Tinha ainda muitas coisas para dizer
mas não as poderíeis suportar.
João, 16, 12
Manuel António Pina (Todas as Palavras - poesia reunida)
Luís Barreira
“Moradas”, 2019
série: palavras nuas
Fotografia
arquivo: 2019_06_16_NK2_5037
Mnemografias: imagens, textos e reflexões
Estas imagens procuram dar forma ao registo quotidiano, ao pulsar dos dias e à necessidade de preservar aquilo que, de outro modo, se perderia no tempo. São imagens que nascem da memória, da solidão e do silêncio — um silêncio que muitas vezes acompanha a experiência de olhar e que, simultaneamente, me inquieta e me interroga.
São, por isso, mnemografias: grafias da memória, imagens que procuram fixar não apenas aquilo que foi visto, mas também aquilo que foi vivido, pensado e sentido. Cada imagem constitui o vestígio de um instante e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para uma reflexão sobre o tempo, o corpo e a própria experiência estética.
Estas grafias brotam de um processo simultaneamente reflexivo e mnemónico, desenvolvido ao longo do tempo, no qual a imagem deixa de ser apenas representação para se tornar lugar de pensamento. A memória transforma-se em matéria visual; o corpo torna-se arquivo; e a experiência vivida converte-se em linguagem.
É nesse movimento entre imagem, memória, corpo e pensamento que se revela aquilo a que podemos chamar corpo poiético: um corpo que não é apenas matéria ou presença, mas também criação, transformação e possibilidade. Um corpo que se inscreve no tempo e que, através da experiência estética, continuamente se refaz.
As mnemografias são, assim, tentativas de dar corpo ao que permanece: fragmentos de memória, vestígios de silêncio, pensamentos e imagens que resistem ao esquecimento e acompanham o devir estético.
Pesquisa por tema:
Tinha ainda muitas coisas para dizer
mas não as poderíeis suportar.
João, 16, 12
Manuel António Pina (Todas as Palavras - poesia reunida)
Luís Barreira
“Moradas”, 2019
série: palavras nuas
Fotografia
arquivo: 2019_06_16_NK2_5037
25 de Abril
Ode aos poetas embriagados: de liberdade
Olhai à vossa volta
embriagai-vos com a verdade
cravos teremos sempre
pois vive em nós a Liberdade
Ó sedentos de poesia,
libertai o néctar
das rolhas que o oprimem.
Deixai que o vinho
solte a língua,
que as palavras se embriaguem
na taça dos vossos lábios.
Que cada verso tinto
tinga a página
com rubro delírio,
que o soneto vacile,
mas nunca caia.
E se a sede vos pedir água —
cedei-lhe,
mas apenas o bastante
para lavar o cálice
e recomeçar o rito.
Luís Carvalho Barreira
25 de Abril
Foto, 2019
Fotografia
arquivo: 2019_04_24_IMG_0869
Catarina Cavique by Luís Barreira
Lisboa, 2019
série: portraits
Fotografia
arquivo: 2019_04_21_DSCF2498
Preso por um fio,
o papagaio de papel
voa,
voa
[...]
voa,
voa
percorre o mundo
antes de adormecer.
No fim da sua linha,
leva os sonhos
da Catarina
a sorrir.
Sei os teus seios
Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p’la manhã?
Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas…
Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p’ra de lá saírem
Direitinhos p’ra casa…
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer…
O amor excessivo dum poeta:
“E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio”
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
“Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos”
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p’la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
(“É isto que amas?”)
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios…
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá…
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou…
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser
Alexandre O’Neill
Luís Barreira
"sei-os de cor", 1992
Jardim Botânico, Lisboa
Série:
Fotografia
Gelatin Silver print
arquivo: FOLIO_139_10339, 1992
Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?
Fernando Pessoa
Luís Barreira
nuvem, 2018
Fotografia
arquivo: 03_29_IMG_3824, 2018
câmara: IPhone 5
Luís Carvalho Barreira
Fotografia para um poema, 2017
performed by Rita (aluna do Curso de Teatro)
Essa negra Fulô, poema de Jorge de Lima (1895 - 1953) dito por João Villaret no Teatro S. Luís em Lisboa, em 1957.
Essa Negra Fulô
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
pra vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco.”
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou.”
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Ah! foi você que roubou.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!
árvore
Luís Barreira
arquivo: 11_13_IMG_5677, 2015
«Glória aos fotógrafos, a essa objectiva humilde que vai visitar as árvores na mata, no jardim público ou à beira da estrada, e delas recolhe a imagem menos imperfeita, porque menos individualista - árvore em estado de árvore. Não me achando em condições de possuir um sítio, nem mesmo uma araucária particular, incompatível com as dimensões do metro quadrado em que resido, eu (e aqui sou João, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral) consolo-me contemplando algumas fotografias de olmos, faias, eucaliptos, jequitibás, espécies resinosas e essências. Amo vê-las em grupo ou isoladas, oferecendo à pressão do vento a massa compacta de folhagem; reflectindo, interceptando ou matizando os raios solares que tentam penetrá-las; lavando-se à beira da corrente, em sincera solidão; ou ainda contrastando com os frágeis monumentos de pedra, tijolo e cimento, que chamamos de casas, e que é tão raro não "sobrarem" na natureza; e até mesmo esparsas entre esses outros monumentos, os mais frágeis de todos, de nervos e vasos sanguíneos, que chamamos homens, e tampouco sabem integrar-se no conjunto natural onde folhas, raízes, insetos e ventos se organizam sem política.»
Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha (1952)
Luís Barreira
Delfos, 1984
Coordenadas: 38°28'55.7"N 22°30'05.9"E
Fotografia/Diapositivo
série:
arquivo: SLIDE_1461, 1984
To the Oracle at Delphi
Great Oracle, why are you staring at me,
do I baffle you, do I make you despair?
I, Americus, the American,
wrought from the dark in my mother long ago,
from the dark of ancient Europa--
Why are you staring at me now
in the dusk of our civilization--
Why are you staring at me
as if I were America itself
the new Empire
vaster than any in ancient days
with its electronic highways
carrying its corporate monoculture
around the world
And English the Latin of our days--
Great Oracle, sleeping through the centuries,
Awaken now at last
And tell us how to save us from ourselves
and how to survive our own rulers
who would make a plutocracy of our democracy
in the Great Divide
between the rich and the poor
in whom Walt Whitman heard America singing
O long-silent Sybil,
you of the winged dreams,
Speak out from your temple of light
as the serious constellations
with Greek names
still stare down on us
as a lighthouse moves its megaphone
over the sea
Speak out and shine upon us
the sea-light of Greece
the diamond light of Greece
Far-seeing Sybil, forever hidden,
Come out of your cave at last
And speak to us in the poet’s voice
the voice of the fourth person singular
the voice of the inscrutable future
the voice of the people mixed
with a wild soft laughter--
And give us new dreams to dream,
Give us new myths to live by!
Lawrence Ferlinghetti, 1919
Luís Barreira
Menhir do Outeiro, 2015
Fotografia
série: Megalíticos
arquivo: 03_5497, 2015
MENIR
Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura
De granito,
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!
MIGUEL TORGA, Diário XIV, Coimbra, 1995, p. 1461.
“Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
Faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo – do deserto ou do mar.”
Eugénio de Andrade
Foto: Luís Barreira
Sintra, 2014
When I was young
Póvoa do Varzim
projecto: "espaço, tempo e memórias"
Não voltarei a ser jovem de Jaime Gil de Biedma
Que a vida avançava a sério
alguém começa a perceber mais tarde
– como todos os jovens, eu vim
a levar a vida adiante.
Deixar marca queria
e marchar entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram tão somente
as dimensões do teatro.
Mas o tempo passou
e a verdade desagradável assoma:
envelhecer, morrer,
é o único argumento da obra.