Luís Barreira
"Rocha dos namorados"
coordenadas: 38°26'43.6"N 7°28'32.7"W
A Rocha dos Namorados — a pedra, o corpo e a promessa
A Rocha dos Namorados, em São Pedro do Corval, constitui um dos exemplos mais sugestivos de sobrevivência de uma tradição popular associada à pedra, ao corpo, ao desejo e à fecundidade.
A tradição conta que, na segunda-feira de Páscoa, as raparigas solteiras se dirigem à rocha e lançam uma pequena pedra para o seu topo. O número de tentativas necessárias para conseguir o lançamento é interpretado como o número de anos que ainda faltarão para o casamento. O gesto é simples, mas a sua estrutura simbólica é extraordinariamente complexa: uma mulher lança uma pedra em direcção a uma pedra e, através desse gesto, procura obter uma resposta sobre o seu próprio futuro.
A pedra deixa, assim, de ser apenas pedra.
Transforma-se em oráculo.
É esta transformação da matéria em significado que nos interessa particularmente. O objecto material permanece praticamente inalterado, mas o homem atribui-lhe uma função que ultrapassa a sua natureza física. A rocha torna-se intermediária entre o desejo e aquilo que não pode ser conhecido. Entre a pergunta humana e uma eventual resposta sobrenatural.
Encontramo-nos, portanto, perante uma das manifestações possíveis do corpo poiético: o corpo humano estabelece uma relação com a matéria, produz um gesto e, através desse gesto, produz significado.
A configuração vertical da Rocha dos Namorados permite ainda uma leitura simbólica particularmente sugestiva. A pedra ergue-se da terra, numa forma que a tradição popular aproxima visualmente do menir. A verticalidade introduz uma relação entre dois princípios: aquilo que está enterrado e aquilo que se eleva; a terra e o céu; o feminino e o masculino; a matéria e a fecundidade.
Devemos, contudo, ter cuidado em transformar estas aproximações numa explicação histórica. Não podemos afirmar que os seus construtores ou os participantes da tradição actual possuam necessariamente a mesma cosmologia, nem que a rocha tenha sido originalmente concebida como representação de um órgão sexual. Podemos, isso sim, reconhecer a persistência de uma estrutura simbólica na qual a pedra vertical, a terra, o corpo e a fertilidade se encontram.
É precisamente esta permanência simbólica que torna o fenómeno fascinante.
O que hoje parece superstição pode ser entendido como uma forma arcaica de relação entre o homem e o desconhecido. A jovem que lança a pedra não possui conhecimento sobre o seu futuro. Possui, porém, um desejo. E transforma esse desejo num acto.
Lança a pedra para perguntar ao mundo.
A pedra converte-se, deste modo, numa extensão do corpo.
O braço lança.
A pedra transporta o desejo.
A rocha recebe-o.
E o resultado é interpretado como resposta.
Nesta sequência — corpo / gesto / matéria / símbolo / significado — encontramos uma verdadeira estrutura poiética.
O menir e a fecundidade
Esta leitura torna-se ainda mais interessante quando observamos o contexto megalítico alentejano.
O Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, constitui um dos maiores conjuntos de menires estruturados da Península Ibérica. O recinto apresenta várias fases construtivas e reúne cerca de 95 menires, de formas diversas — entre elas formas ovoides, cilíndricas e estelares. Alguns apresentam incisões, figuras geométricas, motivos serpentiformes e representações antropomórficas. A interpretação arqueológica reconhece a complexidade do monumento e admite possíveis significados astronómicos, embora muitos aspectos da sua função ritual permaneçam desconhecidos.
Nas proximidades encontra-se o Menir dos Almendres, um grande monólito vertical, de forma fálica, com cerca de quatro metros de altura e uma representação de báculo na parte superior. A própria documentação patrimonial admite que o seu significado exacto não pode ser determinado, embora considere possível uma relação com a fecundidade.
Aqui encontramos uma imagem particularmente poderosa:
a pedra enterrada na terra e erguida em direcção ao céu.
A verticalidade pode ser lida como uma forma de ligação entre mundos. A pedra nasce da terra mas eleva-se acima dela. É simultaneamente raiz e eixo, matéria e sinal, corpo e símbolo.
Se acrescentarmos a esta imagem a tradição da Rocha dos Namorados, encontramos uma cadeia simbólica particularmente sugestiva:
A terra, a pedra, o corpo, a fecundidade, o nascimento e o futuro.
Não precisamos de pressupor a existência de uma religião única da fertilidade para reconhecer a força desta associação.
A pedra que fecunda e o ovo que gera
É aqui que a Rocha dos Namorados pode ser aproximada do ovo da Páscoa.
À primeira vista, pedra e ovo parecem pertencer a universos completamente diferentes. Uma é dura, mineral e aparentemente estéril; o outro é orgânico, frágil e contém potencialmente uma nova vida.
Mas simbolicamente podem desempenhar uma função semelhante.
A pedra é colocada na terra.
O ovo contém a vida.
A pedra ergue-se.
O ovo abre-se.
Uma estabelece uma relação entre a terra e o céu; o outro estabelece uma passagem entre o interior e o exterior.
Ambos são corpos fechados que anunciam uma possibilidade.
A diferença é fundamental: a pedra representa sobretudo a permanência; o ovo representa a transformação. A pedra parece dizer “permaneço”; o ovo parece dizer “vou nascer”.
É precisamente nesta tensão que podemos compreender a passagem do símbolo da fertilidade para o símbolo da renovação.
Da fertilidade à Páscoa
As celebrações da Primavera foram, em diferentes culturas, acompanhadas por símbolos de renovação, fecundidade e abundância. É tentador construir uma genealogia directa entre todas essas tradições — por exemplo, entre as divindades mesopotâmicas, mediterrânicas e europeias e a Páscoa cristã —, mas essa continuidade não pode ser estabelecida de forma linear.
É mais prudente falar de camadas simbólicas que se sobrepõem ao longo do tempo.
O cristianismo introduziu uma nova interpretação fundamental: a Ressurreição.
A Primavera pode simbolizar o renascimento da Natureza; o ovo pode simbolizar o nascimento de uma vida; a semente pode simbolizar o reaparecimento daquilo que parecia morto. A Ressurreição cristã, porém, desloca esta estrutura para um plano teológico: Cristo passa da morte à vida.
A antiga linguagem da renovação encontra, assim, uma nova linguagem religiosa.
Não é necessário afirmar que o ovo cristão deriva directamente de um determinado culto pagão para perceber a extraordinária afinidade entre as duas estruturas simbólicas:
Entre a morte, a espera, a ruptura e o nascimento.
O ovo e a mulher
Esta relação encontra uma expressão particularmente eloquente na iconografia da Fecundidade de Cesare Ripa.
A figura feminina é acompanhada por animais e crias: pintassilgos, galinhas, pintos, lebres e ovos. O conjunto organiza uma verdadeira gramática visual da abundância. Cada elemento participa de uma mesma ideia: a capacidade de gerar, multiplicar e assegurar a continuidade da vida.
O ovo ocupa aqui uma posição essencial.
É simultaneamente corpo e conteúdo.
É uma forma que contém outra forma.
É uma vida potencial escondida dentro de uma matéria aparentemente inerte.
Por isso, o ovo talvez seja uma das mais poderosas imagens da fecundidade: não representa apenas aquilo que nasceu, mas aquilo que ainda está para nascer.
E regressamos novamente à Rocha dos Namorados.
A jovem lança a pedra porque deseja conhecer aquilo que ainda não aconteceu.
O ovo encerra aquilo que ainda não nasceu.
Em ambos os casos, o presente contém uma pergunta dirigida ao futuro.
A pedra pergunta pelo casamento.
O ovo promete a vida.
A matéria transforma-se em linguagem.
O corpo poiético
Talvez seja este o verdadeiro ponto de encontro entre a Rocha dos Namorados, o menir e o ovo.
O ser humano não se limita a observar o mundo. Produz relações simbólicas com ele.
Toca a pedra.
Lança a pedra.
Ergue a pedra.
Enterra a pedra.
Pinta o ovo.
Oferece o ovo.
Esconde o ovo.
Parte o ovo.
Em cada um destes gestos, o corpo humano transforma uma matéria natural num acontecimento cultural.
É por isso que podemos falar de corpo poiético.
O corpo é o primeiro instrumento da criação. É através dele que o homem toca, transporta, constrói, lança, pinta, esculpe e transforma. Mas é também através dele que transforma uma experiência em símbolo.
A Rocha dos Namorados permanece no lugar.
O menir permanece erguido.
O ovo permanece fechado.
Mas o homem aproxima-se deles com os seus desejos.
E talvez seja essa a característica mais profunda da experiência simbólica: não é a matéria que muda; é o olhar humano que a transforma.
A pedra torna-se oráculo.
O menir torna-se eixo.
O ovo torna-se promessa.
E o corpo torna-se o lugar onde todas estas imagens se encontram.
O ovo contém em si o mistério da vida.
A pedra contém a memória do homem.
E o corpo contém o desejo de compreender ambos.
texto escrito em 1991
