Sons do Silêncio

Do álbum familiar, David Carvalho (avô)fotografia/artes plásticassérie: album

Do álbum familiar, David Carvalho (avô)

fotografia/artes plásticas


Sons do Silêncio

 

 

Há uma lápide — heróis aos combatentes da 1ª guerra mundial — junto ao Jardim da Carreira, em Vila Real.

Na pedra ficaram gravados alguns nomes.
Na terra ficaram esquecidos milhares de outros.

Chamaram-lhes heróis.

O meu avô nunca quis esse nome.

Levava a guerra nos olhos e o silêncio na voz.

Combatera em França.
Depois atravessara o Atlântico à procura de paz.
Regressara do Brasil com terras, uma venda, uma casa, uma figueira enorme e um poço que fazia cantar a água.

Toda a aldeia lhe chamava simplesmente o Padrinho.

Eu chamava-lhe avô.

Enquanto os outros lhe pediam a bênção,
eu dava-lhe um beijo.

Talvez por isso me tenha ensinado aquilo que nunca escreveu em livro algum.

Perguntei-lhe um dia se conhecera os homens cujos nomes estavam gravados na lápide.

Sorriu.

— Heróis…

E deixou que o silêncio acabasse a frase.

Depois pediu-me apenas:

— Descalça-te.

A água virá por este rego.
Quando chegar, tira os pés antes que se molhem.
Se o conseguires, serás um herói.

Aceitei o desafio.

Mas ele nunca mais falou da guerra.

Falou-me do alecrim.

Das brasas que ficam mais perfumadas.

Do chá que consola o estômago cansado.

Falou-me do loureiro.

Das coroas dos vencedores.

De Apolo, que perdeu Dafne e transformou a saudade em folhas eternas.

Sentámo-nos à sombra.

Vendaram-se-me os olhos.

E então ouvi.

O silêncio não era silêncio.

Era a água a cair no tanque.

Era o rego a procurar os milheirais.

Era o corvo a anunciar o vento.

Era o perfume do alecrim levado pela brisa.

Era o ranger da porta do palheiro.

Era o cuco respondendo aos sonhos de uma rapariga.

Era o rouxinol escondido na brenha, cantando sem querer ser visto.

Era o voo das andorinhas a rasgar o ar.

Era o mundo inteiro a respirar.

E eu, de olhos fechados, comecei finalmente a ver.

A água aproximava-se.

Esquecera-me do desafio.

Quando senti o frio subir pelos pés, já era tarde.

Molhara-me.

O meu avô sorriu.

Nunca me repreendeu.

Disse apenas:

— Sabes, meu neto… se eu tivesse morrido no campo de batalha, talvez hoje o meu nome estivesse gravado naquela pedra.

Chamavam-me herói.

Mas não estaria aqui…

 

…para te ensinar a ouvir os sons do silêncio.

1984, © LC Barreira