Luís Barreira
Árvores em Sintra, 1996
Pintura
acrílico s/tela
30x40 cm
Luís Barreira
Árvores em Sintra, 1996
Pintura
acrílico s/tela
30x40 cm
Luís Barreira
Mulher reclinada, 1996
Acrílico s/tela
160x185 cm
colecção privada: Ana & Carlos Melancia
Jimmie Durham, Hommage to David Hammons, 1996
Luís Barreira
Desenho V, 1996
acrílico s/papel (60x80cm)
Pintura/Desenho
col. particular: Teresa Rodrigues
arquivo: 11_IM000196_desenho_1996, 2002
Luís Barreira
Desenho, 1996
acrílico s/papel (60x80cm)
modelo: escultura da Villa Adriana, Roma
col. particular: Paula Silva
Íris da Sibéria, Lago Baikal
Uma menina siberiana, uma dimensão secreta habitada por sinais tão particulares que os sentidos quase não os conseguem captar. Viagens, por vezes, assombradas por imagens tão fulgurantes que a imaginação mal as consegue reter. Um errante caminheiro que eternamente se perde em divagações e recordações. A referência ao desejo não implica, necessariamente, nas minhas viagens, a representação de personagens ou de situações carnais. Há uma dimensão do desejo que está antes, depois e para além das pessoas conhecidas: é solidão, memória e silêncio.
Nunca soube o nome dela. Aliás, durante a minha estada em Irkutsk, jamais proferiu uma palavra… Durante muito tempo julguei que fosse muda, até ao momento em que o seu canto agudo irrompeu no espaço sagrado de uma pequena igreja situada num ermo siberiano. Creio — não, tenho a certeza — que aquela experiência musical foi a mais marcante da minha vida. Reconhecendo o esplendor litúrgico que permanece (ainda) nas gélidas terras que conheceram os Gulags, mas também a Rússia de Dostoiévski e de Tolstói, assisti a toda a liturgia de pé — por norma, não há bancos nas igrejas ortodoxas —, enquanto a solenidade do rito conquistava o coração dos fiéis.
Encostado a uma imagem evangélica de Cristo, "a paixão do povo russo", segundo Dostoiévski, o diálogo polifónico entre as vozes femininas e o timbre grave do diácono era constantemente elevado pela voz angélica daquela que eu julgara muda: verdadeiramente sublime. Os cânticos ortodoxos e os ícones constituem a memória profunda — talvez a instância fundadora, o ponto de ancoragem mais decisivo — de toda a experiência vivida. É por isso que não posso limitar o desejo concupiscente ao mero reconhecimento das suas expressões secretas.
Luís Barreira
Lago Baikal, Sibéria, 1996
Fotografia
Gelatin Silver print
arquivo: F_224_119, 1996
O clima na Sibéria é severo e, quando chega o degelo e a flora irrompe, as marcas agrestes permanecem patentes a mais de um metro de profundidade: a ideia do gelo perpétuo. Recordo, à medida que a memória se desvanece com o tempo e a história se depura, a figura formosa reflectida num poço pouco profundo. As águas cristalinas, ao nível do solo, não deixavam mentir a donzela espelhada. De cabelos soltos, cruzados por um lenço descaído, guardava o viço e a beleza de uma tenra idade. Um casaco de malha, abotoado de forma irregular, deixava entrever um vestido de chita florido sobre um antecipado corpo de mulher.
Não muito longe, uma datcha de madeira cuidadosamente esculpida, com as janelas pintadas de azul-celeste, é tudo o que a memória ainda enxerga junto ao Lago Baikal. Fui tolhido naquele silêncio apenas interrompido pelo gesto generoso daquela menina, quase mulher, oferecendo-me uma flor autóctone. Poucas flores se podem comparar à graça e à beleza desse gesto arrancado da taiga siberiana. A paz sugerida pelo corpo ondulante da flor, rematado por pétalas azul-violeta, era semelhante ao perfume doce que libertava, interrompido apenas pela brisa macia vinda do lago. Mas que formosura sustentada por um talo melancólico.
Foram raros os momentos que me catapultaram para a lucidez desejada. A taciturna criatura, de olhar tímido, provocava em mim um arrepio inebriante. Além do mais, nenhuma planta é mais bela nem mais confiável do que quando colocada na mão de um vagamundo.
A Íris da Sibéria.
Lago Baikal, 1996