Hieronymus Bosch

Hieronymus Bosch

Inferno - Os Sete Pecados Mortais (detalhe)

c.1505-1510

óleo s/madeira

139.5 cm X 119.5 cm

Museo del Prado

Os Sete Pecados Capitais e os Quatro Novíssimos do Homem é uma das obras mais conhecidas de Hieronymus Bosch e apresenta uma profunda reflexão sobre o comportamento humano, o pecado e o destino da humanidade. A obra foi concebida originalmente como o tampo de uma mesa e, segundo alguns estudiosos, poderá ter tido uma função relacionada com a meditação religiosa e o exame de consciência realizado pelos cristãos antes da confissão.

A composição organiza-se em torno de um grande círculo central, dividido em sete cenas que representam os sete pecados capitais: Gula, Preguiça, Luxúria, Soberba ou Vaidade, Ira, Inveja e Avareza. Em torno do círculo encontram-se quatro medalhões que representam os chamados Quatro Novíssimos do Homem: Morte, Juízo Final, Inferno e Paraíso.

O olho de Deus

No centro da composição encontra-se a figura de Cristo ressuscitado, representado dentro da pupila de um grande olho. Cristo aparece sobre o túmulo, mostrando as suas chagas. Ao redor da imagem encontram-se raios dourados e a inscrição latina Cave, cave, Deus videt, que significa “Cuidado, cuidado, Deus vê”.

O olho funciona como uma representação simbólica do olhar de Deus, que observa permanentemente as acções humanas. A partir desse elemento central, o espectador é conduzido pelas diferentes cenas dos pecados, como se estivesse diante de um julgamento moral das acções humanas.

Os sete pecados capitais

As sete cenas apresentam situações do quotidiano nas quais os seres humanos se deixam dominar pelos vícios.

  • Gula: duas pessoas comem exageradamente aquilo que lhes é servido. Um homem bebe directamente de um jarro de vinho, enquanto uma criança obesa pede mais comida. A cena representa o excesso e a incapacidade de controlar o desejo de comer e beber.

  • Preguiça: um homem encontra-se sentado e adormecido, enquanto uma mulher, segurando um rosário, procura recordar-lhe os seus deveres espirituais. A imagem representa a negligência e a falta de dedicação à vida religiosa e às responsabilidades pessoais.

  • Luxúria: três casais de amantes encontram-se numa tenda, rodeados por instrumentos musicais, comida e vinho. O ambiente evidencia a entrega aos prazeres sensuais e mundanos.

  • Soberba ou Vaidade: uma mulher contempla-se diante de um espelho, aparentemente preocupada com a sua aparência. O espelho é segurado por um demónio, detalhe que reforça a dimensão moral da cena. A mulher está tão concentrada na própria imagem que não percebe quem segura o espelho.

  • Ira: dois homens, aparentemente depois de saírem de uma taberna, envolvem-se numa luta, enquanto uma mulher tenta separá-los. A cena representa a perda do controlo provocada pela raiva e pela violência.

  • Inveja: um homem observa com ciúme outro indivíduo, aparentemente seu rival. A cena representa o desejo pelo que pertence aos outros e o sofrimento provocado pela comparação e pelo ressentimento.

  • Avareza: um juiz recebe um suborno enquanto exerce a sua função. Bosch utiliza esta situação para representar a corrupção e o poder destrutivo da busca excessiva por dinheiro e riqueza.

Os quatro Novíssimos do Homem

Nos quatro cantos da composição estão representadas as quatro etapas finais da existência humana: Morte, Juízo Final, Inferno e Paraíso.

Na cena da Morte, um homem encontra-se no leito de morte, rodeado por figuras religiosas e possivelmente por um familiar. Um anjo e um demónio aparecem junto à cabeceira, enquanto a Morte se aproxima. A imagem recorda ao espectador que ninguém pode escapar ao fim da vida.

No Juízo Final, Cristo aparece rodeado de santos e anjos, enquanto os mortos ressuscitam para serem julgados de acordo com as suas acções. A cena estabelece uma relação directa entre a vida terrena e o destino após a morte.

No Paraíso, Cristo surge no seu trono, rodeado por anjos e santos. Os homens considerados justos são recebidos pelos habitantes do mundo celestial, representando a recompensa destinada aos eleitos.

No Inferno, os pecadores são submetidos a diferentes formas de sofrimento e tortura. A representação procura provocar no observador o temor das consequências de uma vida dominada pelo pecado.

O significado moral da obra

As inscrições em latim reforçam a mensagem moral da composição. Na parte superior, encontra-se uma passagem que alerta para a insensatez humana e para a necessidade de compreender aquilo que aguarda os homens. Na parte inferior, outra inscrição apresenta a indignação de Deus perante a infidelidade e a perversidade dos seus filhos.

A estrutura da obra estabelece, assim, uma relação entre pecado, julgamento e destino após a morte. Bosch apresenta os vícios humanos não apenas como comportamentos moralmente condenáveis, mas como escolhas que podem determinar o destino eterno do indivíduo.

A ideia fundamental da composição é, portanto, a necessidade de o ser humano examinar a própria consciência e reflectir sobre as consequências dos seus actos. O observador é colocado diante de um espelho moral: ao contemplar os comportamentos representados, é levado a reconhecer os próprios vícios e a considerar a possibilidade da condenação ou da salvação.

Dessa forma, a obra de Bosch combina religião, moralidade e crítica social. A representação dos pecados através de cenas do quotidiano torna a mensagem acessível e, ao mesmo tempo, inquietante. O artista não apresenta apenas personagens abstractas, mas homens e mulheres envolvidos em situações concretas de excesso, desejo, violência, inveja, vaidade e corrupção.

Os quatro medalhões completam essa mensagem ao recordar que a vida humana é passageira e que a morte conduz inevitavelmente ao julgamento. Por isso, Os Sete Pecados Capitais e os Quatro Novíssimos do Homem pode ser entendida como uma advertência visual: diante do olhar de Deus, as acções humanas têm consequências, e a vida terrena deve ser acompanhada de reflexão moral e espiritual.

Segundo alguns estudiosos, a própria utilização da pintura como tampo de uma mesa poderá estar relacionada com essa função de advertência e meditação. A obra poderia acompanhar momentos quotidianos e, simultaneamente, estimular o espectador a realizar um exame de consciência, particularmente antes da confissão. Bosch transforma, assim, uma superfície destinada ao uso quotidiano numa representação complexa da condição humana e do destino do homem depois da morte.

2002 © Luís Barreira