além de congelar no tempo uma experiência estética, testemunha quão frágil é o nosso momentum.

LAVRA é um ensaio de comunhão com a Natureza, “ad infinitum”


[1] “A fotografia não é um espelho do real”, cito Rudolf Arnheim, Film as Art, 1957

[2] Grafia que apela à memória; que exprime ideia de lembrança; recordação.

[3] Poiesis: processo ou acção criativa.

Texto de Luís Barreira

 

Walking Distance

O Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (Maat) acolhe uma exposição de trabalhos de Rui Calçada Bastos, com curadoria de João Pinharanda. Não se trata de uma exposição fotográfica nem o autor se intitula fotógrafo. É um percurso plástico sobre a relação do olhar (o seu) e o percurso vivenciado pelo registo fotográfico.

Simplesmente Brilhante…

 photo by Luís Barreira  Walking Distance, Maat, 2016  Rui Calçada Bastos  Exposição

photo by Luís Barreira

Walking Distance, Maat, 2016

Rui Calçada Bastos

Exposição

 Trabalhos de Rui Calçada Bastos, Maat, 2016

Trabalhos de Rui Calçada Bastos, Maat, 2016

Man Ray, Adão e Eva, 1924

  Man Ray fotografa Marcel Duchamp e Bronia Perlmutter,  Adão e Eva  inspirado no quadro de Lucas Cranach (o velho), 1924    Gelatin Silver print em placa de vidro, Paris    Musée national d’Art moderne

Man Ray fotografa Marcel Duchamp e Bronia Perlmutter, Adão e Eva inspirado no quadro de Lucas Cranach (o velho), 1924

Gelatin Silver print em placa de vidro, Paris

Musée national d’Art moderne

 

 

David Bomberg (1890-1957)

 Luís Barreira  Tate Galleries, 1988  David Bomberg exhibition  Fotografia  Gelatin Silver print   

Luís Barreira

Tate Galleries, 1988

David Bomberg exhibition

Fotografia

Gelatin Silver print

 

  David Bomberg   -   Procession, 1912-1914     Oil on paper laid on panel, 28.9 x 68.8 cm

David Bomberg - Procession, 1912-1914

Oil on paper laid on panel, 28.9 x 68.8 cm

Foz d'égua - Piódão

Os recantos da Serra do Açor deixam a descoberto algumas maravilhas naturais. A Foz D’Égua a pouco mais de 4 km do Piódão é um bom exemplo: um local de encontro da ribeira do Piódão com a ribeira de Chãs d’Égua, que percorrem em direcção ao rio Alvôco, tornando este local num espaço de rara beleza natural.

Nota do viajante: se o cenário natural é magnífico o mesmo não se pode dizer da falta de gosto do proprietário da casa e da encosta anexa que transformou este anfiteatro numa espécie de parque de diversões onde o Kitsch prevalece. Mesmo assim, vale a pena visitar.

 Luís Barreira  Foz D´Égua, Piódão, 2016  série:  Fotografia  arquivo: 04_25_NK1_2644, 2016  coordenadas: 40.247197 -7.812672

Luís Barreira

Foz D´Égua, Piódão, 2016

série:

Fotografia

arquivo: 04_25_NK1_2644, 2016

coordenadas: 40.247197 -7.812672

Centro Arte Moderna

Manifesto

Toda a arte deverá estar sepultada no CAM. A nossa será (foi) a primeira.

(nas fundações do CAM enterramos o nosso manifesto artístico, documentos libertadores da arte do século XX.)

Lisboa, 1981

LCB

MPPCM

 Luís Barreira  Centro de Arte Moderna (construção), 1981  Fotografia  Gelatin-Silver Print

Luís Barreira

Centro de Arte Moderna (construção), 1981

Fotografia

Gelatin-Silver Print

"é preciso ter lata"

 Revista mn #01 coordenada por Luís Barreira  Foto/Capa: Luís Barreira  "É preciso ter lata", 2005  Entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa      

Revista mn #01 coordenada por Luís Barreira

Foto/Capa: Luís Barreira

"É preciso ter lata", 2005

Entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa

 

 

entropia

Nos anos 80 entre o mergulho no caos e o chafurdar na desordem, a entropia da arte encerrava em si um movimento de redescoberta da harmonia. O expressionismo gestual da pintura, que rompe em sucessivas camadas de tinta, dá lugar ao rasgar de espaços fruto do reenquadramento da máquina fotográfica. A fotografia como veículo, instrumento, das artes plásticas.

 Luís Barreira  projecto:  entropia & arte  (1982-1989)  6 fotografias / trabalhos expostos na   I Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira  , 1989  Série:  entropia

Luís Barreira

projecto: entropia & arte (1982-1989)

6 fotografias / trabalhos expostos na I Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, 1989

Série: entropia

isto não é uma Margarida, 1984

Em 1984 fiz os primeiros retratos marcado pela influência Dadaísta - Surrealista. Man Ray e Marcel Duchamp eram as minhas principais referências artísticas numa altura em que a manipulação da imagem passava, quase em exclusivo, pelo recorte e colagem da imagem. A Dama Dada e mais tarde a Daisy Dada foram ensaios fotográficos e plásticos realizados nos finais dos anos 80 e início dos anos 90 (nunca publicados) a génese de La Femme - surrèaliste,  trabalho (re)começado em 2012.

 Luís Barreira  Dama Dada,   isto não é uma Margarida , 1984  Fotografia   Gelatin-Silver Print

Luís Barreira

Dama Dada,

isto não é uma Margarida, 1984

Fotografia

Gelatin-Silver Print

Os novos instrumentos colocados à disposição da fotografia digital são agora assumidos distanciando o real do imaginário poético. Neste sentido, La Femme - surrèaliste aparece como um novo projecto fotográfico e plástico.

 Luís Barreira   Mémoire d'une femme , 2015  série:   La Femme - surrèaliste    Fotografia digital

Luís Barreira

Mémoire d'une femme, 2015

série: La Femme - surrèaliste

Fotografia digital

Iris da Sibéria

Na viagem a referência ao corpo do desejo, de delito, não implica necessariamente a representação verosimilhante de personagens ou de situações carnais. Há uma dimensão do desejo que está antes, depois, e para além das pessoas conhecidas: que são a solidão, a memória e o silêncio. Uma dimensão secreta habitada por sinais tão particulares que os sentidos quase não os conseguem captar. São viagens, por vezes, assombradas por imagens tão fulgurantes que a imaginação quase não as alcança reter. Um errante caminheiro que eternamente se perde em divagações e recordações.

Os cânticos ortodoxos e uma série de pinturas iconográficas extraídas de um todo corpo pictórico são aqueles que melhor representam a dimensão sólida e a memória profunda, talvez a instância fundadora, o ponto de ancoragem mais decisivo de toda a experiência vivida. E é por isso que não posso limitar ao mero reconhecimento das suas expressões secretas o desejo concupiscente.

Nunca soube o nome dela. Aliás, durante a minha estada, em Irkutsk, jamais proferiu uma palavra… e durante muito tempo julguei ser muda, até ao momento em que o seu canto agudo irrompe o espaço sagrado numa pequena igreja situada num ermo siberiano. Creio, não, tenho a certeza, que aquela experiência melómana foi a mais marcante da minha vida. Reconhecendo o esplendor litúrgico que permanece (ainda) nas gélidas terras dos Gulags, de Dostoiévski e de Tolstói, assisti a toda liturgia de pé – por norma, não há bancos nas igrejas ortodoxas -, à solenidade do rito conquistando o coração dos fiéis. Encostado a uma imagem evangélica de Cristo (“a paixão do povo russo” segundo Dostoiévski) o diálogo polifónico vindo da interacção das vozes agudas femininas e do som grave do diácono era, sempre, elevada pela voz angélica que eu julgara muda: verdadeiramente sublime.

 Luís Barreira  Lago Baikal, Sibéria, 1996  Fotografia  Gelatin Silver print  arquivo: F_224_119, 1996

Luís Barreira

Lago Baikal, Sibéria, 1996

Fotografia

Gelatin Silver print

arquivo: F_224_119, 1996

O clima na Sibéria é severo e quando o degelo aparece e a flora irrompe as marcas agrestes estão patentes a mais de um metro de profundidade, a ideia do gelo perpétuo. Recordo à medida que a memória se desvanece através do tempo e a história se depura, a figura formosa reflectida num poço pouco profundo. As águas cristalinas ao nível do solo não deixavam mentir a donzela espelhada. De cabelos soltos cruzados por um lenço descaído guarda viço e beleza de uma tenra idade. Um casaco de malha abotoado irregularmente aberto no espaço deixa antever um vestido de chita florido num antecipado corpo de mulher. Não muito longe, uma Dacha de madeira cuidadosamente esculpida, com as janelas coloridas de azul celeste, é tudo o que a memória enxerga, junto ao Lago Baikal. Fui tolhido naquele silêncio irrompido pelo gesto generoso daquela menina, quase mulher, oferecendo-me uma flor autóctone: íris da Sibéria. Poucas flores se podem comparar com a graça e beleza deste gesto arrancado da taiga siberiana. A paz induzida pelo corpo ondulante finalizado por pétalas de cor azul-violeta era semelhante ao perfume doce libertado, só interrompido pela brisa macia vinda do lago. Mas que formosura suportada por um talo melancólico. Foram raros os momentos que me catapultaram para a lucidez desejada. A taciturna criatura de olhar tímido provocava em mim um arrepio inebriante. Além do mais, nenhuma planta é mais bela e confiável quando colocada na mão de um homem. A Íris da Sibéria.


Lago Baikal, 1996