Giotto - O Beijo de Judas

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6(pormenor)Fresco (200X185 cm)Capela de Scrovegni, Pádua

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6

(pormenor)

Fresco (200X185 cm)

Capela de Scrovegni, Pádua

O Beijo de Judas — o corpo da traição

Vem-me à memória a música de Casablanca:

 

A kiss is just a kiss

A sigh is just a sigh

The fundamental things apply

As time goes by.

 

Quando Ilsa Lund e Rick Blaine se reencontram, o beijo torna-se a memória física de uma paixão que o tempo não conseguiu apagar. O corpo guarda aquilo que a razão procura esquecer. O beijo aproxima, reconhece, deseja, promete.

Mas um beijo também pode mentir.

É precisamente essa ambiguidade que encontramos n’O Beijo de Judas, de Giotto.

A realidade e a ficção invadem o nosso imaginário ao ponto de, por vezes, ser difícil separar os homens das personagens. Talvez tenha sido sempre assim. Ao longo da História, o ser humano depositou nos deuses, nos heróis e nas personagens míticas as suas próprias angústias, os seus medos, os seus desejos e as suas contradições. Criou personagens para poder pensar a própria condição humana.

É neste território entre o humano e o divino que se encontra Judas.

Judas é simultaneamente homem e personagem. É aquele que trai e aquele que, dentro da narrativa cristã, desempenha uma função decisiva na consumação do destino de Cristo. A sua figura coloca-nos perante uma questão desconfortável: até que ponto somos responsáveis pelos actos que praticamos quando acreditamos estar a cumprir um destino que nos ultrapassa?

Giotto representa esse momento na Capela dos Scrovegni, em Pádua.

A cena bíblica é conhecida. Judas aproxima-se de Jesus e saúda-o com um beijo:

“Salvé, Mestre!” E beijou-o.

O gesto que deveria significar reconhecimento, afecto e proximidade transforma-se no sinal da traição.

O corpo diz uma coisa.

A intenção diz outra.

É nesta contradição que reside a extraordinária força da pintura.

O beijo é, talvez, um dos gestos mais íntimos que o corpo humano conhece. Aproxima dois rostos, elimina a distância, estabelece contacto. É uma linguagem sem palavras. No entanto, nas mãos de Judas, esse mesmo gesto transforma-se numa arma.

O corpo que deveria aproximar é utilizado para denunciar.

O afecto transforma-se em código.

A intimidade transforma-se em violência.

A proximidade transforma-se em prisão.

É por isso que o beijo de Judas é muito mais do que um episódio religioso. É uma reflexão sobre a própria linguagem do corpo.

Giotto compreende essa dimensão e concentra a tensão da composição no encontro entre os dois corpos. Judas envolve Jesus com o seu manto e aproxima o rosto do seu. Jesus permanece praticamente imóvel. Ao seu redor, porém, tudo é movimento: lanças, tochas, braços, armas, gestos e rostos.

No centro do tumulto, dois corpos encontram-se.

Judas toca Jesus.

E nesse contacto acontece a traição.

A multidão parece desaparecer perante a intensidade desse encontro. O olhar de Jesus e Judas estabelece uma relação que contrasta violentamente com a agitação dos homens que os rodeiam.

Jesus conhece o destino.

Judas conhece o gesto.

E nós conhecemos as consequências.

O céu nocturno, de um azul intenso, é atravessado pelas lanças, pelas tochas e pelos estandartes. A multidão transforma-se quase numa massa única, ameaçadora, que encerra os dois protagonistas.

No entanto, Giotto coloca no centro aquilo que nenhuma arma consegue representar: o contacto entre dois corpos.

É o corpo que denuncia.

É o corpo que ama.

É o corpo que engana.

É o corpo que sofre.

É o corpo que, sem pronunciar uma única palavra, revela a condição humana.

Ao lado, Pedro reage de forma oposta. Desembainha a espada e fere Malco, servo do sumo sacerdote. A violência responde à violência. Jesus, porém, interrompe esse movimento:

“Guarda a tua espada, pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.”

O contraste é absoluto.

Pedro responde com o corpo violento.

Judas responde com o corpo dissimulado.

Jesus responde com o corpo que aceita.

Três corpos.

Três atitudes perante o conflito.

Violência. Traição. Sacrifício.

É neste triângulo que Giotto constrói a tensão dramática da cena.

Jesus permanece sereno diante da multidão. Não tenta fugir. Não responde à violência com violência. O seu corpo torna-se, assim, o corpo da aceitação e do sacrifício.

Judas, pelo contrário, aproxima-se através de um gesto que deveria ser amoroso. O seu corpo torna-se o corpo da contradição.

E talvez seja precisamente aqui que a pintura ultrapassa a narrativa bíblica.

Porque quem é Judas?

Um traidor?

Um pecador?

Um homem fraco?

Um instrumento de um destino previamente determinado?

Ou simplesmente um homem confrontado com a sua própria finitude e incapaz de escapar às consequências das suas escolhas?

A pergunta permanece.

E talvez seja essa a grandeza da personagem.

Judas não nos interessa apenas porque traiu Jesus. Interessa-nos porque representa uma possibilidade demasiado humana: a possibilidade de o corpo dizer aquilo que a consciência nega.

O beijo promete proximidade, mas anuncia a separação.

O gesto parece amoroso, mas produz violência.

A intimidade converte-se em traição.

É justamente nesta fractura entre gesto e significado, entre corpo e intenção, que encontramos uma das dimensões fundamentais do corpo poiético.

O corpo não é apenas matéria.

O corpo é linguagem.

Produz signos, comunica emoções, constrói relações e pode até contradizer a palavra. O gesto corporal possui uma capacidade simbólica que ultrapassa aquilo que conscientemente pretendemos dizer.

O beijo de Judas é, por isso, um dos mais poderosos exemplos do corpo enquanto signo.

Mas há ainda uma última ironia.

Judas é tradicionalmente reconhecido pelo manto amarelo, cor que a tradição iconográfica ocidental associou frequentemente à traição e à falsidade. A personagem é marcada exteriormente pelo significado que a História lhe atribuiu.

Mas será que podemos reduzir Judas ao traidor?

Se o fizermos, eliminamos precisamente aquilo que torna a personagem humana: a contradição.

Porque o mesmo homem que trai é também aquele que se aproxima.

O mesmo corpo que denuncia é aquele que abraça.

O mesmo gesto que produz a morte tem a aparência de um gesto de amor.

E talvez seja precisamente por isso que, tantos séculos depois, continuamos a interrogar a pintura de Giotto.

Não apenas para saber quem traiu Jesus, mas para perguntar:

quantas vezes o nosso corpo diz aquilo que nós próprios não somos capazes de confessar?

É nessa pergunta que o corpo deixa de ser apenas representado e passa a pensar.

E é aí que ele se torna, verdadeiramente, corpo poiético.

Texto: 2002-2020 © Luís Carvalho Barreira

 
Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6Fresco (200X185 cm)Capela de Scrovegni, Pádua

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6

Fresco (200X185 cm)

Capela de Scrovegni, Pádua


[1] https://religion.wikia.org/wiki/Kiss_of_Judas

[2] “De acordo com os evangelhos Jesus foi preso pela guarda do Templo de Jerusalém, e foi levado diante de Caifás e outros, por quem foi acusado de blasfémia. Após considerá-lo culpado, o Sinédrio entregou-o ao governador romano Pôncio Pilatos, por quem Jesus também foi acusado de sedição contra Roma”. in Wikipedia

[3] Caifás, no Novo Testamento, foi o Sumo Sacerdote judaico apontado pelos romanos para o cargo entre os anos 18 e 37.