A serpente da Pena

«Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.»

Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)

Virgil SolisApolo matando Píton, gravura de 1581, para a Metamorfoses, de Ovídio, livro I.créditos: wikipedia

Virgil Solis

Apolo matando Píton, gravura de 1581, para a Metamorfoses, de Ovídio, livro I.

créditos: wikipedia

A serpente da Pena — De rerum natura

Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.

— Inscrição no Oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios da Grécia (c. 650–550 a.C.)

No sopé do monte Parnaso, em Delfos, brotam várias nascentes. Entre elas, a mais célebre é a Fonte Castália, assim chamada em honra de Castália, uma das náiades, ninfas das águas doces. Rodeada por loureiros consagrados a Apolo, a fonte tornou-se, ao longo do tempo, parte integrante do imaginário religioso e mitológico de Delfos.

Segundo a tradição mitológica, era junto destas águas que divindades, musas e náiades se reuniam e, ao som da lira de Apolo, cantavam acompanhando o incessante murmúrio da nascente — a “água falante”.

Delfos era, contudo, muito mais do que um lugar de beleza natural. Era um lugar de revelação.

Ali se encontrava o oráculo, inicialmente consagrado a Témis, deusa da justiça e da ordem divina. A sua guardiã era Píton, a serpente monstruosa que Apolo haveria de matar. Depois da vitória do deus, a serpente daria o seu nome ao próprio lugar — Pytho — e as sacerdotisas do oráculo passariam a ser conhecidas como pitonisas.

A serpente, derrotada por Apolo, não desaparece inteiramente do imaginário de Delfos. Permanece como símbolo do lugar que guarda o conhecimento oculto, a passagem entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses.

É precisamente aqui que começa a nossa interrogação.

Terá a lenda de Delfos inspirado, consciente ou inconscientemente, a criação da gruta da serpente da Pena?

Sintra, lugar de poesia

As imagens românticas da serra de Sintra estão todas impregnadas de poesia.

Não há recanto, árvore, planta, caminho ou gruta que não pareça ter sido retirado de uma fantasia onírica. A serra não é apenas natureza: é natureza transformada pelo olhar humano.

Muito se tem escrito sobre o revivalismo arquitectónico do Palácio da Pena, sobre as suas origens e sobre a extraordinária conjugação de estilos que fazem dele uma das mais singulares expressões do Romantismo português. Fala-se igualmente da flora trazida dos quatro cantos do mundo, que confere ao parque um exotismo luxuriante; dos caminhos sinuosos que acompanham a orografia da serra e que, a cada curva, revelam novas perspectivas; das rochas, dos cursos de água, das grutas e da fauna que encontrou neste território um lugar de eleição.

Tudo parece ter sido pensado para surpreender.

Mas Sintra não é apenas um cenário romântico. É também uma construção intelectual.

Por detrás da exuberância do Palácio da Pena existe um imaginário muito mais antigo, no qual se cruzam a tradição clássica, o Neoclassicismo, o Romantismo, a literatura arcádica e uma determinada concepção idealizada da Natureza.

Entre Arcádia e Romantismo

O movimento neoclássico do final do século XVIII, bem como a tradição literária da Arcádia, deixou uma marca profunda no imaginário europeu. A Natureza aparece aí como espaço de felicidade, simplicidade, equilíbrio e comunhão.

É a paisagem idealizada do lugar onde o homem pode reencontrar uma existência mais simples, distante da corrupção da sociedade e próxima de uma Natureza entendida como ordem.

É neste território imaginário que encontramos a figura do “nobre selvagem”: o homem que, afastado das convenções da civilização, permanece próximo de uma suposta condição natural.

D. Fernando II, homem culto e profundamente interessado pelas artes, pela literatura e pela cultura europeia, não terá sido indiferente a este universo.

A Pena é, nesse sentido, muito mais do que um palácio.

É uma paisagem construída.

Uma paisagem onde a arquitectura, a botânica, a geologia, a mitologia e a literatura se encontram.

A Natureza não é simplesmente contemplada: é organizada, interpretada e transformada numa experiência estética.

É de rerum natura — sobre a natureza das coisas — mas de uma Natureza recriada pelo homem.

A serpente

E é neste contexto que encontramos a serpente.

Numa nascente que brota das entranhas da serra de Sintra, uma serpente surge associada a uma gruta. A imagem é suficientemente sugestiva para despertar uma associação imediata com Píton, a serpente que guardava o oráculo de Témis em Delfos.

A comparação não significa, necessariamente, que D. Fernando II tenha pretendido reproduzir deliberadamente o mito de Delfos. Não possuímos, pelo menos à partida, uma prova documental que nos permita afirmar tal intenção.

Mas a ausência de prova não impede a interpretação.

Porque a história da arte também se constrói através das relações entre imagens, símbolos, lugares e tradições.

E a serpente é um símbolo demasiado antigo e demasiado poderoso para ser ignorado.

Ela habita as profundezas da terra.

Move-se silenciosamente.

Guarda aquilo que está escondido.

É simultaneamente símbolo de ameaça, conhecimento, regeneração e passagem.

Em Delfos, Píton guardava o lugar oracular antes da chegada de Apolo.

Na Pena, a serpente guarda uma nascente escondida na montanha.

Num caso e noutro, a serpente encontra-se associada a um lugar subterrâneo onde a água emerge da terra.

Num caso e noutro, a natureza parece esconder qualquer coisa que necessita de ser revelada.

O oráculo de D. Fernando II

É aqui que a nossa interpretação pode ir mais longe.

Se Delfos era o lugar onde os homens procuravam ouvir a voz dos deuses, poderá a gruta da serpente da Pena ser entendida como uma espécie de oráculo privado de D. Fernando II?

A pergunta não pretende afirmar uma realidade histórica que não conseguimos demonstrar. É antes uma hipótese poética e simbólica.

D. Fernando II construiu em Sintra um universo onde a natureza parece falar.

As árvores vindas de lugares distantes, as ruínas, as fontes, os caminhos sinuosos, as grutas, as rochas, os lagos, os palácios e os elementos arquitectónicos encontram-se numa espécie de composição total.

Tudo parece esconder uma história.

Tudo parece querer dizer alguma coisa.

A própria experiência de percorrer o parque corresponde a uma sucessão de revelações. O caminho desaparece, reaparece; a vegetação esconde e revela; uma rocha conduz a uma passagem; uma fonte emerge inesperadamente; uma ruína sugere um passado que nunca conhecemos inteiramente.

A paisagem transforma-se numa narrativa.

E, dentro dessa narrativa, a serpente pode assumir a função de guardiã.

De rerum natura

Talvez seja esta a verdadeira aproximação entre Delfos e a Pena.

Não a reprodução literal de um mito, mas a permanência de uma ideia muito mais antiga: a Natureza como lugar de conhecimento.

O homem entra na paisagem para procurar aquilo que não consegue encontrar em si mesmo.

“Conhece-te a ti mesmo.”

A inscrição de Delfos contém uma das grandes interrogações da cultura ocidental. Conhecer o homem implica conhecer os seus limites, os seus deuses e o universo que o rodeia.

Na Pena, D. Fernando II parece inverter a questão.

Em vez de procurar a Natureza fora do homem, constrói uma Natureza que permita ao homem reencontrar-se.

A serra torna-se palco, a arquitectura torna-se narrativa e a paisagem transforma-se numa espécie de texto.

E talvez seja por isso que a serpente seja tão importante.

Ela está onde deve estar: junto da água, dentro da terra, à entrada do desconhecido.

Não fala.

Não precisa de falar.

Guarda.

Guarda a nascente, guarda a gruta, guarda o segredo.

E, como Píton em Delfos, permanece silenciosa diante daqueles que procuram uma resposta.

Será então a serpente da Pena uma reminiscência de Píton?

Será apenas uma coincidência iconográfica?

Ou será, como gostamos de imaginar, o guardião de um pequeno oráculo construído por D. Fernando II no coração da serra?

Não sabemos.

Mas talvez seja precisamente essa a função do símbolo: não oferecer uma resposta definitiva, mas obrigar-nos a continuar a perguntar.

A serpente da Pena está lá.

Será o oráculo de D. Fernando II?

Serpente da PenaPalácio da Pena (Parque)foto: Luís Barreira

Serpente da Pena

Palácio da Pena (Parque)

foto: Luís Barreira

 

texto: 2016 © Luís Carvalho Barreira