Os artistas criam, mas a Arte — essa — é obra dos Homens.

 

Francois-Joseph Heim (1787-1865)

Charles X galardoando os artista do Salão de 1824 no Louvre.

O que é a Arte? Será a Arte indizível?

A Arte é…

Aceitemos, como ponto de partida, a conhecida definição de Dino de Formaggio: «A arte é tudo aquilo a que os homens chamam de arte.»

Esta afirmação não procura propriamente definir o que é a Arte. Em vez disso, coloca a questão da sua validação: aquilo que é considerado arte depende, em grande medida, dos homens e das comunidades que legitimam determinados objetos, práticas e experiências como artísticos. Museus, academias, críticos, artistas, historiadores, instituições e comunidades participam, assim, na construção daquilo que entendemos por Arte.

Surge então uma pergunta fundamental:

Sempre foi assim?

Os artistas criam, mas a Arte — enquanto conceito e instituição — é também uma construção humana.

A concepção contemporânea de Arte é, em grande parte, herdeira do academismo desenvolvido a partir do século XVII e, sobretudo, da tradição das Belas-Artes, associada ao pensamento enciclopedista e às transformações culturais desencadeadas pela Revolução Francesa. Esta concepção distancia-se da tradição medieval dos métiers, isto é, das artes aplicadas e dos ofícios desenvolvidos nas guildas e pelos mestres artesãos.

Mesmo quando a arte contemporânea questiona a própria existência da obra, da ideia ou da materialidade artística, a relação entre obra e espectador continua a ser fundamental. A experiência artística nasce precisamente desse encontro entre aquilo que é apresentado e o olhar de quem observa, interpreta e atribui significado.

Por isso, a obra não pode ser completamente separada da sua dimensão formal. Mesmo quando a arte procura destruir a forma, negar a obra ou questionar a própria ideia de arte, permanece alguma coisa que pode ser experienciada, interpretada e discutida esteticamente.

 

O artista e a memória

Todo o artista é, de certo modo, herdeiro da memória artística da humanidade.

Antes de desenvolver uma linguagem própria, o artista dialoga com aquilo que recebeu dos seus antecessores. As suas obras carregam referências, influências, imagens, técnicas e ideias provenientes de outros tempos e de outros artistas.

O artista é, portanto, simultaneamente criador e continuador.

Com o tempo, porém, desenvolve a sua própria voz. A obra deixa de ser apenas uma repetição do passado e passa a constituir uma nova possibilidade de olhar para o mundo.

Mas uma obra de arte nunca possui uma interpretação única e definitiva. Cada época, cada cultura e cada espectador podem encontrar nela novos significados. A obra permanece aberta a novos pontos de vista, novas interpretações e novas experiências estéticas.

É por isso que uma obra de arte não pode ser reduzida a uma explicação causal. Podemos estudar as suas circunstâncias históricas, compreender as intenções do artista, analisar os seus elementos formais ou recorrer a teorias para interpretá-la. No entanto, nenhuma dessas explicações consegue esgotar completamente aquilo que a obra significa.

A obra de arte pode ser explicada, mas nunca completamente encerrada numa explicação.

 

A Arte como interpretação

Aquilo que hoje consideramos uma obra de arte nem sempre foi produzido com essa intenção.

Muitos objectos actualmente expostos em museus foram originalmente criados com funções religiosas, políticas, funerárias, decorativas ou utilitárias. Da mesma forma, aquilo que hoje valorizamos como arte poderá deixar de ser considerado artístico no futuro.

O conceito de Arte está, portanto, em permanente transformação.

Interpretar os fenómenos artísticos significa reconhecer que a nossa própria ideia de “obra de arte” depende do tempo, da cultura e da sociedade em que vivemos.

Não existe, por isso, um olhar absolutamente neutro. Cada interpretação parte de uma determinada época, de determinados valores e de uma determinada experiência humana.

O espectador não é apenas alguém que observa passivamente. Ele participa na construção do significado da obra.

 

A relação entre sujeito e objecto

Neste sentido, podemos compreender a Arte como uma relação entre sujeito e objecto.

A obra existe enquanto objecto, mas a experiência artística acontece no encontro entre esse objecto e aquele que o contempla.

Nós mudamos e, por consequência, as obras também mudam connosco.

A mesma pintura pode provocar diferentes sentimentos e interpretações em pessoas diferentes, ou até na mesma pessoa em momentos distintos da sua vida. Uma obra observada na juventude pode adquirir um significado completamente diferente muitos anos depois.

A realidade encontra-se, tal como nós próprios, num permanente processo de transformação. Espaço, tempo, memória e experiência participam desse movimento contínuo.

A obra de arte nunca está completamente acabada porque cada novo olhar pode recriá-la simbolicamente.

 

O Corpo Poiético

Se procurarmos um elemento comum entre o artista e a Arte, podemos encontrar o corpo.

É através do corpo que o artista vê, sente, pensa, cria e transforma a matéria. É também através do corpo que o espectador observa, experimenta e sente a obra.

O corpo torna-se, assim, um lugar de passagem entre a experiência interior e o mundo exterior.

É neste sentido que podemos falar do Corpo Poiético: o corpo enquanto lugar de criação, transformação e produção de sentido.

A Arte não nasce apenas de uma ideia abstracta. Ela envolve o corpo, a memória, a experiência, a percepção, a emoção e a relação com o mundo.

 

A Arte é indizível?

Talvez seja precisamente aqui que se encontre a dificuldade de definir a Arte.

Podemos falar sobre uma obra, descrevê-la, contextualizá-la, analisá-la historicamente, interpretá-la filosoficamente ou estudar a sua forma. Mas existe sempre alguma coisa que escapa à linguagem.

A experiência estética não é totalmente traduzível em palavras.

Por isso, podemos dizer que a Arte é indizível, não porque não possa ser discutida ou interpretada, mas porque nenhuma linguagem consegue esgotar aquilo que uma obra pode provocar em nós.

A Arte permanece aberta.

Aberta ao tempo, à memória, ao olhar, à interpretação e à experiência.

A Arte é a nossa faculdade de espanto.

É a capacidade de olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer e descobrir algo inesperado.

É a possibilidade de ver, sentir e pensar de outra maneira.

E talvez seja precisamente por isso que a Arte nunca possa ser definida de forma definitiva: porque, enquanto nós mudarmos, também mudará aquilo que somos capazes de ver numa obra.

 

 



A Arte é a nossa faculdade de espanto, 2000 © Luís Carvalho Barreira


[1] extraído da tese de mestrado em teorias da arte - Faculdade de Belas Artes, no ano 2 mil.