Caravaggio — David com a cabeça de Golias, c. 1610
O Belo, o Horror, a Arte
Numa das salas da Galleria Borghese encontra-se uma das últimas obras de Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio: David com a cabeça de Golias, pintada por volta de 1610.
A pintura representa o episódio bíblico em que o jovem David, depois de derrotar Golias, apresenta a cabeça do gigante. Caravaggio, porém, transforma a cena numa reflexão muito mais complexa sobre violência, culpa, arrependimento e redenção.
David segura a cabeça de Golias pelo cabelo, enquanto o seu corpo permanece parcialmente oculto pela escuridão. A luz incide sobre o jovem e sobre o rosto ensanguentado do gigante, criando um contraste violento entre a beleza serena de David e o horror da morte.
Um dos aspectos mais perturbadores da obra é o facto de Caravaggio ter representado o próprio rosto na cabeça de Golias. A identificação é geralmente interpretada como uma possível manifestação de arrependimento e de consciência da própria mortalidade. Caravaggio havia cometido um homicídio em Roma, em 1606, e passou os últimos anos da sua vida em fuga e procurando obter o perdão papal.
David, por sua vez, não aparece como um herói triunfante. O seu olhar é melancólico e compassivo. A espada que segura traz a inscrição H-AS OS, geralmente interpretada como uma abreviação de Humilitas occidit superbiam — «A humildade mata o orgulho». Assim, a vitória de David sobre Golias transforma-se também numa vitória moral da humildade sobre a soberba.
A pintura possui, portanto, uma dimensão autobiográfica particularmente intensa. David pode ser simultaneamente o vencedor e aquele que concede a possibilidade de salvação ao próprio Golias-Caravaggio. A cabeça decapitada deixa de ser apenas o troféu de uma vitória bíblica e torna-se uma imagem da condição humana.
É justamente nessa tensão que reside a força da obra: o belo e o horror coexistem. A juventude de David, a delicadeza da luz e a composição cuidadosamente equilibrada contrastam com o sangue, a ferida aberta e o rosto morto de Golias.
Caravaggio aproxima o espectador da cena sem lhe oferecer distância confortável. Somos obrigados a olhar para a morte — e, através dela, para a fragilidade humana.
David com a cabeça de Golias pode assim ser entendido como uma espécie de memento mori e, simultaneamente, como um pedido de misericórdia: diante da morte, o vencedor contempla o vencido e reconhece nele a sua própria humanidade.
1999 © Luís Barreira
