Luís Barreira
Natureza Morta, 1994
acrílico s/tela
60x40 cm
colecção particular
Luís Barreira
Natureza Morta, 1994
acrílico s/tela
60x40 cm
colecção particular
Luís Barreira
New York, 1994
Pablo Picasso, Les demoiselles d'Avignon, 1907
MoMA - Museum of Modern Art
Fotografia
Gelatin Silver print
Nova Iorque, 1994
Muito antes de Dylan Mortimer criar as Public Prayer Booths, Nova Iorque já nos espantava com a sua irreverência e fantasia.
Nova Iorque ensinou-me, logo no primeiro dia, que o improvável faz parte da rotina.
Estávamos sentados na esplanada de um café do SoHo quando um telefone público, colocado no centro do recinto, começou a tocar.
Ninguém estranhou.
Nós, sim.
Olhámos uns para os outros, esperando que alguém atendesse.
Ninguém se levantou.
O telefone tocou até desistir.
Minutos depois voltou a tocar.
Desta vez reparei melhor nos rostos em redor. Havia artistas, músicos, casais improváveis, figuras de aparência indefinível, gente que parecia ter saído de um filme de Jim Jarmusch. Todos continuavam a conversar como se aquele telefone fosse apenas mais um elemento da decoração.
Crysler Building
New York
William Van Alen (Arq.)
A noite era quente, húmida e eléctrica.
Nova Iorque respirava pelas ruas.
Durante o jantar fomos recordando o dia.
Falámos da elegância metálica do Chrysler Building iluminado pelo entardecer, da estranha geometria do Flatiron Building e da piada de um nova-iorquino que, ao ouvir os estalidos do edifício, comentou com absoluta naturalidade:
— Someone flushed a toilet.
A frase acompanhou-nos durante toda a viagem. Sempre que alguma coisa nos parecia absurda, bastava repeti-la e tudo fazia sentido.
Mas nada fazia sentido naquele telefone.
Tocava.
Parava.
Voltava a tocar.
Luís Barreira
Flatiron Building (1902 - Daniel Burnham, arq.)
New York
arquivo: FOLIO_524_20063, 2002
Sempre sem que ninguém demonstrasse curiosidade.
A nossa curiosidade, pelo contrário, aumentava a cada minuto.
Chegáramos há poucos dias aos Estados Unidos. Queríamos conhecer museus, galerias, teatros e arranha-céus. Acabáramos, porém, por descobrir outra cidade.
Tudo começara quando uma rapariga nos abordou no átrio do Chelsea Hotel.
— Make me famous.
Sorriu, como quem sabe que as melhores histórias começam por acaso.
Chamava-se Rita.
Foi ela quem nos abriu as portas de uma Nova Iorque subterrânea, muito distante dos roteiros turísticos. Passámos a conhecer festas privadas, ateliers improvisados, músicos, fotógrafos, actores e artistas que faziam da noite um prolongamento natural da criação.
Claude Monet, Water Lilies, 1914/26.
Percebemos então que, naquela cidade, a arte não vivia apenas nos museus.
Andava na rua.
Respirava.
Provocava.
Nesse mesmo dia visitara o MoMA.
Entre tantas obras, uma reteve-me por completo: Water Lilies, de Claude Monet.
Nunca uma pintura me tinha esmagado daquela maneira.
Durante largos minutos esqueci-me de tudo o resto.
Mas bastou regressar ao SoHo para compreender que, em Nova Iorque, a realidade conseguia ser ainda mais surpreendente do que a arte.
O telefone voltou a tocar.
Já não conseguíamos disfarçar a curiosidade.
Os nossos sorrisos começaram a despertar a atenção dos restantes clientes.
Andy Warhol, Campbell's Soup I, 1968.
DFoi então que Rita chegou.
Ao perceber o motivo da nossa inquietação, desatou a rir.
— Ainda não atenderam?
— Atender o quê?
Apontou para o telefone.
— Claro… atendam.
— Mas… quem está a ligar?
Rita encolheu os ombros.
— Descubram.
Esperámos que voltasse a tocar.
Não demorou.
Levantei-me.
Atravessei lentamente a esplanada.
Peguei no auscultador.
— Alô…
Do outro lado instalou-se um breve silêncio.
Depois ouvi uma voz suave, quase sussurrada.
— What’s Your Dirty Fantasy?
Luís Barreira, New York, 1994*.
*extraído de uma longa viagem através dos Estados Unidos da América em 1994.