Barrete Frígio

14 JULHO

Barrete Frígio da Revolução Francesa

Barrete Frígio da Revolução Francesa

O barrete frígio: cortar o nó górdio

 

O barrete frígio: cortar o nó górdio

 

O barrete frígio, que viria a transformar-se num dos mais poderosos símbolos da Revolução Francesa de 1789, transporta consigo uma história muito mais antiga do que a própria ideia de revolução. A sua origem remete-nos para a Frígia, região da Ásia Menor, povoada por histórias, mitos e personagens lendárias que a tradição clássica haveria de perpetuar.

É precisamente dessa região que nos chegam três figuras emblemáticas: Górdio, Midas e Migdão. Górdio, um simples camponês, tornou-se rei graças a uma profecia; Midas, seu filho, ficou célebre pelo extraordinário poder de transformar em ouro tudo aquilo em que tocava; e Migdão surge nas narrativas míticas associado aos conflitos entre os frígios e as amazonas. Entre estas personagens, porém, é Górdio quem nos oferece uma das metáforas mais persistentes da cultura ocidental: o nó górdio.

Conta a tradição que, depois da morte do rei da Frígia sem deixar descendência, o oráculo anunciou que o próximo soberano seria aquele que chegasse à cidade num carro de bois. A profecia cumpriu-se através de Górdio, um camponês que, inesperadamente, foi conduzido ao trono. Para não esquecer a sua humilde origem, Górdio depositou no templo de Zeus a carroça que o havia conduzido à cidade e amarrou-a a uma coluna com um enorme e intrincado nó.

O nó tornou-se célebre porque ninguém conseguia desatá-lo. A tradição acrescentou então uma nova profecia: aquele que conseguisse desfazê-lo seria destinado a conquistar a Ásia.

Durante séculos, o desafio permaneceu por resolver. Até que, em 334 a.C., Alexandre, o Grande, passou pela Frígia. Ao ouvir a história, dirigiu-se ao templo para observar o famoso nó. Depois de o examinar, em vez de procurar a solução dentro das regras que haviam mantido todos os outros prisioneiros do problema, desembainhou a espada e cortou-o.

Pouco importa saber onde termina a história e começa a lenda. O essencial é a metáfora. Alexandre não desatou o nó: cortou-o. Encontrou uma solução que rompeu com a própria lógica do problema.

É precisamente daqui que nasce a expressão “cortar o nó górdio”, utilizada para designar a resolução rápida e radical de uma questão aparentemente insolúvel. Mais do que encontrar uma resposta dentro das regras existentes, significa questionar as próprias regras que tornaram o problema impossível de resolver.

E talvez seja aqui que o barrete frígio encontre a sua verdadeira dimensão simbólica.

Quando, muitos séculos depois, o barrete passa a ser associado à liberdade, à emancipação e à Revolução Francesa, deixa de ser apenas um elemento de vestuário para se transformar numa imagem política. Colocado sobre a cabeça dos revolucionários, torna-se símbolo daquele que rompe com a ordem estabelecida e se recusa a aceitar como inevitável aquilo que parecia impossível de transformar.

O barrete torna-se, assim, uma espécie de coroa da liberdade: não pertence ao rei, mas ao cidadão; não representa a submissão, mas a emancipação. É a inversão simbólica da velha ordem. Onde antes existia uma coroa que legitimava o poder de um soberano, surge agora um barrete que proclama a liberdade daquele que decide o seu próprio destino.

E aqui podemos regressar a Górdio e a Alexandre.

O nó górdio representa o problema aparentemente insolúvel; o barrete frígio, a vontade de o enfrentar. Um simboliza a dificuldade, o outro a ruptura. Entre ambos encontramos uma mesma ideia: quando as soluções convencionais deixam de funcionar, talvez seja necessário mudar a pergunta, romper a regra ou, simplesmente, cortar o nó.

Midas acrescenta ainda uma outra dimensão a esta metáfora. Se Górdio representa aquele que se confronta com o impossível e Alexandre aquele que encontra uma solução radical, Midas representa o desejo de transformar o mundo através do poder que lhe foi concedido. Mas o seu dom rapidamente se transforma numa maldição: tudo aquilo em que toca converte-se em ouro, incluindo aquilo de que necessita para viver.

Talvez a lição seja precisamente esta: nem todos os problemas se resolvem com mais poder, mais riqueza ou mais força. Alguns exigem imaginação.

É por isso que o barrete frígio pode ser entendido como símbolo daqueles que ousam “pensar fora da caixa”. Daqueles que não aceitam o mundo como uma realidade acabada e que, perante os nós górdios da existência, procuram uma outra possibilidade.

A história da Frígia oferece-nos, assim, duas imagens extraordinariamente atuais: o nó que parece impossível de desatar e a espada que ousa cortá-lo.

Como escreveria Shakespeare, fazendo eco desta velha metáfora, há quem seja capaz de resolver o “nó górdio” com a mesma facilidade com que se desata uma jarreteira.

Talvez a verdadeira revolução comece precisamente aí: quando alguém deixa de tentar desatar o nó e decide cortá-lo.

 

Texto: 2017 © Luís Carvalho Barreira