Andrea del Brescianino
Madonna amamenta o Menino, século XVI
Museo d'Arte Sacra, Siena
Há imagens cuja simplicidade aparente esconde uma extraordinária densidade simbólica. É o caso desta Madonna amamentando o Menino, atribuída a Andrea del Brescianino, pintor ativo em Siena no século XVI.
À primeira vista, estamos perante uma representação familiar da Virgem com o Menino: Maria oferece o seio a Cristo, num gesto simultaneamente íntimo e sagrado. Mas é precisamente nessa intimidade que reside a força da imagem.
A Virgem deixa de ser apenas a Theotokos, a Mãe de Deus, para se apresentar como mulher e mãe. O corpo feminino, que tantas vezes foi objeto de desejo na pintura profana, transforma-se aqui em instrumento de vida e salvação. O seio que alimenta o Menino é também o símbolo da humanidade de Cristo: aquele que é Deus aceita a condição de criança, necessita de alimento e depende do corpo materno.
É uma imagem profundamente carnal.
E é precisamente essa dimensão física que torna possível compreender a sua dimensão teológica.
Maria alimenta aquele que, segundo a tradição cristã, será o alimento espiritual da humanidade.
O leite materno torna-se, assim, uma espécie de antecipação da Eucaristia: a mãe alimenta o Filho que, por sua vez, oferecerá o próprio corpo para a salvação dos homens.
A composição ganha ainda maior significado através das duas figuras que a acompanham.
À direita: São Jerónimo
À direita encontra-se São Jerónimo, uma das grandes figuras intelectuais do cristianismo ocidental.
A sua importância para a história da Igreja está profundamente ligada ao estudo das Escrituras. O seu trabalho de tradução e revisão dos textos bíblicos deu origem àquilo que viria a ser conhecido como Vulgata, a tradução latina da Bíblia que desempenhou um papel fundamental na tradição da Igreja ocidental.
Mas São Jerónimo interessa-nos aqui por uma outra razão.
Entre os temas defendidos na sua produção teológica encontra-se a virgindade perpétua de Maria.
A presença de Jerónimo junto da Madonna amamentando o Menino deixa, portanto, de ser meramente decorativa. Ele funciona como uma espécie de garante intelectual da imagem.
A mulher que vemos é mãe.
Mas continua virgem.
É precisamente esta aparente contradição — maternidade e virgindade — que a teologia cristã transforma em mistério.
A representação do corpo materno não nega a virgindade de Maria; pelo contrário, torna visível o paradoxo central da sua condição.
Maria é mulher sem deixar de ser Virgem.
É mãe sem deixar de ser símbolo da pureza.
É carne sem deixar de representar o divino.
À esquerda: São João Batista
Do lado oposto encontramos São João Batista, reconhecível pela inscrição:
Ecce Agnus Dei, ecce Qui tollit peccatum mundi.
“Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo.”
São João Batista é aquele que anuncia Cristo.
A sua função na composição é, por isso, extraordinariamente importante. Enquanto Jerónimo explica e legitima a dimensão teológica da Virgem, João Batista anuncia a missão futura do Menino.
O pequeno Cristo que agora se alimenta do seio da mãe é simultaneamente o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus.
Temos, assim, diante dos nossos olhos três momentos condensados numa única imagem:
o nascimento, a maternidade e a redenção.
O Menino que mama é o mesmo Cristo que João Batista anunciará como Salvador.
Entre o leite e o sangue
É possível ir ainda mais longe nesta leitura.
O leite materno pertence ao universo do nascimento, da proteção e da vida. O sangue pertence ao universo da Paixão, do sacrifício e da morte.
Entre os dois encontra-se Cristo.
A pintura parece, assim, condensar toda a narrativa cristã num gesto extremamente simples: uma mãe alimenta o seu filho.
Mas sabemos que esse filho não é apenas uma criança.
É o Deus encarnado.
E é aqui que a pintura religiosa do Renascimento revela uma das suas maiores capacidades: transformar um gesto quotidiano numa metáfora teológica.
Maria alimenta Cristo com o seu próprio corpo.
Cristo oferecerá o seu próprio corpo pela humanidade.
O círculo fecha-se.
A maternidade torna-se profecia.
O gesto de amor transforma-se em anúncio da Paixão.
E o pequeno Menino, aparentemente indefeso, transporta já consigo o destino do Cordeiro de Deus.
A presença simultânea de São Jerónimo e São João Batista reforça precisamente essa dupla leitura: um explica o mistério; o outro anuncia o seu cumprimento.
A Madonna deixa, então, de ser apenas uma imagem de ternura.
É uma imagem sobre a Encarnação, a maternidade, a virgindade e o sacrifício.
