Saturnália

Saturno devorando o seu filho por Goya, 1819-23


Chegámos ao mês X (Dezembro) para os romanos[1]. Mês das festas saturnálias ou saturnais (17 a 23 de Dezembro), em honra de Saturno, deus da agricultura, que coincidia com o solstício do inverno. As colheitas já se fizeram. A prosperidade era dádiva divina. Era tempo de agradecer aos deuses — Saturno. Os dias mais curtos davam lugar à noite e aos festejos que envolviam toda comunidade romana. Baquetes públicos, orgias, encontros familiares, troca de presentes, jogos de sedução, tudo decorria numa atmosfera de alegria e de grande permissividade. Os excessos públicos, faziam parte de uma atmosfera quase anárquica — saturnália — onde os júbilos ganhavam importância social: segundo o poeta Catulo, “o melhor dos dias”. Era o momento mais esperado após um período agrícola inteiro decorrido. Até os escravos eram desobrigados das restrições habituais pelos senhores (pater famiglia) que os libertavam — num momento único em que era habitual inverter-se os papéis. Viva o Rex Saturnalis (rei imaginário) eleito numa inversão temporária das normas sociais.


[1] Março — Marte (Deus)

Abril — Aprilis (mês das flores. Festas da Venerália em honra de Vénus (Deusa).

Maio — Maia (Deusa)

Junho — Juno (Deusa)

Julho — Júlio César (Imperador)

Agosto — Augustos (Imperador)

Setembro — mês VII (sete)

Ourubro — mês VIII (oito)

Novembro — mês IX (nove)

Dezembro — mês X (dez)

Janeiro — Jano (Deus)

Fevereiro — Februus (Deus)

 

Brueghel, Pagamento de Impostos, 1616

'O Cobrador de Impostos'

Pieter Brueghel II, o Jovem ou do Inferno (1564-1637)

Flandres, 1616

Óleo sobre madeira de carvalho

Alt. 51,9 cm. x Larg. 83,7 cm.

Colecção Museu Medeiros e Almeida


O pintor flamengo Pieter Brueghel II recriou esta imagem dezenas de vezes com dimensões diferentes. É uma composição satírica datada de 1616, pensada para estigmatizar a pressão fiscal que os Países Baixos suportaram durante a ocupação espanhola.

«Nesta pintura, conhecida como “O Cobrador de Impostos”, “O Advogado dos Camponeses”, “O Advogado das más Causas” ou “O Escritório do Notário”, é mostrado o interior de um escritório com duas janelas, uma porta entreaberta, duas secretárias cheias de papéis e inúmeros sacos pendurados pelas paredes. À direita, por trás de uma das secretárias, um personagem sentado, de barba em bico, vestimenta escura e barrete – o advogado ou cobrador - analisa um documento, flanqueado por um homem em pé à esquerda e outro homem à direita que olha para um almanaque pendurado na parede. Do outro lado da secretária uma fila de pessoas – seis homens e uma mulher-, em atitude humilde, carregando cestos e sacos com géneros para fazer o pagamento dos seus impostos, esperam a sua vez para ser atendidos. No fundo do escritório, junto da porta, um escriturário escreve alheio à confusão e à desordem dominante.

A temática:

Esta composição insere-se nda tradição da caricatura europeia, não só na forma e na narrativa quase teatral, como também na temática. O tema abordado - o pagamento de impostos ou o escritório do advogado - era relativamente frequente e popular na Flandres do século XVII, resultando de uma sociedade em que a actividade financeira se tinha desenvolvido muito rapidamente.

O facto da figura principal ter uma certa semelhança com um espanhol fez com que esta obra tenha sido identificada como uma crítica às condições sufocantes que o povo dos Países Baixos suportou durante a ocupação filipina. Porém, norma geral, estas pinturas não aludiam a personagens concretos, funcionando como reflexo da sociedade, constituindo-se sim como sátiras da avareza e corrupção dos homens de leis e da sua relação com o poder.

São vários os autores que, baseando-se na paleta de cor e em alguns pormenores – nomeadamente nas vestimentas das personagens e no facto de o almanaque à direita do quadro estar escrito em francês (não esquecendo que naquela altura o francês era a língua erudita na Flandres) -, sugerem que esta obra surgirá a partir de um protótipo francês desconhecido, havendo também a leitura de que este exemplar específico poderá ser originário de um encomendante francês. O certo é que, independentemente da fonte de inspiração, este será um dos temas inventados pelo próprio Pieter Brueghel o Novo e não, como muitas das suas outras criações, resultado de cópias de obras do seu pai, Pieter Brueghel o Velho.                                                                                                                      

Conhecem-se 91 cópias desta pintura (relação feita pelo historiador Georges Marlier em 1969) realizadas entre 1615 e 1630, muitas delas saídas do próprio atelier de Pieter Brueghel II e outras realizadas pelo seu filho Pieter Brueghel III, que diferem apenas em pormenores; esta multiplicação que resulta chocante hoje em dia, onde a exclusividade e a originalidade são qualidades per se, não era em absoluto inusual na altura, onde a reprodução de composições célebres era bem aceite sendo uma forma de responder à grande demanda por parte da burguesia em relação a certas obras que se tornaram populares.

A maioria destas cópias são de um formato similar, próximo dos 55cm x 88cm, como é o caso do exemplar da Casa-Museu, dado que eram realizadas pela técnica de trespasse conhecida como 'punção'; porém existem alguns exemplos de maiores dimensões, à volta dos 79 cm x 126 cm. Esta produção a grande escala dá fé da popularidade do tema, chegando a abrir-se já em 1618 uma gravura, divulgada pelo livreiro Paulus Fürst de Nuremberga, e que foi inclusivé usada como modelo para ilustrar panfletos atacando a corrupção dos advogados. Outros autores também continuaram este tópico, como Pieter de Bloot que, em 1628 pintará um quadro com o título “O Escritório do Advogado” – hoje no Rijksmuseum de Amsterdão – com uma inscrição satírica alusiva aos homens de leis.

  

O autor:

Pieter Brueghel II (1564-1636), também conhecido como Pieter Brueghel o Novo para diferenciá-lo do seu pai, ou Pieter Brueghel do Inferno (esta última denominação tem sido discutida por alguns autores que não encontram sustento para a sua atribuição), provém de uma família de pintores sendo filho mais velho de Pieter Brueghel o Velho (1525/1530-1569) e irmão de Jan Brueghel (1568 – 1625). O seu filho, Pieter Brueghel III continuará também a tradição familiar.

Aos cinco anos de idade fica órfão de pai e aos 14 anos perde também a mãe. Ele e os irmãos Jan e Marie irão viver com a avó paterna Marie Verhulst de Bessemers, viúva do artista Pieter Coecke van Aelst (d’Alost). Sendo ela própria pintora miniaturista, vai ser a primeira professora dos irmãos Brueghel - Jan irá especializar-se em pintura de pequena escala (veja-se a obra ‘A Paragem’ pertencente à Casa-Museu). Mais tarde Pieter entrará como aprendiz no atelier de Gillis van Coninxloo (1544-1607), em 1585 aparece já registado como membro da Guilda de São Lucas e pouco depois casará com Elisabeth Goddelet, com quem tem sete filhos.  

Pieter, ao contrário de seu irmão, nunca sairá dos Países Baixos e, embora não tenha aprendido o ofício com o seu pai, dedicará grande parte da sua carreira a fazer cópias das obras deste no seu atelier, às que juntará algumas composições próprias - nomeadamente paisagens, temas religiosos e pinturas fantasiosas - entre as quais a mais conhecida será “O Cobrador de Impostos”.

Mesmo que sempre se fale de Pieter Brueghel como o “pobre” da família em comparação com seu irmão Jan, a verdade é que, apesar de ter atravessado algumas dificuldades económicas, dirigiu um próspero atelier que recebia numerosas encomendas e no qual trabalhavam vários artistas, como testemunha a grande quantidade de obras nele produzidas.»

Proveniência:

Pertenceu à colecção dos Condes de Lafon, Borgonha (Christian Charles Louis, 1853-1934)

Anunciado na revista Art & Curiosité, de Junho-Julho-Agosto de 1971.

Adquirido a J. O. Leegenhoek Tableaux - 96, Av. Kléber, Paris - em Junho de 1971, por FFR 120.000. Nessa altura será feita a moldura, a tartaruga, oferta do vendedor a Medeiros e Almeida.


Samantha Coleman-Aller


Casa-Museu Medeiros e Almeida

 FONTE: http://www.casa-museumedeirosealmeida.pt/




Bibliografia:

BENEZIT, E., Dictionnaire critique et documentaire des Peintres, Sculpteurs, Dessinateurs et Graveurs, Librairie Gründ, France,  1961, vol. 2, p.171

FRANCO, Anísio, Realidade e Capricho. A pintura Flamenga e Holandesa da Fundação Medeiros e Almeida, Fundação Medeiros e Almeida, Lisboa, 2008

MARLIER, Georges, Pierre Brueghel Le Jeune, Editions Robert Finck, Brussels, 1969

Artigos:

ART & CURIOSITÉ, Junho-Julho-Agosto, Paris, 1971, p.41

CONNAISSANCE DES ARTS, Fevereiro, 1968, pp.94 a 100 e 105

LE FIGARO MAGAZINE, ‘Les Bruegel. Tel père tel fils’, 23 Março 2002, pp.62-67

Diogo Teixeira, Incredulidade de S. Tomé, 1595

Diogo Teixeira, Incredulidade de S. Tomé, 1595

óleo sobre tábua, finais do século XVI

Museu de Arte Sacra do Mosteiro de Arouca


A teatralização da pose, a robustez anatómica do corpo, as tonalidades simultaneamente ácidas e baças e a atmosfera sombria, onde a luz faz emergir a figura central para o primeiro plano, constituem alguns dos elementos através dos quais se afirma o perfil espiritualista e metafísico do Maneirismo contra-reformista português.

Nesta pintura, contudo, Cristo já não é o corpo exangue, frágil ou esquelético de certas representações medievais. A imagem da Ressurreição exige agora um corpo transformado: não simplesmente um corpo que venceu a morte, mas um corpo glorioso, íntegro, vigoroso e fisicamente credível. A humanidade de Cristo torna-se visível na sua corporeidade.

É precisamente nessa tensão entre o divino e o humano que reside uma das dimensões mais significativas da obra.

O tratamento cuidado dos tecidos, através de uma modelação que lhes confere densidade e volume, demonstra o interesse do pintor pela dimensão material das coisas. As superfícies são construídas de modo a adquirir presença quase táctil, enquanto a iluminação modela os volumes e organiza a hierarquia visual da composição.

Existe, simultaneamente, uma liberdade criativa que permite conferir às figuras principais um protagonismo inequívoco. As personagens que se dispõem em segundo plano não desaparecem da narrativa; pelo contrário, contribuem para acentuar a tensão dramática do episódio e funcionam como uma espécie de contraponto colectivo à atitude céptica e expectante de São Tomé.

O centro psicológico da composição encontra-se precisamente no encontro entre Cristo e o apóstolo.

A elegância da modelação anatómica, articulada através de uma cuidadosa harmonização luminosa, transforma o corpo de Cristo num corpo simultaneamente transcendente e palpável. A Ressurreição deixa de ser apenas um acontecimento que se acredita para se converter numa realidade que quase se pode tocar.

Cristo segura vigorosamente a mão de São Tomé e conduz os dedos do apóstolo até à ferida. O gesto é de uma extraordinária eficácia narrativa: torna verosímil aquilo que, pela sua própria natureza, pertence ao domínio do sobrenatural.

Ver para crer.

A incredulidade de São Tomé torna-se, assim, o próprio mecanismo através do qual a pintura procura convencer o espectador. O apóstolo precisa de tocar para acreditar; o observador, perante a materialidade do corpo representado, é convidado a acreditar através daquilo que vê.

Diogo Teixeira recorreu, nesta composição, a uma fonte gravada de Albrecht Dürer, inscrevendo a obra numa tradição de circulação de modelos e imagens que era fundamental para a cultura artística europeia dos séculos XVI e XVII. A fortuna desta composição é igualmente revelada pelas várias réplicas e versões que dela foram realizadas posteriormente, testemunhando a sua aceitação e difusão.

 

O corpo na cultura da Contra-Reforma

 

A transformação do corpo de Cristo não pode ser dissociada das profundas alterações ocorridas na cultura visual europeia após o Concílio de Trento.

A imagem religiosa adquiriu então uma função pedagógica e devocional particularmente importante. Não bastava representar correctamente os conteúdos da fé: era necessário produzir imagens capazes de instruir, comover e orientar espiritualmente o fiel, evitando simultaneamente aquilo que pudesse ser entendido como indecoroso, ambíguo ou susceptível de provocar erro.

As constituições sinodais dos diferentes bispados, amplamente difundidas no período pós-tridentino, contribuíram para regulamentar a produção e o uso das imagens religiosas. Procurava-se evitar representações consideradas inadequadas, nomeadamente as chamadas “imagens de formosura dissoluta”, ou aquelas que pudessem dar ao povo “ocasião de erro, ou escândalo”.

A representação do corpo passou, por isso, a situar-se num território particularmente delicado.

O corpo de Cristo tinha de ser suficientemente humano para tornar credível a Encarnação e a Paixão, mas suficientemente ordenado e dignificado para manifestar a sua natureza divina. A sensualidade não poderia sobrepor-se à devoção; a beleza deveria estar subordinada à verdade religiosa.

É nesta tensão que podemos compreender a nova centralidade do corpo na pintura religiosa portuguesa do final do século XVI.

 

Do corpo flagelado ao corpo ressuscitado

 

A representação de Cristo constitui uma das mais complexas questões da iconografia cristã. O corpo sofredor, ferido e flagelado da Paixão coexistia com a necessidade de representar o corpo ressuscitado como manifestação da vitória sobre a morte.

O que se altera não é apenas a aparência física de Cristo, mas a própria concepção do corpo como veículo de uma verdade teológica.

O corpo deixa de ser apenas o lugar da dor e da mortificação para se tornar também o lugar da Encarnação, da Ressurreição e da manifestação visível do Logos.

A matéria corporal, longe de ser negada, passa a funcionar como instrumento de afirmação da fé.

Na Incredulidade de São Tomé, esta questão adquire uma expressão particularmente poderosa: a ferida que o apóstolo toca é simultaneamente prova física da morte e sinal da vitória sobre ela. A chaga permanece, mas o corpo já não pertence ao domínio da corrupção.

É um corpo que conserva a memória do sofrimento sem permanecer submetido a ele.

 

O corpo elegíaco

 

A expressão “corpo elegíaco” pode, neste contexto, ser entendida como uma chave interpretativa para a cultura visual da Contra-Reforma: um corpo que transporta simultaneamente a memória da dor, a dignidade do sacrifício e a promessa da redenção.

Não se trata, portanto, simplesmente de um novo ideal anatómico.

A robustez física de Cristo possui uma função teológica. O corpo atlético, vigoroso e perfeitamente modelado não procura apenas satisfazer uma preocupação estética; pretende tornar visível a realidade da Ressurreição.

A matéria é chamada a testemunhar o espírito.

Neste sentido, a pintura de Diogo Teixeira encontra-se num momento particularmente significativo da arte portuguesa: aquele em que a tradição maneirista, com as suas figuras alongadas, os seus espaços comprimidos, as atmosferas densas e a sua forte carga espiritual, começa a incorporar uma atenção renovada à corporeidade e à eficácia sensorial da imagem.

O resultado é uma pintura simultaneamente disciplinada e teatral, devocional e sensorial.

O corpo de Cristo não é apenas representado: é apresentado como prova.

E é precisamente aí que reside a extraordinária eficácia desta Incredulidade de São Tomé: perante o olhar desconfiado do apóstolo, a pintura transforma a imagem em argumento.

São Tomé quer tocar para acreditar.

O espectador olha para acreditar.

E a arte, entre a fé e a matéria, procura tornar visível aquilo que, por definição, pertence ao invisível.



1998 © texto de Luís Carvalho Barreira


[1] É sabido da grande importância das gravuras e a obra de Dürer teve na pintura em geral e na portuguesa em particular. As gravuras funcionavam para os pintores e escultores como os tratados de arquitectura para os arquitectos. E se o tratado do Vitrúvio foi “bíblia clássica” para os novos tratadistas (Alberti, Bramante, Sebastião Serlio, Vignola, Palladio, Scamozi, Pietro Cataneo, etc.) tornando bem claro os cânones clássicos que a arquitectura havia de obedecer; ordem, simetria, proporção, forma, para a arte portuguesa regia-se pelo dogma religioso.

[2] O corpo, essa «forma, segundo José Fernandes Pereira, essa incontornável presença do mundo e da condição humana, era um marco disperso pela terra como ordem e sinal, sendo do domínio da arte. A beleza era outra coisa, pressupunha a eliminação da Multiplicidade e a relação ao Uno incorpóreo, fonte do nosso desejo que o despojamento e o amor permitem alcançar». in Vieira Lusitano 1699-1783, o desenho, Catálogo, Ministério da Cultura, Museu de Arte Antiga, Lisboa, 2000, pp.14-15.

[3] O grande teólogo Hugues de Saint-Victor acrescentaria ainda: «se o acasalamento dos pais não puder ser feito sem desejo carnal, a concepção dos filhos não se faz sem pecado». Citado por Georges Duby, Amor e sexualidade no Ocidente, p.200.

[4] Flávio Gonçalves, A legislação sinodal portuguesa da Contra-Reforma e a Arte Religiosa, in Comércio do Porto, Fevereiro, 1960.

[5] A representação figurativa do corpo, na arte portuguesa, limitava-se, salvo raras excepções, a veicular dor, sofrimento, martírio, compaixão. Este corpo elegíaco fará escola no romantismo português.

Giotto - O Beijo de Judas

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6(pormenor)Fresco (200X185 cm)Capela de Scrovegni, Pádua

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6

(pormenor)

Fresco (200X185 cm)

Capela de Scrovegni, Pádua

O Beijo de Judas — o corpo da traição

Vem-me à memória a música de Casablanca:

 

A kiss is just a kiss

A sigh is just a sigh

The fundamental things apply

As time goes by.

 

Quando Ilsa Lund e Rick Blaine se reencontram, o beijo torna-se a memória física de uma paixão que o tempo não conseguiu apagar. O corpo guarda aquilo que a razão procura esquecer. O beijo aproxima, reconhece, deseja, promete.

Mas um beijo também pode mentir.

É precisamente essa ambiguidade que encontramos n’O Beijo de Judas, de Giotto.

A realidade e a ficção invadem o nosso imaginário ao ponto de, por vezes, ser difícil separar os homens das personagens. Talvez tenha sido sempre assim. Ao longo da História, o ser humano depositou nos deuses, nos heróis e nas personagens míticas as suas próprias angústias, os seus medos, os seus desejos e as suas contradições. Criou personagens para poder pensar a própria condição humana.

É neste território entre o humano e o divino que se encontra Judas.

Judas é simultaneamente homem e personagem. É aquele que trai e aquele que, dentro da narrativa cristã, desempenha uma função decisiva na consumação do destino de Cristo. A sua figura coloca-nos perante uma questão desconfortável: até que ponto somos responsáveis pelos actos que praticamos quando acreditamos estar a cumprir um destino que nos ultrapassa?

Giotto representa esse momento na Capela dos Scrovegni, em Pádua.

A cena bíblica é conhecida. Judas aproxima-se de Jesus e saúda-o com um beijo:

“Salvé, Mestre!” E beijou-o.

O gesto que deveria significar reconhecimento, afecto e proximidade transforma-se no sinal da traição.

O corpo diz uma coisa.

A intenção diz outra.

É nesta contradição que reside a extraordinária força da pintura.

O beijo é, talvez, um dos gestos mais íntimos que o corpo humano conhece. Aproxima dois rostos, elimina a distância, estabelece contacto. É uma linguagem sem palavras. No entanto, nas mãos de Judas, esse mesmo gesto transforma-se numa arma.

O corpo que deveria aproximar é utilizado para denunciar.

O afecto transforma-se em código.

A intimidade transforma-se em violência.

A proximidade transforma-se em prisão.

É por isso que o beijo de Judas é muito mais do que um episódio religioso. É uma reflexão sobre a própria linguagem do corpo.

Giotto compreende essa dimensão e concentra a tensão da composição no encontro entre os dois corpos. Judas envolve Jesus com o seu manto e aproxima o rosto do seu. Jesus permanece praticamente imóvel. Ao seu redor, porém, tudo é movimento: lanças, tochas, braços, armas, gestos e rostos.

No centro do tumulto, dois corpos encontram-se.

Judas toca Jesus.

E nesse contacto acontece a traição.

A multidão parece desaparecer perante a intensidade desse encontro. O olhar de Jesus e Judas estabelece uma relação que contrasta violentamente com a agitação dos homens que os rodeiam.

Jesus conhece o destino.

Judas conhece o gesto.

E nós conhecemos as consequências.

O céu nocturno, de um azul intenso, é atravessado pelas lanças, pelas tochas e pelos estandartes. A multidão transforma-se quase numa massa única, ameaçadora, que encerra os dois protagonistas.

No entanto, Giotto coloca no centro aquilo que nenhuma arma consegue representar: o contacto entre dois corpos.

É o corpo que denuncia.

É o corpo que ama.

É o corpo que engana.

É o corpo que sofre.

É o corpo que, sem pronunciar uma única palavra, revela a condição humana.

Ao lado, Pedro reage de forma oposta. Desembainha a espada e fere Malco, servo do sumo sacerdote. A violência responde à violência. Jesus, porém, interrompe esse movimento:

“Guarda a tua espada, pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.”

O contraste é absoluto.

Pedro responde com o corpo violento.

Judas responde com o corpo dissimulado.

Jesus responde com o corpo que aceita.

Três corpos.

Três atitudes perante o conflito.

Violência. Traição. Sacrifício.

É neste triângulo que Giotto constrói a tensão dramática da cena.

Jesus permanece sereno diante da multidão. Não tenta fugir. Não responde à violência com violência. O seu corpo torna-se, assim, o corpo da aceitação e do sacrifício.

Judas, pelo contrário, aproxima-se através de um gesto que deveria ser amoroso. O seu corpo torna-se o corpo da contradição.

E talvez seja precisamente aqui que a pintura ultrapassa a narrativa bíblica.

Porque quem é Judas?

Um traidor?

Um pecador?

Um homem fraco?

Um instrumento de um destino previamente determinado?

Ou simplesmente um homem confrontado com a sua própria finitude e incapaz de escapar às consequências das suas escolhas?

A pergunta permanece.

E talvez seja essa a grandeza da personagem.

Judas não nos interessa apenas porque traiu Jesus. Interessa-nos porque representa uma possibilidade demasiado humana: a possibilidade de o corpo dizer aquilo que a consciência nega.

O beijo promete proximidade, mas anuncia a separação.

O gesto parece amoroso, mas produz violência.

A intimidade converte-se em traição.

É justamente nesta fractura entre gesto e significado, entre corpo e intenção, que encontramos uma das dimensões fundamentais do corpo poiético.

O corpo não é apenas matéria.

O corpo é linguagem.

Produz signos, comunica emoções, constrói relações e pode até contradizer a palavra. O gesto corporal possui uma capacidade simbólica que ultrapassa aquilo que conscientemente pretendemos dizer.

O beijo de Judas é, por isso, um dos mais poderosos exemplos do corpo enquanto signo.

Mas há ainda uma última ironia.

Judas é tradicionalmente reconhecido pelo manto amarelo, cor que a tradição iconográfica ocidental associou frequentemente à traição e à falsidade. A personagem é marcada exteriormente pelo significado que a História lhe atribuiu.

Mas será que podemos reduzir Judas ao traidor?

Se o fizermos, eliminamos precisamente aquilo que torna a personagem humana: a contradição.

Porque o mesmo homem que trai é também aquele que se aproxima.

O mesmo corpo que denuncia é aquele que abraça.

O mesmo gesto que produz a morte tem a aparência de um gesto de amor.

E talvez seja precisamente por isso que, tantos séculos depois, continuamos a interrogar a pintura de Giotto.

Não apenas para saber quem traiu Jesus, mas para perguntar:

quantas vezes o nosso corpo diz aquilo que nós próprios não somos capazes de confessar?

É nessa pergunta que o corpo deixa de ser apenas representado e passa a pensar.

E é aí que ele se torna, verdadeiramente, corpo poiético.

Texto: 2002-2020 © Luís Carvalho Barreira

 
Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6Fresco (200X185 cm)Capela de Scrovegni, Pádua

Giotto, O Beijo de Judas, 1304-6

Fresco (200X185 cm)

Capela de Scrovegni, Pádua


[1] https://religion.wikia.org/wiki/Kiss_of_Judas

[2] “De acordo com os evangelhos Jesus foi preso pela guarda do Templo de Jerusalém, e foi levado diante de Caifás e outros, por quem foi acusado de blasfémia. Após considerá-lo culpado, o Sinédrio entregou-o ao governador romano Pôncio Pilatos, por quem Jesus também foi acusado de sedição contra Roma”. in Wikipedia

[3] Caifás, no Novo Testamento, foi o Sumo Sacerdote judaico apontado pelos romanos para o cargo entre os anos 18 e 37.

William Turner, "Death on a pale horse", c.1825-30

William Turner, Death on a pale horse (?), c.1825-30

William Turner, Death on a pale horse (?), c.1825-30

Cavalgar em memórias revoltas.

No início da carreira artística, William Turner (1775-1851), pintou pitorescas paisagens inglesas arrecadando elogios dos seus comissários galeristas e coleccionadores de arte. A pintura e o sucesso artístico de Turner só tinham paralelo com as obras do seu contemporâneo John Constable (1776-1837): os grandes pintores românticos do Reino Unido. E, nas palavras de Simon Schama[1], “Turner é, acima de tudo, um dramaturgo da luz, o mais estupendo que a Inglaterra produziu”. Turner é, sem dúvida, um dos grandes pintores do século XIX, período de grandes transformações sociais e culturais. O romantismo brotou da interacção do indivíduo com a natureza, e com a sua natureza, como forma de expressão artística. A arte romântica testou os limites do eu, exacerbando-o. Ao mesmo tempo foi sondado o lado mais oculto do ser humano tornando-o mais evidente: o carácter, os sentimentos, a dor e a penosa existência do Ser. Esta vertente egocêntrica dos românticos levá-los-á a enveredar por caminhos solitários e sombrios: no refúgio contemplativo de, Caminhando sobre o mar de névoa (1818) de Caspar Friedrich; na complacência melancólica e soturna da música Robert Schumann (Traumerei Op. 15); na desilusão do ideal revolucionário na obra Guerra e Paz de Leo Tolstoy,  pelo Pierre Bezukhov inicialmente um adepto fervoroso dos ideais saídos da Revolução francesa[2]; nos horrores da guerra, de que Goya retrata com veemência as atrocidades em O Fuzilamento de 3 de Maio (1808); nas causas políticas d’ A Liberdade guiando o povo (1830) de Delacroix; no “morrer por amor”, recuperado do  medievalismo de Tristão e Isolda (ópera em três actos, 1865) de Richard Wagner; no assombro da natureza Entre as montanhas de Sierra Nevada, 1868 de Albert Bierstadt; no lânguido e doentio perfil romântico de O Pesadelo (1790-91) de Johan Heinrich Füssli; no simbolismo mórbido e extremado da Ilha dos Mortos, 1880, de Arnold Böcklin. Em suma, na dispersão do carácter individual constituindo-se como a principal leitmotiv da faculdade de espanto: o sublime. É nestas forças poderosas da natureza romântica que o sublime, podendo ser uma mescla de assombro, horror e deleite, se estabelece “na racionalidade necessária entre os homens e na certeza assustadora da morte[3]”. A Morte será, talvez, o tema mais perseguido pelos românticos: eles morrem erraticamente por causas. 

E é em Turner, na pintura em apreço, que a morte assume o ideal romântico com maior acuidade e originalidade. A morte apresenta-se como uma obra aberta, derrotada, inacabada, literalmente inacabada... em William Turner. Mas, o que terá levado Turner a pintar este quadro? O tema é seguramente a Morte. Supõe-se que terá sido pintado entre 1825 e 1830, período em que se sucederam vários infortúnios na vida do artista: a doença da mãe, internada num hospício, a morte do amigo Walter Fawkes, em 1825, e quatro anos mais tarde, em 1829, a morte do pai e, para completar o seu estado anímico, o facto do seu estado de saúde se ter agravado, recorrendo a “estramonina, substância narcótica extraída do estramónio, que excitava ainda mais sua imaginação sempre hiperactiva[4]”. Todos estes acontecimentos poderão ter concorrido para que Turner pintasse este quadro, que não está assinado, nem datado! O próprio título pelo qual é uma presunção a posteriori. Ao longo do tempo assistimos à transformação de um Turner figurativo, com preocupação pelos detalhes, para algo completamente diferente, uma pintura difusa a explorar cada vez mais a plasticidade, i.e., valorizando os materiais e a maneira como eles são utilizados.

De todas as pinturas observadas na Tate Gallery, em Londres (1988), este quadro foi o que mais nos impressionou. Não tanto pelo formalismo representativo, mas pela descontinuidade técnica e pictórica. Turner utilizava, normalmente, tinta a óleo, em camadas sucessivas dando corpo à pintura, em várias demãos, rasgando o espaço cromático em sulcos provocados pelas rápidas pinceladas. A utilização de outros materiais e ferramentas, como a espátula, ou mesmo recorrendo às unhas (ele tinha orgulho em mostrar as unhas encardidas cheias de tinta), adensam a tensão corpórea tornando a pintura pastosa, porém, luminosa e vibrante. À medida que o uso de cores quentes, nomeadamente os vermelhos, os ocres e os amarelos, ganham maior acuidade [nesta série de trabalhos] o seu carácter irascível é introduzido com agressividade nas suas telas, tornando-as cada vez mais ambiciosas e visionárias[5]. Nesta pintura apresenta um esboço de um cavalo sugerido pelas diversas velaturas finas e transparentes. A outra figura, um esqueleto, deitada no dorso do cavalo apresenta maior detalhe no desenho, podendo ser identificado como a Morte, o último dos quatro Cavaleiros do Apocalipse! Formalmente a composição ocupa praticamente a primeira parte superior do quadro deixando a outra metade num vazio [pouco compreensível a nível formal e estético], quiçá, ainda à procura de um fim. Adensado por uma paleta de cores muito próxima e pela anulação do detalhe [desenho] das figuras, reforça o efeito misterioso e terrífico, ao mesmo tempo. A morte, saída de uma atmosfera encoberta [utilizando uma mancha preta; forma recorrente para aglutinar a composição] encontra-se prostrada e de mãos caídas. Aparece aqui derrotada, caindo do dorso do cavalo como se fosse um fantasma. É uma luta entre a Morte e o artista. E quis o destino que este quadro não passasse de um esboço, de um transcendente borrão, conferindo-lhe contemporaneidade.

É uma sublime obra inacabada!


Texto: 1988-2020 © Luís Carvalho Barreira


 [1] O Poder da Arte, Companhia das Letras, São Paulo, 2010. pág. 288.

[2] Outros exemplos: na 5ª sinfonia, hino à alegria, de Ludwig van Beethoven que inicialmente a dedicou a Napoleão Bonaparte, inscrevendo seu nome na partitura e posteriormente rasurada, assim como na destruição do busto do imperador num acto de fúria; e, por fim, na obra de um ilustre pintor português, Domingos Sequeira (1768-1837), que foi, sucessivamente, partidário da invasão francesa pintando uma alegoria, Junot defendendo a cidade de Lisboa (1808), da aliança inglesa (Apoteose de Wellington, 1811), da revolução liberal (retratos de 33 deputados, 1821) e da Carta Constitucional (D. Pedro IV e Maria II, 1825). Uma época conturbada socialmente fazendo com que os desenhos das nações se fundamentassem por vínculos ao passado distante, medieval, como forma de legitimação das nações: os nacionalismos. 

[3] Schopenhauer, 1788-1860, p.59

[4] O Poder da Arte, Companhia das Letras, São Paulo, 2010. pág. 288.

[5] “Certa vez, sir George Beaumont o criticou por inaugurar “a escola branca”. Agora dizia-se que ele era vítima da “febre amarela”, caso de Mortlake Terrace (1827), paisagem sobre o Tamisa envolta numa luz dourada”. in O Poder da Arte, pág. 301.



Pandemias e outros males...

Médico do séc. XVIICharles de Lorme concebeu o traje para os médicos que lidavam com doenças infecciosas ou pestes.

Médico do séc. XVII

Charles de Lorme concebeu o traje para os médicos que lidavam com doenças infecciosas ou pestes.

Das boas práticas que Portugal falece* para enfrentarmos a pandemia do coronavírus e outros males contagiosos.  Estamos sob a ameaça viral transformada já em pandemia. O receio toma conta de nós. A ignorância contagia-nos. E o medo diz-nos para ficar em casa; por favor não sai de casa.

No séc. XIV, no grande surto da Peste Negra (1348), o médico pessoal do Papa Clemente VI, Guy de Chauliac, aconselhou-o a ter uma dieta saudável, quiçá fazer uma sangria se for necessário, e alimentar permanentemente a fogueira do seu quarto para afastar os maus cheiros. O dedicado médico, autor de Chirurgia Magna (1363), documento válido até ao séc. XVII, travou uma luta em duas frentes: a primeira, contra o obscurantismo dominante da sociedade referente à origem de tal enfermidade, atribuindo aos judeus o envenenamento dos poços e de serem hereges; a segunda, contra o surto epidémico, uma desgraça divina, pelo qual ele haveria de padecer. As pragas eram consideradas castigo divino e os escolhidos acarretavam o peso de pecaminosos. O povo em comunhão organizou-se e a receita não tardou em aparecer junto às piras redentoras. Assistem à queima dos judeus[1] e glorificam os benefícios do cilício no flagelo dos pecadores. Ganha força a ideia da auto-flagelação dentro de algumas comunidades cristãs: os Flagelantes[2]. Se a ordem social parece assegurada, o papel do médico tinha como principal tarefa, para além de cuidar das vítimas da peste, o de fazer o registo público das mortes. Segundo Byfield, também davam conselhos aos pacientes sobre a sua conduta antes da morte. E a pedido do moribundo, o médico podia recorrer ao bastão e ou à chibata para flagelar o corpo agonizante numa forma de expiação dos pecados terrenos.  Contudo, outros médicos, com práticas menos ortodoxas, cuidavam dos seus pacientes administrando-lhes alguns medicamentos, mezinhas, assim como colocavam rãs ou sanguessugas nas línguas para “reequilibrar os humores” (citando Byfield). Assim, ao longo de vários séculos as práticas médicas não se alteraram muito. No séc. XVI, Nostradamus defendia que os infectados deveriam permanecer de quarentena e os restantes deveriam apanhar ar fresco. Beber água potável (tomar um sumo de rosa mosqueta[3], para os mais afortunados) era fundamental. Os cadáveres deveriam ser removidos, enterrados e polvilhados (queimados) com cal. O médico não era um feiticeiro, nem a bruxa que tudo curava. A figura do médico ganha uma dimensão terrífica que ainda hoje permanece no nosso imaginário. Para tal a indumentária inventada por Charles de Lorme, séc. XVII, tornou-se essencial no combate à peste negra e popular no fantástico colectivo. Para aqueles que se lembram da figura do pai de Mozart, no filme Amadeus, aquela figura altiva, empunhando um bastão, que a dada altura aparece envolta de manto negro encerado, chapéu de abas largas, de máscara com aberturas deixando os olhos a descoberto e um enorme bico onde, supostamente, era colocado palha embebida com algumas essências perfumadas para o proteger do ar miasmático, não é mais do que uma espécie de pronúncio da morte; é a imagem do médico que mais não faz do que sentenciar a morte.

Amadeus de Milos Forman, 1985

Amadeus de Milos Forman, 1985

texto, 2020 © Luís Carvalho Barreira



[*] Falece. Termo utilizado por Francisco de Holanda: Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa (1571).

[1] Judeus queimados vivos Crónica de Nuremberg, 1493.

[2] Os Flagelantes tinham de respeitar um ritual que constava de: viajar de terra em terra durante 33 dias; autoflagelar-se na praça pública; orar a Deus; viver da caridade; vestir o uniforme dos Flagelantes que consistia numa longa túnica negra com um capuz e andar descalço. in wikipedia

[3] “Óleo de rosa mosqueta ou rosa rubiginosa, como é chamada cientificamente, é de origem oriental e nasce em clima frio e chuvoso. A extração do óleo é feita com auxílio de uma prensa e sua composição é rica em ácidos gordos insaturados como: ácido oleico e linoleico. Oferece diversos benefícios terapêuticos para a pele. Possui também vitamina A e C”. (ver: wikipedia)

Barrete Frígio

14 JULHO

Barrete Frígio da Revolução Francesa

Barrete Frígio da Revolução Francesa

O barrete frígio: cortar o nó górdio

 

O barrete frígio: cortar o nó górdio

 

O barrete frígio, que viria a transformar-se num dos mais poderosos símbolos da Revolução Francesa de 1789, transporta consigo uma história muito mais antiga do que a própria ideia de revolução. A sua origem remete-nos para a Frígia, região da Ásia Menor, povoada por histórias, mitos e personagens lendárias que a tradição clássica haveria de perpetuar.

É precisamente dessa região que nos chegam três figuras emblemáticas: Górdio, Midas e Migdão. Górdio, um simples camponês, tornou-se rei graças a uma profecia; Midas, seu filho, ficou célebre pelo extraordinário poder de transformar em ouro tudo aquilo em que tocava; e Migdão surge nas narrativas míticas associado aos conflitos entre os frígios e as amazonas. Entre estas personagens, porém, é Górdio quem nos oferece uma das metáforas mais persistentes da cultura ocidental: o nó górdio.

Conta a tradição que, depois da morte do rei da Frígia sem deixar descendência, o oráculo anunciou que o próximo soberano seria aquele que chegasse à cidade num carro de bois. A profecia cumpriu-se através de Górdio, um camponês que, inesperadamente, foi conduzido ao trono. Para não esquecer a sua humilde origem, Górdio depositou no templo de Zeus a carroça que o havia conduzido à cidade e amarrou-a a uma coluna com um enorme e intrincado nó.

O nó tornou-se célebre porque ninguém conseguia desatá-lo. A tradição acrescentou então uma nova profecia: aquele que conseguisse desfazê-lo seria destinado a conquistar a Ásia.

Durante séculos, o desafio permaneceu por resolver. Até que, em 334 a.C., Alexandre, o Grande, passou pela Frígia. Ao ouvir a história, dirigiu-se ao templo para observar o famoso nó. Depois de o examinar, em vez de procurar a solução dentro das regras que haviam mantido todos os outros prisioneiros do problema, desembainhou a espada e cortou-o.

Pouco importa saber onde termina a história e começa a lenda. O essencial é a metáfora. Alexandre não desatou o nó: cortou-o. Encontrou uma solução que rompeu com a própria lógica do problema.

É precisamente daqui que nasce a expressão “cortar o nó górdio”, utilizada para designar a resolução rápida e radical de uma questão aparentemente insolúvel. Mais do que encontrar uma resposta dentro das regras existentes, significa questionar as próprias regras que tornaram o problema impossível de resolver.

E talvez seja aqui que o barrete frígio encontre a sua verdadeira dimensão simbólica.

Quando, muitos séculos depois, o barrete passa a ser associado à liberdade, à emancipação e à Revolução Francesa, deixa de ser apenas um elemento de vestuário para se transformar numa imagem política. Colocado sobre a cabeça dos revolucionários, torna-se símbolo daquele que rompe com a ordem estabelecida e se recusa a aceitar como inevitável aquilo que parecia impossível de transformar.

O barrete torna-se, assim, uma espécie de coroa da liberdade: não pertence ao rei, mas ao cidadão; não representa a submissão, mas a emancipação. É a inversão simbólica da velha ordem. Onde antes existia uma coroa que legitimava o poder de um soberano, surge agora um barrete que proclama a liberdade daquele que decide o seu próprio destino.

E aqui podemos regressar a Górdio e a Alexandre.

O nó górdio representa o problema aparentemente insolúvel; o barrete frígio, a vontade de o enfrentar. Um simboliza a dificuldade, o outro a ruptura. Entre ambos encontramos uma mesma ideia: quando as soluções convencionais deixam de funcionar, talvez seja necessário mudar a pergunta, romper a regra ou, simplesmente, cortar o nó.

Midas acrescenta ainda uma outra dimensão a esta metáfora. Se Górdio representa aquele que se confronta com o impossível e Alexandre aquele que encontra uma solução radical, Midas representa o desejo de transformar o mundo através do poder que lhe foi concedido. Mas o seu dom rapidamente se transforma numa maldição: tudo aquilo em que toca converte-se em ouro, incluindo aquilo de que necessita para viver.

Talvez a lição seja precisamente esta: nem todos os problemas se resolvem com mais poder, mais riqueza ou mais força. Alguns exigem imaginação.

É por isso que o barrete frígio pode ser entendido como símbolo daqueles que ousam “pensar fora da caixa”. Daqueles que não aceitam o mundo como uma realidade acabada e que, perante os nós górdios da existência, procuram uma outra possibilidade.

A história da Frígia oferece-nos, assim, duas imagens extraordinariamente atuais: o nó que parece impossível de desatar e a espada que ousa cortá-lo.

Como escreveria Shakespeare, fazendo eco desta velha metáfora, há quem seja capaz de resolver o “nó górdio” com a mesma facilidade com que se desata uma jarreteira.

Talvez a verdadeira revolução comece precisamente aí: quando alguém deixa de tentar desatar o nó e decide cortá-lo.

 

Texto: 2017 © Luís Carvalho Barreira

Ovo da Páscoa

Ovo, 1985

fotografia de Luís Carvalho Barreira


O ovo da Páscoa — o corpo fechado e o mistério da vida

 

 

Muitos dos símbolos que hoje associamos à Páscoa possuem uma longa história anterior ao cristianismo. Ovos, flores, animais, sementes, ritos de passagem e celebrações da Primavera participam de um universo simbólico muito mais antigo, ligado aos ciclos da Natureza, à fertilidade da terra, à reprodução e à renovação da vida. Com a expansão do cristianismo, algumas destas práticas foram progressivamente integradas, reinterpretadas ou ganhando um novo significado no interior da celebração da Páscoa e da Ressurreição de Cristo.

Mas por que razão o ovo se tornou um dos seus símbolos mais persistentes?

A resposta talvez esteja na própria forma do objecto.

O ovo é simultaneamente matéria e promessa. É um corpo fechado que contém, no seu interior, uma vida que ainda não podemos ver. A sua superfície esconde aquilo que está para nascer. Existe, portanto, uma tensão entre o exterior e o interior, entre aquilo que conhecemos e aquilo que permanece oculto. Antes de se abrir, o ovo é apenas matéria; depois de aberto, revela uma possibilidade de vida.

É precisamente esta condição que lhe confere uma extraordinária força simbólica.

O ovo pode representar o princípio, a origem, o germe, a fecundidade e a esperança. É uma imagem elementar da passagem entre o invisível e o visível: algo existe dentro dele, mas ainda não se manifestou. O ovo encerra, assim, uma espécie de promessa ontológica — a possibilidade de uma existência que ainda não aconteceu.

Neste sentido, o ovo aproxima-se de uma das questões fundamentais que atravessam a experiência humana: como nasce a vida?

O ser humano observa a Natureza e reconhece os seus ciclos. A semente desaparece na terra para depois germinar; o animal reproduz-se; a planta morre e renasce; o Inverno dá lugar à Primavera. O ovo participa desta mesma lógica. É um corpo aparentemente imóvel que contém movimento; uma matéria silenciosa que contém uma possibilidade; uma forma finita que guarda a promessa de uma nova existência.

É nesta relação entre corpo, fecundidade e transformação que podemos reconhecer uma manifestação do nosso corpo poiético.

O corpo poiético é aquele que não se limita a existir: gera, transforma e produz significado. O ovo constitui uma das suas imagens mais elementares. É um corpo que contém outro corpo; uma matéria que produz vida; uma forma que anuncia outra forma.

Ao longo da História, esta capacidade simbólica foi ampliada pela cultura.

No século XVI, Cesare Ripa, na sua Iconologia, representa a Fecundidade através de uma composição povoada por imagens de abundância e reprodução: uma mulher, aves com as suas crias, uma galinha acompanhada pelos pintos, ovos e uma lebre rodeada pelas suas crias. O conjunto não representa simplesmente a reprodução biológica. Constitui uma verdadeira gramática visual da abundância.

O ovo surge aqui integrado numa cadeia de correspondências: ovo, nascimento, cria, animal, mulher, terra e abundância.

A fertilidade humana e a fertilidade da Natureza encontram-se simbolicamente aproximadas. A mulher que gera uma criança e a terra que produz alimento participam de uma mesma experiência fundamental: a capacidade de produzir e sustentar a vida.

É importante, contudo, distinguir entre aquilo que podemos afirmar historicamente e aquilo que pertence ao domínio da interpretação simbólica. Não podemos afirmar que todas as comunidades pré-históricas atribuíam ao ovo exactamente os mesmos significados, nem que todos os rituais primaveris possuíam uma origem única. Podemos, porém, reconhecer uma recorrência extraordinária de símbolos associados à renovação, fecundidade e passagem entre morte e vida.

O mesmo princípio pode ser observado nos monumentos megalíticos.

No Alentejo, a Rocha dos Namorados, em São Pedro do Corval, conserva uma tradição popular particularmente expressiva. As jovens solteiras lançam pedras para o alto do afloramento rochoso, procurando através do sucesso ou do fracasso do lançamento uma resposta sobre o futuro casamento. A pedra, lançada para uma forma que se ergue da terra, participa de um ritual em que se cruzam terra, corpo, desejo, fertilidade e futuro.

A pedra torna-se, assim, um objecto de comunicação.

Não é apenas matéria. É uma matéria à qual o ser humano atribui significado.

Encontramos uma lógica semelhante nas construções megalíticas, onde pedras, alinhamentos e formas naturais são organizados segundo uma ordem que ultrapassa a sua simples função material. No Cromeleque dos Almendres, por exemplo, os menires são dispostos num espaço estruturado, revelando que a pedra podia adquirir uma dimensão ritual, social e simbólica.

Aqui reencontramos uma questão que atravessa todo este percurso: quando é que uma matéria deixa de ser apenas matéria?

Talvez quando o homem a transforma em signo.

A pedra, o ovo, o falo, a coluna, o obelisco ou a imagem do corpo podem tornar-se veículos através dos quais uma experiência humana é exteriorizada. O corpo poiético manifesta-se precisamente nessa capacidade de transformar matéria em representação e representação em pensamento.

A Páscoa cristã introduzirá uma nova dimensão nesta longa história simbólica.

O ovo, enquanto corpo fechado que contém uma vida invisível, encontra na Ressurreição uma poderosa possibilidade de outro significado. Cristo morre, é colocado no sepulcro e, no terceiro dia, ressuscita. O sepulcro fechado e o ovo fechado podem estabelecer, no plano simbólico — embora não necessariamente numa relação histórica de origem — uma analogia particularmente sugestiva: ambos encerram um mistério que só a abertura pode revelar.

A casca do ovo transforma-se, deste modo, numa espécie de limite entre dois estados da existência.

Dentro está a vida ainda invisível.

Fora está o mundo conhecido.

A ruptura da casca anuncia a passagem.

Da mesma maneira, a Ressurreição introduz no pensamento cristão a passagem da morte para a vida. O símbolo pagão da renovação natural e o símbolo cristão da Ressurreição não são necessariamente a mesma coisa, mas podem encontrar-se na imaginação cultural através de uma mesma estrutura simbólica: a morte não constitui necessariamente o fim; pode ser o limiar de uma transformação.

É talvez por isso que o ovo tenha sobrevivido com tanta força no imaginário pascal.

O cristianismo não precisou de eliminar completamente os símbolos anteriores. Em muitos contextos, pôde absorvê-los, transformá-los e atribuir-lhes novos significados. O símbolo sobrevive porque a forma permanece, mesmo quando a interpretação muda.

Esta capacidade de transformação acompanha a própria História da Arte.

Em 1885, o czar Alexandre III encomendou a Peter Carl Fabergé um ovo de Páscoa destinado à imperatriz Maria Feodorovna. Fabergé transformou o simples ovo num objecto de extraordinária sofisticação artística: uma forma exterior aparentemente fechada que escondia no seu interior uma surpresa.

O princípio simbólico permanecia.

O que está dentro?

A obra de arte torna-se, assim, uma espécie de ovo cultural: uma superfície que protege um conteúdo; um corpo que contém outro corpo; uma forma que convida à descoberta.

Também os jogos populares europeus associados aos ovos conservam esta dimensão de passagem e de expectativa. O egg rolling, por exemplo, coloca os ovos em movimento e testa a sua resistência. Noutros costumes, os ovos são escondidos e posteriormente procurados; noutros ainda são pintados, oferecidos ou colocados em competição.

Em todos estes casos, o ovo deixa de ser simplesmente alimento.

Transforma-se em objecto ritual, objecto lúdico, objecto de troca, objecto artístico e objecto simbólico.

A sua forma permanece praticamente inalterada, mas os significados multiplicam-se.

Talvez seja esta uma das características mais fascinantes dos símbolos: não possuem necessariamente um único significado; acumulam significados.

O ovo pré-histórico, o ovo primaveril, o ovo da fertilidade, o ovo pascal, o ovo oferecido, o ovo escondido, o ovo de Fabergé — são diferentes manifestações de uma mesma estrutura imaginária: um corpo fechado que contém uma possibilidade.

E regressamos, assim, ao princípio.

O ser humano nasce de um corpo e passa a vida a produzir corpos simbólicos: imagens, esculturas, edifícios, pinturas, objectos, palavras e obras de arte. Cria porque sabe que é mortal. Produz porque deseja permanecer. Representa porque procura tornar visível aquilo que não consegue tocar.

O ovo condensa esta experiência de forma exemplar.

É um corpo que contém outro corpo.

É matéria que contém vida.

É finito e, simultaneamente, promessa de continuidade.

É silêncio que anuncia nascimento.

Por isso, talvez possamos compreender o ovo como uma das imagens mais antigas do corpo poiético: uma forma aparentemente simples que contém em si o mistério da criação.

E talvez seja precisamente essa a razão pela qual, todos os anos, continuamos a oferecer ovos.

Não oferecemos apenas um objecto.

Oferecemos a promessa de que a vida continua.

Texto © Luís Barreira, 1991

A serpente da Pena

«Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.»

Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)

Virgil SolisApolo matando Píton, gravura de 1581, para a Metamorfoses, de Ovídio, livro I.créditos: wikipedia

Virgil Solis

Apolo matando Píton, gravura de 1581, para a Metamorfoses, de Ovídio, livro I.

créditos: wikipedia

A serpente da Pena — De rerum natura

Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.

— Inscrição no Oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios da Grécia (c. 650–550 a.C.)

No sopé do monte Parnaso, em Delfos, brotam várias nascentes. Entre elas, a mais célebre é a Fonte Castália, assim chamada em honra de Castália, uma das náiades, ninfas das águas doces. Rodeada por loureiros consagrados a Apolo, a fonte tornou-se, ao longo do tempo, parte integrante do imaginário religioso e mitológico de Delfos.

Segundo a tradição mitológica, era junto destas águas que divindades, musas e náiades se reuniam e, ao som da lira de Apolo, cantavam acompanhando o incessante murmúrio da nascente — a “água falante”.

Delfos era, contudo, muito mais do que um lugar de beleza natural. Era um lugar de revelação.

Ali se encontrava o oráculo, inicialmente consagrado a Témis, deusa da justiça e da ordem divina. A sua guardiã era Píton, a serpente monstruosa que Apolo haveria de matar. Depois da vitória do deus, a serpente daria o seu nome ao próprio lugar — Pytho — e as sacerdotisas do oráculo passariam a ser conhecidas como pitonisas.

A serpente, derrotada por Apolo, não desaparece inteiramente do imaginário de Delfos. Permanece como símbolo do lugar que guarda o conhecimento oculto, a passagem entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses.

É precisamente aqui que começa a nossa interrogação.

Terá a lenda de Delfos inspirado, consciente ou inconscientemente, a criação da gruta da serpente da Pena?

Sintra, lugar de poesia

As imagens românticas da serra de Sintra estão todas impregnadas de poesia.

Não há recanto, árvore, planta, caminho ou gruta que não pareça ter sido retirado de uma fantasia onírica. A serra não é apenas natureza: é natureza transformada pelo olhar humano.

Muito se tem escrito sobre o revivalismo arquitectónico do Palácio da Pena, sobre as suas origens e sobre a extraordinária conjugação de estilos que fazem dele uma das mais singulares expressões do Romantismo português. Fala-se igualmente da flora trazida dos quatro cantos do mundo, que confere ao parque um exotismo luxuriante; dos caminhos sinuosos que acompanham a orografia da serra e que, a cada curva, revelam novas perspectivas; das rochas, dos cursos de água, das grutas e da fauna que encontrou neste território um lugar de eleição.

Tudo parece ter sido pensado para surpreender.

Mas Sintra não é apenas um cenário romântico. É também uma construção intelectual.

Por detrás da exuberância do Palácio da Pena existe um imaginário muito mais antigo, no qual se cruzam a tradição clássica, o Neoclassicismo, o Romantismo, a literatura arcádica e uma determinada concepção idealizada da Natureza.

Entre Arcádia e Romantismo

O movimento neoclássico do final do século XVIII, bem como a tradição literária da Arcádia, deixou uma marca profunda no imaginário europeu. A Natureza aparece aí como espaço de felicidade, simplicidade, equilíbrio e comunhão.

É a paisagem idealizada do lugar onde o homem pode reencontrar uma existência mais simples, distante da corrupção da sociedade e próxima de uma Natureza entendida como ordem.

É neste território imaginário que encontramos a figura do “nobre selvagem”: o homem que, afastado das convenções da civilização, permanece próximo de uma suposta condição natural.

D. Fernando II, homem culto e profundamente interessado pelas artes, pela literatura e pela cultura europeia, não terá sido indiferente a este universo.

A Pena é, nesse sentido, muito mais do que um palácio.

É uma paisagem construída.

Uma paisagem onde a arquitectura, a botânica, a geologia, a mitologia e a literatura se encontram.

A Natureza não é simplesmente contemplada: é organizada, interpretada e transformada numa experiência estética.

É de rerum natura — sobre a natureza das coisas — mas de uma Natureza recriada pelo homem.

A serpente

E é neste contexto que encontramos a serpente.

Numa nascente que brota das entranhas da serra de Sintra, uma serpente surge associada a uma gruta. A imagem é suficientemente sugestiva para despertar uma associação imediata com Píton, a serpente que guardava o oráculo de Témis em Delfos.

A comparação não significa, necessariamente, que D. Fernando II tenha pretendido reproduzir deliberadamente o mito de Delfos. Não possuímos, pelo menos à partida, uma prova documental que nos permita afirmar tal intenção.

Mas a ausência de prova não impede a interpretação.

Porque a história da arte também se constrói através das relações entre imagens, símbolos, lugares e tradições.

E a serpente é um símbolo demasiado antigo e demasiado poderoso para ser ignorado.

Ela habita as profundezas da terra.

Move-se silenciosamente.

Guarda aquilo que está escondido.

É simultaneamente símbolo de ameaça, conhecimento, regeneração e passagem.

Em Delfos, Píton guardava o lugar oracular antes da chegada de Apolo.

Na Pena, a serpente guarda uma nascente escondida na montanha.

Num caso e noutro, a serpente encontra-se associada a um lugar subterrâneo onde a água emerge da terra.

Num caso e noutro, a natureza parece esconder qualquer coisa que necessita de ser revelada.

O oráculo de D. Fernando II

É aqui que a nossa interpretação pode ir mais longe.

Se Delfos era o lugar onde os homens procuravam ouvir a voz dos deuses, poderá a gruta da serpente da Pena ser entendida como uma espécie de oráculo privado de D. Fernando II?

A pergunta não pretende afirmar uma realidade histórica que não conseguimos demonstrar. É antes uma hipótese poética e simbólica.

D. Fernando II construiu em Sintra um universo onde a natureza parece falar.

As árvores vindas de lugares distantes, as ruínas, as fontes, os caminhos sinuosos, as grutas, as rochas, os lagos, os palácios e os elementos arquitectónicos encontram-se numa espécie de composição total.

Tudo parece esconder uma história.

Tudo parece querer dizer alguma coisa.

A própria experiência de percorrer o parque corresponde a uma sucessão de revelações. O caminho desaparece, reaparece; a vegetação esconde e revela; uma rocha conduz a uma passagem; uma fonte emerge inesperadamente; uma ruína sugere um passado que nunca conhecemos inteiramente.

A paisagem transforma-se numa narrativa.

E, dentro dessa narrativa, a serpente pode assumir a função de guardiã.

De rerum natura

Talvez seja esta a verdadeira aproximação entre Delfos e a Pena.

Não a reprodução literal de um mito, mas a permanência de uma ideia muito mais antiga: a Natureza como lugar de conhecimento.

O homem entra na paisagem para procurar aquilo que não consegue encontrar em si mesmo.

“Conhece-te a ti mesmo.”

A inscrição de Delfos contém uma das grandes interrogações da cultura ocidental. Conhecer o homem implica conhecer os seus limites, os seus deuses e o universo que o rodeia.

Na Pena, D. Fernando II parece inverter a questão.

Em vez de procurar a Natureza fora do homem, constrói uma Natureza que permita ao homem reencontrar-se.

A serra torna-se palco, a arquitectura torna-se narrativa e a paisagem transforma-se numa espécie de texto.

E talvez seja por isso que a serpente seja tão importante.

Ela está onde deve estar: junto da água, dentro da terra, à entrada do desconhecido.

Não fala.

Não precisa de falar.

Guarda.

Guarda a nascente, guarda a gruta, guarda o segredo.

E, como Píton em Delfos, permanece silenciosa diante daqueles que procuram uma resposta.

Será então a serpente da Pena uma reminiscência de Píton?

Será apenas uma coincidência iconográfica?

Ou será, como gostamos de imaginar, o guardião de um pequeno oráculo construído por D. Fernando II no coração da serra?

Não sabemos.

Mas talvez seja precisamente essa a função do símbolo: não oferecer uma resposta definitiva, mas obrigar-nos a continuar a perguntar.

A serpente da Pena está lá.

Será o oráculo de D. Fernando II?

Serpente da PenaPalácio da Pena (Parque)foto: Luís Barreira

Serpente da Pena

Palácio da Pena (Parque)

foto: Luís Barreira

 

texto: 2016 © Luís Carvalho Barreira

Rocha dos Namorados

Luís Barreira"Rocha dos namorados"  coordenadas: 38°26'43.6"N 7°28'32.7"W

Luís Barreira

"Rocha dos namorados"

coordenadas: 38°26'43.6"N 7°28'32.7"W

 

A Rocha dos Namorados — a pedra, o corpo e a promessa

 

 

A Rocha dos Namorados, em São Pedro do Corval, constitui um dos exemplos mais sugestivos de sobrevivência de uma tradição popular associada à pedra, ao corpo, ao desejo e à fecundidade.

A tradição conta que, na segunda-feira de Páscoa, as raparigas solteiras se dirigem à rocha e lançam uma pequena pedra para o seu topo. O número de tentativas necessárias para conseguir o lançamento é interpretado como o número de anos que ainda faltarão para o casamento. O gesto é simples, mas a sua estrutura simbólica é extraordinariamente complexa: uma mulher lança uma pedra em direcção a uma pedra e, através desse gesto, procura obter uma resposta sobre o seu próprio futuro.

A pedra deixa, assim, de ser apenas pedra.

Transforma-se em oráculo.

É esta transformação da matéria em significado que nos interessa particularmente. O objecto material permanece praticamente inalterado, mas o homem atribui-lhe uma função que ultrapassa a sua natureza física. A rocha torna-se intermediária entre o desejo e aquilo que não pode ser conhecido. Entre a pergunta humana e uma eventual resposta sobrenatural.

Encontramo-nos, portanto, perante uma das manifestações possíveis do corpo poiético: o corpo humano estabelece uma relação com a matéria, produz um gesto e, através desse gesto, produz significado.

A configuração vertical da Rocha dos Namorados permite ainda uma leitura simbólica particularmente sugestiva. A pedra ergue-se da terra, numa forma que a tradição popular aproxima visualmente do menir. A verticalidade introduz uma relação entre dois princípios: aquilo que está enterrado e aquilo que se eleva; a terra e o céu; o feminino e o masculino; a matéria e a fecundidade.

Devemos, contudo, ter cuidado em transformar estas aproximações numa explicação histórica. Não podemos afirmar que os seus construtores ou os participantes da tradição actual possuam necessariamente a mesma cosmologia, nem que a rocha tenha sido originalmente concebida como representação de um órgão sexual. Podemos, isso sim, reconhecer a persistência de uma estrutura simbólica na qual a pedra vertical, a terra, o corpo e a fertilidade se encontram.

É precisamente esta permanência simbólica que torna o fenómeno fascinante.

O que hoje parece superstição pode ser entendido como uma forma arcaica de relação entre o homem e o desconhecido. A jovem que lança a pedra não possui conhecimento sobre o seu futuro. Possui, porém, um desejo. E transforma esse desejo num acto.

Lança a pedra para perguntar ao mundo.

A pedra converte-se, deste modo, numa extensão do corpo.

O braço lança.

A pedra transporta o desejo.

A rocha recebe-o.

E o resultado é interpretado como resposta.

Nesta sequência — corpo / gesto / matéria / símbolo / significado — encontramos uma verdadeira estrutura poiética.

O menir e a fecundidade

Esta leitura torna-se ainda mais interessante quando observamos o contexto megalítico alentejano.

O Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, constitui um dos maiores conjuntos de menires estruturados da Península Ibérica. O recinto apresenta várias fases construtivas e reúne cerca de 95 menires, de formas diversas — entre elas formas ovoides, cilíndricas e estelares. Alguns apresentam incisões, figuras geométricas, motivos serpentiformes e representações antropomórficas. A interpretação arqueológica reconhece a complexidade do monumento e admite possíveis significados astronómicos, embora muitos aspectos da sua função ritual permaneçam desconhecidos. 

Nas proximidades encontra-se o Menir dos Almendres, um grande monólito vertical, de forma fálica, com cerca de quatro metros de altura e uma representação de báculo na parte superior. A própria documentação patrimonial admite que o seu significado exacto não pode ser determinado, embora considere possível uma relação com a fecundidade. 

Aqui encontramos uma imagem particularmente poderosa:

a pedra enterrada na terra e erguida em direcção ao céu.

A verticalidade pode ser lida como uma forma de ligação entre mundos. A pedra nasce da terra mas eleva-se acima dela. É simultaneamente raiz e eixo, matéria e sinal, corpo e símbolo.

Se acrescentarmos a esta imagem a tradição da Rocha dos Namorados, encontramos uma cadeia simbólica particularmente sugestiva:

A terra, a pedra, o corpo, a fecundidade, o nascimento e o futuro.

Não precisamos de pressupor a existência de uma religião única da fertilidade para reconhecer a força desta associação.

A pedra que fecunda e o ovo que gera

É aqui que a Rocha dos Namorados pode ser aproximada do ovo da Páscoa.

À primeira vista, pedra e ovo parecem pertencer a universos completamente diferentes. Uma é dura, mineral e aparentemente estéril; o outro é orgânico, frágil e contém potencialmente uma nova vida.

Mas simbolicamente podem desempenhar uma função semelhante.

A pedra é colocada na terra.

O ovo contém a vida.

A pedra ergue-se.

O ovo abre-se.

Uma estabelece uma relação entre a terra e o céu; o outro estabelece uma passagem entre o interior e o exterior.

Ambos são corpos fechados que anunciam uma possibilidade.

A diferença é fundamental: a pedra representa sobretudo a permanência; o ovo representa a transformação. A pedra parece dizer “permaneço”; o ovo parece dizer “vou nascer”.

É precisamente nesta tensão que podemos compreender a passagem do símbolo da fertilidade para o símbolo da renovação.

Da fertilidade à Páscoa

As celebrações da Primavera foram, em diferentes culturas, acompanhadas por símbolos de renovação, fecundidade e abundância. É tentador construir uma genealogia directa entre todas essas tradições — por exemplo, entre as divindades mesopotâmicas, mediterrânicas e europeias e a Páscoa cristã —, mas essa continuidade não pode ser estabelecida de forma linear.

É mais prudente falar de camadas simbólicas que se sobrepõem ao longo do tempo.

O cristianismo introduziu uma nova interpretação fundamental: a Ressurreição.

A Primavera pode simbolizar o renascimento da Natureza; o ovo pode simbolizar o nascimento de uma vida; a semente pode simbolizar o reaparecimento daquilo que parecia morto. A Ressurreição cristã, porém, desloca esta estrutura para um plano teológico: Cristo passa da morte à vida.

A antiga linguagem da renovação encontra, assim, uma nova linguagem religiosa.

Não é necessário afirmar que o ovo cristão deriva directamente de um determinado culto pagão para perceber a extraordinária afinidade entre as duas estruturas simbólicas:

Entre a morte, a espera, a ruptura e o nascimento.

O ovo e a mulher

Esta relação encontra uma expressão particularmente eloquente na iconografia da Fecundidade de Cesare Ripa.

A figura feminina é acompanhada por animais e crias: pintassilgos, galinhas, pintos, lebres e ovos. O conjunto organiza uma verdadeira gramática visual da abundância. Cada elemento participa de uma mesma ideia: a capacidade de gerar, multiplicar e assegurar a continuidade da vida.

O ovo ocupa aqui uma posição essencial.

É simultaneamente corpo e conteúdo.

É uma forma que contém outra forma.

É uma vida potencial escondida dentro de uma matéria aparentemente inerte.

Por isso, o ovo talvez seja uma das mais poderosas imagens da fecundidade: não representa apenas aquilo que nasceu, mas aquilo que ainda está para nascer.

E regressamos novamente à Rocha dos Namorados.

A jovem lança a pedra porque deseja conhecer aquilo que ainda não aconteceu.

O ovo encerra aquilo que ainda não nasceu.

Em ambos os casos, o presente contém uma pergunta dirigida ao futuro.

A pedra pergunta pelo casamento.

O ovo promete a vida.

A matéria transforma-se em linguagem.

O corpo poiético

Talvez seja este o verdadeiro ponto de encontro entre a Rocha dos Namorados, o menir e o ovo.

O ser humano não se limita a observar o mundo. Produz relações simbólicas com ele.

Toca a pedra.

Lança a pedra.

Ergue a pedra.

Enterra a pedra.

Pinta o ovo.

Oferece o ovo.

Esconde o ovo.

Parte o ovo.

Em cada um destes gestos, o corpo humano transforma uma matéria natural num acontecimento cultural.

É por isso que podemos falar de corpo poiético.

O corpo é o primeiro instrumento da criação. É através dele que o homem toca, transporta, constrói, lança, pinta, esculpe e transforma. Mas é também através dele que transforma uma experiência em símbolo.

A Rocha dos Namorados permanece no lugar.

O menir permanece erguido.

O ovo permanece fechado.

Mas o homem aproxima-se deles com os seus desejos.

E talvez seja essa a característica mais profunda da experiência simbólica: não é a matéria que muda; é o olhar humano que a transforma.

A pedra torna-se oráculo.

O menir torna-se eixo.

O ovo torna-se promessa.

E o corpo torna-se o lugar onde todas estas imagens se encontram.

O ovo contém em si o mistério da vida.

A pedra contém a memória do homem.

E o corpo contém o desejo de compreender ambos.

 

texto escrito em 1991 

O Sonho dos Reis Magos

O dia dos Reis: nascimento de Jesus.

Capitel românico

Segundo a profecia, Antigo Testamento (Miqueias 5,1), os reis magos guiados por uma estrela chegaram a Belém a tempo de adorarem o menino, o Messias. Porém, e ainda antes de O avistarem teriam passado por Jerusalém consultando o Rei Herodes perguntando-lhe se sabia quem era o Rei que tinha nascido; pois tinham vislumbrado a “sua estrela” no céu, prenuncio do nascimento do menino, o Rei dos Judeus. Herodes incrédulo e desconfiado ordenou aos Reis Magos que fossem de imediato ao encontro do menino e no regresso lhe dissessem o lugar exacto, para que ele o pudesse adorar também. Chegados diante do Menino os Reis Magos oferendaram-No com ouro, incenso e mirra. No regresso foram avisados em sonho pelo anjo do Senhor que lhes retorquiu para não dizer nada ao rei Herodes do nascimento de Cristo e assim apanharam outra estrada evitando passarem por Jerusalém. Herodes, irado, mandou matar todos os meninos com menos de dois anos.

O sonho dos Reis MagosCatedral de Autun, França

O sonho dos Reis Magos

Catedral de Autun, França

 


texto: 2016 © Luís Carvalho Barreira

Jano

Janus (Jano) deus romano

créditos: www.britishmuseum.org/

créditos: www.britishmuseum.org/

1 de Janeiro - Ano Novo

Em quase todo o mundo, pelo menos no ocidente, comemora-se o dia de ano novo no dia 1 de Janeiro. E a origem destas festividades devem-se a ao decreto do imperador romano Júlio César (em 46 a. C.), que fixou esta data como o dia do Ano Novo. Os romanos há muito que dedicavam este dia a Jano – deus da mudança - e também a um ciclo agrário que começava associado a uma abundância futura que se desejava. Jano, o deus das duas faces e das duas portas (entrada e saída) simbolizava o conhecimento e a partilha para que seja possível efectuar essa mudança. Jano era representado por duas faces, uma delas voltada para trás, visualizando o passado, e a outra virada para a frente, simbolizando o futuro. Conhecedor do passado e vaticinador dos inícios e das assertivas decisões estava ligado aos ciclos agrários que se iniciam em finais de Janeiro (fim do inverno) até às colheitas (outono). Este ciclo culmina com o solstício de inverno dando lugar à Saturnália, festividades romanas em honra ao deus Saturno que ocorria no mês (X para os romanos) de Dezembro e que se estendiam até 25 de Dezembro (sol invictus – sol vencedor).

Em Janeiro (Jano) um novo ano agrário e religioso começavam e a esperança e as expectativas eram renovadas.


Nota: os nomes dos meses romanos

Janeiro — Jano (Deus)

Fevereiro — Februus (Deus)

Março — Marte (Deus)

Abril — Aprilis (mês das flores. Festas da Venerália em honra de Vénus (Deusa).

Maio — Maia (Deusa)

Junho — Juno (Deusa)

Julho — Julio Cézar (Imperador)

Agosto — Augustos (Imperador)

Setembro — mês VII (sete)

Ourubro — mês VIII (oito)

Novembro — mês IX (nove)

Dezembro — mês X (dez)

O Rapto de Europa, Peter Paul Rubens

Peter Paul Rubens,Rapto de Europa, 1628/29Museo del Prado

Peter Paul Rubens,

Rapto de Europa, 1628/29

Museo del Prado

Amores proibidos com um final feliz. A bela Europa terá sido seduzida pela opulência de um toiro que se deitou aos seus pés com ar pacífico e de um olhar ternurento. Primeiro afagou-o, depois sentou-se-lhe no dorso e depois de algumas carícias trocadas o touro empreendeu um voo por cima do oceano. A pobre princesa fenícia ficou assustadíssima. Mas não tardou a perceber que o raptor só podia ser Zeus disfarçado, pois ao longo da sua viagem verificou que das ondas emergiam peixes, tritões e sereias a acenar-lhes num cortejo nupcial. Até Posídeon apareceu agitando o seu tridente. Da união de Zeus e Europa nasceram três filhos: o valente Sarpédon, o justo Radamanto e o lendário Minos, rei de Creta.

Europa coroada deu nome a todo o território a Ocidente…

Goya, La Maja desnuda, 1800

La Maja desnuda de Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828)Pepita Tudó "La Maja desnuda", 1800Dimensões: 97 cm x 190 cmMaterial: Tinta a óleoLocalização: Museu do PradoCriação: 1797–1800

Francisco de Goya (1746-1828)

Pepita Tudó "La Maja desnuda", 1800

Dimensões: 97 cm x 190 cm

Material: Tinta a óleo

Localização: Museu do Prado

Criação: 1797–1800


Os mistérios de “La Maja desnuda, c.1800” uma “obra menor” no percurso artístico de Francisco Goya?!

 

Goya, aos dezassete anos, transferiu-se para Madrid onde estudou com Anton Raphael Mengs, pintor da corte espanhola. Depois de duas tentativas (1763-66) foi recusada a entrada na academia de Belas Artes. Mais tarde, em 25 de abril de 1785, depois da morte de Carlos III e da coroação de Carlos IV, foi nomeado "Primeiro Pintor da Câmara do Rei", tornando-se o pintor oficial do monarca e da sua família. É com este estatuto que Goya se torna num retratista da corte e da nobreza espanhola acompanhando o gosto do academicismo vigente. Goya realizou inúmeros retratos e, entre muitos, destacamos o da figura de Manuel Godoy representado, ao jeito neoclássico, como vencedor da “Guerra das laranjas” entre espanhóis e portugueses sem que tivesse grande oposição por parte dos seus beligerantes.

Manuel Godoy retratado por Goya, 1801

Manuel Godoy retratado por Goya, 1801

Quem foi Manuel Godoy?

Manuel Godoy foi primeiro-ministro de Carlos IV, Rei de Espanha. Durante as invasões francesas as suas posições dúbias tornaram-no no joguete de Napoleão acalentando a ideia de poder ser príncipe do sul de Portugal (Alentejo e Algarve), promessa feita por parte de Napoleão Bonaparte no Tratado de Fontainebleau (secreto, 1807).

A ascensão de Manuel Godoy na corte espanhola deveu-se muito ao romance que manteve com Maria Luísa de Parma, esposa de Carlos IV.

Godoy casou-se com Maria Teresa de Borbón y Villabriga, 1797 e divorciaram-se em 1808. Todavia, manteve um relacionamento escaldante com a andaluza Pepita Tudó (1779-1869) de 17 anos com quem viria a casar depois da morte de sua mulher. Feita condessa de Castillofiel, Pepita Tudó terá sido a modelo de La Maja desnuda de Goya (Tese defendida por Robert Hughes no livro Goya, 2003).

 

Mas como é que podemos enquadrar a pintura erótica de La Maja desnuda (única no percurso artístico de Goya) no movimento romântico?

A decadência das monarquias absolutistas – Ancien Régime – promovera o lado hedonista e intimista da nobreza europeia. O culto artístico no final do Barroco (O Rococó) era de um naturalismo erótico, muitas das vezes camuflados em histórias mitológicas. Os desejos dos seus promotores alicerçados na futilidade das suas ações, dos encontros amorosos e na sensualidade de uma vida ociosa, eram o enquadramento da sociedade nobre e burguesa do final do século XVIII. Assim, a encomenda feita de Manuel Godoy a Goya de um nu deitado enquadra-se no espírito da arte do Rococó onde os “Boucher’s”, os “Fragonard’s”, tinham lugar de destaque nos aposentos dos seus encomendadores.

La Maja desnuda… e mais tarde La Maja vestida serviram de ostentação privada na galeria do seu ministério a par de outras obras que Godoy tinha no seu gabinete. Segundo relato de Gonzalez de Sepúlveda (referência tirada da página do Museu do Prado), possuía «vários quadros que poderiam ser observados: Vénus ao espelho de Velasquez, Vénus de Ticiano e uma (vénus) de Goya».

Ticiano, Vénus de Urbino, 1538Velasquez, Vénus ao espelho, 1648Goya, Maja desnuda, 1800

Ticiano, Vénus de Urbino, 1538

Velasquez, Vénus ao espelho, 1648

Goya, Maja desnuda, 1800

Esta obra de Goya, La Maja desnuda, (que inicialmente deu pelo nome de Gitana, conforme descrito no inventário do palácio Godoy) ultrapassou todos os limites representativos do nu, do belo clássico enquanto metáfora do ideal de beleza. O nu de La Maja desnuda é carnal, é concupiscente, oferece-se ao observador deixando a descoberto todo o corpo nos seus mais íntimos detalhes. É provocante e ao mesmo tempo vulnerável. Não obstante, a nudez de La Maja não se esconde atrás de nenhuma divindade, é identificável, tem nome: Pepita Tudó. A vulnerabilidade da amante levou Manuel Godoy a encomendar outra pintura a Goya, La Maja vestida, com as mesmas dimensões, quiçá, para colocar no verso da primeira e assim poder alternar/ocultar a menos conveniente.

Esta pintura utiliza uma paleta de cores tonais contrastada pelo claro/escuro aqui reforçado pela ausência de outros elementos formais que possam alterar a dinâmica da composição. Um fundo quase monocromático intensifica a vulnerabilidade do nu reclinado com as mãos atrás da cabeça. Ao realismo retratado do nu, incluindo as zonas erógenas (nunca antes realizado), é contraposto uma maior expressividade dada ao tratamento do drapeado, do canapé e dos tecidos envolventes. Pinceladas rápidas, sobrepostas, confere-lhe alguma modernidade plástica afastando a pintura de Goya do neoclassicismo e do romantismo da época.

“La Maja Desnuda” pintada ainda antes de 1800 tornar-se-á na pintura mais controversa no universo artístico de Goya arrastando, ainda hoje, milhares de pessoas ao Museu do Prado, em Madrid, onde está exposta desde 1901.

A genialidade de Goya.

Goya, depois de abandonar a Academia de Belas Artes, após críticas à instituição de coartar a liberdade criativa dos artistas, refugia-se na “Quinta do Surdo”, a casa de campo que adquiriu em 1819, onde pintou as mais escuras e misteriosas pinturas.

Uma doença grave (1792) e as invasões napoleónicas deixaram um Goya revoltado com a ganância de alguns; amargurado com o desrespeito pelo sofrimento dos mais desfavorecidos; indignado com os comportamentos insanos dos seres humanos. Assim, entre os anos de 1810 e 1814, produziu a sua “obra maior”, começada com uma série de gravuras (Los Desastres de la Guerra) e desenvolvida numa pintura denunciando os horrores da guerra.

Estas pinturas utilizando cores fortes, contrastes herdados do barroco (claro/escuro), pinceladas rápidas em velaturas energicamente sobrepostas conferem expressão e dramaticidade às figuras reveladas: olhares desesperados, gritos, rostos disformes, gestos que traduzem, não só um imaginário, mas o mal-estar do autor com a realidade social espanhola. “Os fuzilamentos de três de Maio, 1808” será, talvez, a obra icónica conferindo à pintura de Goya uma modernidade dentro do contexto do movimento romântico. Goya experimenta uma linguagem plástica de índole expressionista (já abordada, de certa maneira, em El Greco e em Rembrandt) e depois prosseguida por William Turner acabando por ser assumida pelos movimentos expressionistas no período de transição do século XIX/XX.



Texto de Luís Barreira ©2005-2017

Ouro sobre azul

Madonna della Catena di San Silvestro al QuirinaleSéculo XIII

Madonna della Catena di San Silvestro al Quirinale

Século XIII

Ouro sobre azul

Poderemos recuar ao ano de 431, ao Concílio de Éfeso, para compreender a importância que a figura de Maria viria a adquirir na tradição cristã e, consequentemente, na sua representação artística. Neste concílio foi afirmada a legitimidade do título Theotokos — Mãe de Deus — contra a posição associada a Nestório, que distinguia de forma mais acentuada a maternidade de Maria enquanto mãe de Cristo-homem da sua relação com Cristo enquanto Deus. A decisão conciliar reforçou, assim, o lugar de Maria na teologia cristã e abriu caminho para uma extraordinária valorização da sua imagem no culto e nas artes.

A representação de Maria passaria progressivamente a obedecer a uma convenção cromática que associava o azul à dignidade, à pureza, à realeza celeste e à transcendência. Mais do que uma simples escolha estética, a cor assumia um valor simbólico e material. Maria deveria ser representada como Rainha do Céu e, por isso, vestida com cores dignas da sua condição.

O azul, contudo, não era apenas uma cor simbólica: era também uma matéria preciosa.

Um dos pigmentos azuis mais antigos conhecidos foi obtido a partir do lápis-lazúli, pedra semipreciosa proveniente de regiões da Ásia Central e utilizada desde a Antiguidade. A sua raridade, a dificuldade de transporte e o complexo processo de transformação da pedra em pigmento fizeram do azul um material de elevado valor. No Egipto antigo foram desenvolvidos outros pigmentos azuis, nomeadamente o chamado azul egípcio, um dos primeiros pigmentos sintéticos conhecidos, obtido através de um processo de fabricação específico.

Séculos mais tarde, na pintura europeia, o ultramarino natural, produzido a partir do lápis-lazúli, conservaria esse estatuto de matéria excepcionalmente valiosa. O pigmento chegava a atingir preços comparáveis aos de outros materiais preciosos e, em determinados contextos, era mesmo especificado nas encomendas como um material que deveria ser pago à parte pelo cliente.

É neste encontro entre símbolo e matéria que o azul ganha uma dimensão extraordinária. Não se tratava apenas de pintar uma superfície de azul; tratava-se de conferir à imagem uma matéria rara, cara e visualmente intensa. Quando aplicado ao manto de Maria, o pigmento não apenas identificava uma personagem: construía a sua dignidade.

O ouro desempenhava uma função semelhante. Desde a Antiguidade, a sua incorruptibilidade, raridade e brilho fizeram dele uma matéria privilegiada para representar o divino. Na arte cristã medieval, o ouro não procurava simplesmente imitar a realidade: procurava retirá-la da realidade quotidiana. O fundo dourado não representa necessariamente um espaço físico; representa uma outra dimensão, intemporal, celeste, onde o sagrado se manifesta.

O azul e o ouro tornam-se, assim, mais do que cores: tornam-se valores.

O azul veste o sagrado; o ouro ilumina-o.

Daí que a expressão “ouro sobre azul”, embora hoje utilizada para designar aquilo que é raro, precioso ou de elevada qualidade, possa ser entendida também como uma feliz síntese de uma longa tradição visual em que a matéria, a cor e o símbolo se encontram. O que vemos numa pintura não é apenas uma determinada tonalidade ou uma superfície brilhante: vemos uma escolha económica, técnica, simbólica e religiosa.

A História da Arte ensina-nos, afinal, que as cores também têm uma história. Foram extraídas da terra, transportadas por longas distâncias, preparadas por artesãos, disputadas por artistas e pagas por mecenas. Algumas eram tão valiosas que a sua utilização dizia tanto sobre o estatuto da personagem representada como sobre o poder económico de quem encomendava a obra.

Por isso, quando hoje admiramos um manto azul sobre um fundo dourado, talvez devamos olhar para além da beleza imediata da imagem. Ali estão a teologia, a economia, a técnica, o poder e a devoção.

E talvez seja precisamente por isso que, quando falamos de perfeição, continuemos a dizer: ouro sobre azul.

 

 

Variantes desta técnica foram utilizadas por diferentes civilizações — mesopotâmios, persas, gregos e romanos — que desenvolveram processos próprios de produção de pigmentos azuis. Na China antiga, foram igualmente desenvolvidos pigmentos azuis artificiais a partir de compostos minerais, alguns dos quais envolviam cobre e outros elementos metálicos.

A procura pelo azul não se limitava, porém, à pintura. Determinados minerais e compostos utilizados na produção de pigmentos eram também empregados na preparação de medicamentos e de elixires. Alguns desses compostos continham metais pesados, cuja toxicidade, hoje conhecida, terá provocado graves consequências para a saúde daqueles que os manipulavam ou ingeriam.

Independentemente da sua origem e do processo utilizado na sua produção, o azul permaneceu durante séculos um pigmento raro e dispendioso. A dificuldade da sua obtenção e o elevado preço da matéria-prima ajudam a compreender a associação progressiva desta cor à realeza, ao poder e ao sagrado. Não era apenas uma questão de preferência estética: usar azul significava, muitas vezes, possuir os recursos necessários para o adquirir.

É precisamente esta dimensão material que torna particularmente interessante a presença do azul na pintura religiosa. A cor não era apenas símbolo; era também matéria, trabalho e dinheiro. Quando um pintor aplicava um azul precioso no manto de uma figura sagrada, estava simultaneamente a construir uma imagem teológica e a revelar o estatuto económico da encomenda.

A tradição cristã acabaria por associar determinadas cores a valores e personagens específicos. O azul tornou-se progressivamente a cor da transcendência, do mistério divino e, sobretudo na iconografia mariana, da dignidade celestial.

O vermelho, pelo contrário, aproxima-se da condição humana. É a cor do sangue, da paixão, do sacrifício e do martírio. Nos ícones e na pintura religiosa, o vermelho pode representar simultaneamente a vida e a morte: o sangue derramado pelo mártir, mas também a força vital e o fogo do espírito.

O verde aproxima-se da Natureza. É a cor da vegetação, da renovação, da fertilidade e da abundância. A sua presença remete para o ciclo da vida e para a permanente capacidade regeneradora da Natureza.

O castanho é a cor da terra e, por extensão, da condição terrena. Associado à humildade, à pobreza e à renúncia dos bens mundanos, encontra particular expressão nas vestes de santos e religiosos que fizeram da pobreza uma forma de aproximação ao divino.

O branco aproxima-se da luz. É a cor da pureza, da paz, da inocência e da revelação. Na tradição cristã, a sua luminosidade sugere frequentemente uma realidade que se aproxima do divino.

Já o preto transporta consigo uma carga simbólica mais ambivalente: é a cor da ausência de luz, do luto, da morte, da penitência e, em determinados contextos, do pecado e daquilo que permanece oculto.

Assim, as cores não são apenas cores. Na pintura religiosa, constituem uma verdadeira linguagem. Antes mesmo de identificarmos uma personagem ou compreendermos uma narrativa, a cor fornece-nos pistas para a interpretação da imagem.

É por isso que olhar para uma pintura não significa apenas reconhecer aquilo que está diante dos nossos olhos. Olhar é começar a ver; ver é começar a interpretar.

E talvez seja neste ponto que regressamos ao nosso “ouro sobre azul”. O ouro e o azul não são simplesmente duas cores colocadas lado a lado. São duas matérias carregadas de significado: uma brilha, a outra aprofunda; uma remete para a luz, a outra para o mistério; ambas, pela sua raridade e pelo seu valor, foram capazes de transformar uma imagem numa manifestação de poder e de transcendência.

Na História da Arte, a cor também é uma forma de poder.

Texto: 1998 © Luís Carvalho Barreira

Public Prayer, Dirty Fantasy

Nova Iorque, 1994

 

 

Muito antes de Dylan Mortimer criar as Public Prayer Booths, Nova Iorque já nos espantava com a sua irreverência e fantasia.

 

Nova Iorque ensinou-me, logo no primeiro dia, que o improvável faz parte da rotina.

Estávamos sentados na esplanada de um café do SoHo quando um telefone público, colocado no centro do recinto, começou a tocar.

Ninguém estranhou.

Nós, sim.

Olhámos uns para os outros, esperando que alguém atendesse.

Ninguém se levantou.

O telefone tocou até desistir.

Minutos depois voltou a tocar.

Desta vez reparei melhor nos rostos em redor. Havia artistas, músicos, casais improváveis, figuras de aparência indefinível, gente que parecia ter saído de um filme de Jim Jarmusch. Todos continuavam a conversar como se aquele telefone fosse apenas mais um elemento da decoração.

Crysler BuildingNew YorkWilliam Van Alen (Arq.)

Crysler Building

New York

William Van Alen (Arq.)

A noite era quente, húmida e eléctrica.

Nova Iorque respirava pelas ruas.

Durante o jantar fomos recordando o dia.

Falámos da elegância metálica do Chrysler Building iluminado pelo entardecer, da estranha geometria do Flatiron Building e da piada de um nova-iorquino que, ao ouvir os estalidos do edifício, comentou com absoluta naturalidade:

— Someone flushed a toilet.

A frase acompanhou-nos durante toda a viagem. Sempre que alguma coisa nos parecia absurda, bastava repeti-la e tudo fazia sentido.

Mas nada fazia sentido naquele telefone.

Tocava.

Parava.

Voltava a tocar.

Luís BarreiraFlatiron Building (1902 - Daniel Burnham, arq.)New Yorkarquivo: FOLIO_524_20063, 2002

Luís Barreira

Flatiron Building (1902 - Daniel Burnham, arq.)

New York

arquivo: FOLIO_524_20063, 2002

Sempre sem que ninguém demonstrasse curiosidade.

A nossa curiosidade, pelo contrário, aumentava a cada minuto.

Chegáramos há poucos dias aos Estados Unidos. Queríamos conhecer museus, galerias, teatros e arranha-céus. Acabáramos, porém, por descobrir outra cidade.

Tudo começara quando uma rapariga nos abordou no átrio do Chelsea Hotel.

— Make me famous.

Sorriu, como quem sabe que as melhores histórias começam por acaso.

Chamava-se Rita.

Foi ela quem nos abriu as portas de uma Nova Iorque subterrânea, muito distante dos roteiros turísticos. Passámos a conhecer festas privadas, ateliers improvisados, músicos, fotógrafos, actores e artistas que faziam da noite um prolongamento natural da criação.



Claude Monet, Water Lilies, 1914/26.

Claude Monet, Water Lilies, 1914/26.

Percebemos então que, naquela cidade, a arte não vivia apenas nos museus.

Andava na rua.

Respirava.

Provocava.

Nesse mesmo dia visitara o MoMA.

Entre tantas obras, uma reteve-me por completo: Water Lilies, de Claude Monet.

Nunca uma pintura me tinha esmagado daquela maneira.

Durante largos minutos esqueci-me de tudo o resto.

Mas bastou regressar ao SoHo para compreender que, em Nova Iorque, a realidade conseguia ser ainda mais surpreendente do que a arte.

O telefone voltou a tocar.

Já não conseguíamos disfarçar a curiosidade.

Os nossos sorrisos começaram a despertar a atenção dos restantes clientes.

Andy Warhol, Campbell's Soup I, 1968.

Andy Warhol, Campbell's Soup I, 1968.

DFoi então que Rita chegou.

Ao perceber o motivo da nossa inquietação, desatou a rir.

— Ainda não atenderam?

— Atender o quê?

Apontou para o telefone.

— Claro… atendam.

— Mas… quem está a ligar?

Rita encolheu os ombros.

— Descubram.

Esperámos que voltasse a tocar.

Não demorou.

Levantei-me.

Atravessei lentamente a esplanada.

Peguei no auscultador.

— Alô…

Do outro lado instalou-se um breve silêncio.

Depois ouvi uma voz suave, quase sussurrada.

 

— What’s Your Dirty Fantasy?


Luís Barreira, New York, 1994*.

*extraído de uma longa viagem através dos Estados Unidos da América em 1994.