Luís Barreira
Nu sentado, 1984
pintura
acrílico s/tela
40X50 cm
Luís Barreira
Nu sentado, 1984
pintura
acrílico s/tela
40X50 cm
Cy Twombly, Proteus, 1984
Acrylic paint, color pencil, pencil on paper
Arte
Luís Barreira
untitled, 1984
London
série: entropia
Fotografia/Colagens
arquivo: SLIDE_2118, 1984
Luís Barreira
Atena
Atenas, Grécia, 1984
Fotografia/Colagem
Série: entropia
Do álbum familiar, David Carvalho (avô)
fotografia/artes plásticas
Há uma lápide — heróis aos combatentes da 1ª guerra mundial — junto ao Jardim da Carreira, em Vila Real.
Na pedra ficaram gravados alguns nomes. Na terra ficaram esquecidos milhares de outros.
Chamaram-lhes heróis.
O meu avô nunca quis esse nome.
Levava a guerra nos olhos e o silêncio na voz.
Combatera em França. Depois atravessara o Atlântico à procura de paz. Regressara do Brasil com terras, uma venda, uma casa, uma figueira enorme e um poço que fazia cantar a água.
Toda a aldeia lhe chamava simplesmente o Padrinho.
Eu chamava-lhe avô.
Enquanto os outros lhe pediam a bênção, eu dava-lhe um beijo.
Talvez por isso me tenha ensinado aquilo que nunca escreveu em livro algum.
Perguntei-lhe um dia se conhecera os homens cujos nomes estavam gravados na lápide.
Sorriu.
— Heróis…
E deixou que o silêncio acabasse a frase.
Depois pediu-me apenas:
— Descalça-te.
A água virá por este rego. Quando chegar, tira os pés antes que se molhem. Se o conseguires, serás um herói.
Aceitei o desafio.
Mas ele nunca mais falou da guerra.
Falou-me do alecrim.
Das brasas que ficam mais perfumadas.
Do chá que consola o estômago cansado.
Falou-me do loureiro.
Das coroas dos vencedores.
De Apolo, que perdeu Dafne e transformou a saudade em folhas eternas.
Sentámo-nos à sombra.
Vendaram-se-me os olhos.
E então ouvi.
O silêncio não era silêncio.
Era a água a cair no tanque.
Era o rego a procurar os milheirais.
Era o corvo a anunciar o vento.
Era o perfume do alecrim levado pela brisa.
Era o ranger da porta do palheiro.
Era o cuco respondendo aos sonhos de uma rapariga.
Era o rouxinol escondido na brenha, cantando sem querer ser visto.
Era o voo das andorinhas a rasgar o ar.
Era o mundo inteiro a respirar.
E eu, de olhos fechados, comecei finalmente a ver.
A água aproximava-se.
Esquecera-me do desafio.
Quando senti o frio subir pelos pés, já era tarde.
Molhara-me.
O meu avô sorriu.
Nunca me repreendeu.
Disse apenas:
— Sabes, meu neto… se eu tivesse morrido no campo de batalha, talvez hoje o meu nome estivesse gravado naquela pedra.
Chamavam-me herói.
Mas não estaria aqui…
…para te ensinar a ouvir os sons do silêncio.
1984, © LC Barreira
Em 1984 fiz os primeiros retratos marcado pela influência Dadaísta - Surrealista. Man Ray e Marcel Duchamp eram as minhas principais referências artísticas numa altura em que a manipulação da imagem passava, quase em exclusivo, pelo recorte e colagem da imagem. A Dama Dada e mais tarde a Daisy Dada foram ensaios fotográficos e plásticos realizados nos finais dos anos 80 e início dos anos 90 (nunca publicados) a génese de La Femme - surrèaliste, trabalho (re)começado em 2012.
Os novos instrumentos colocados à disposição da fotografia digital são agora assumidos distanciando o real do imaginário poético. Neste sentido, La Femme - surrèaliste aparece como um novo projecto fotográfico e plástico.