Public Prayer, Dirty Fantasy

Nova Iorque, 1994

 

 

Muito antes de Dylan Mortimer criar as Public Prayer Booths, Nova Iorque já nos espantava com a sua irreverência e fantasia.

 

Nova Iorque ensinou-me, logo no primeiro dia, que o improvável faz parte da rotina.

Estávamos sentados na esplanada de um café do SoHo quando um telefone público, colocado no centro do recinto, começou a tocar.

Ninguém estranhou.

Nós, sim.

Olhámos uns para os outros, esperando que alguém atendesse.

Ninguém se levantou.

O telefone tocou até desistir.

Minutos depois voltou a tocar.

Desta vez reparei melhor nos rostos em redor. Havia artistas, músicos, casais improváveis, figuras de aparência indefinível, gente que parecia ter saído de um filme de Jim Jarmusch. Todos continuavam a conversar como se aquele telefone fosse apenas mais um elemento da decoração.

Crysler BuildingNew YorkWilliam Van Alen (Arq.)

Crysler Building

New York

William Van Alen (Arq.)

A noite era quente, húmida e eléctrica.

Nova Iorque respirava pelas ruas.

Durante o jantar fomos recordando o dia.

Falámos da elegância metálica do Chrysler Building iluminado pelo entardecer, da estranha geometria do Flatiron Building e da piada de um nova-iorquino que, ao ouvir os estalidos do edifício, comentou com absoluta naturalidade:

— Someone flushed a toilet.

A frase acompanhou-nos durante toda a viagem. Sempre que alguma coisa nos parecia absurda, bastava repeti-la e tudo fazia sentido.

Mas nada fazia sentido naquele telefone.

Tocava.

Parava.

Voltava a tocar.

Luís BarreiraFlatiron Building (1902 - Daniel Burnham, arq.)New Yorkarquivo: FOLIO_524_20063, 2002

Luís Barreira

Flatiron Building (1902 - Daniel Burnham, arq.)

New York

arquivo: FOLIO_524_20063, 2002

Sempre sem que ninguém demonstrasse curiosidade.

A nossa curiosidade, pelo contrário, aumentava a cada minuto.

Chegáramos há poucos dias aos Estados Unidos. Queríamos conhecer museus, galerias, teatros e arranha-céus. Acabáramos, porém, por descobrir outra cidade.

Tudo começara quando uma rapariga nos abordou no átrio do Chelsea Hotel.

— Make me famous.

Sorriu, como quem sabe que as melhores histórias começam por acaso.

Chamava-se Rita.

Foi ela quem nos abriu as portas de uma Nova Iorque subterrânea, muito distante dos roteiros turísticos. Passámos a conhecer festas privadas, ateliers improvisados, músicos, fotógrafos, actores e artistas que faziam da noite um prolongamento natural da criação.



Claude Monet, Water Lilies, 1914/26.

Claude Monet, Water Lilies, 1914/26.

Percebemos então que, naquela cidade, a arte não vivia apenas nos museus.

Andava na rua.

Respirava.

Provocava.

Nesse mesmo dia visitara o MoMA.

Entre tantas obras, uma reteve-me por completo: Water Lilies, de Claude Monet.

Nunca uma pintura me tinha esmagado daquela maneira.

Durante largos minutos esqueci-me de tudo o resto.

Mas bastou regressar ao SoHo para compreender que, em Nova Iorque, a realidade conseguia ser ainda mais surpreendente do que a arte.

O telefone voltou a tocar.

Já não conseguíamos disfarçar a curiosidade.

Os nossos sorrisos começaram a despertar a atenção dos restantes clientes.

Andy Warhol, Campbell's Soup I, 1968.

Andy Warhol, Campbell's Soup I, 1968.

DFoi então que Rita chegou.

Ao perceber o motivo da nossa inquietação, desatou a rir.

— Ainda não atenderam?

— Atender o quê?

Apontou para o telefone.

— Claro… atendam.

— Mas… quem está a ligar?

Rita encolheu os ombros.

— Descubram.

Esperámos que voltasse a tocar.

Não demorou.

Levantei-me.

Atravessei lentamente a esplanada.

Peguei no auscultador.

— Alô…

Do outro lado instalou-se um breve silêncio.

Depois ouvi uma voz suave, quase sussurrada.

 

— What’s Your Dirty Fantasy?


Luís Barreira, New York, 1994*.

*extraído de uma longa viagem através dos Estados Unidos da América em 1994.