Fátima Vaz & Luís Barreira

Fátima Vaz & Luís Barreira Villa D'Este, 1990Série: ROMA'90Foto: Artur Amaroarquivo: SLIDE_21734, 1990

Fátima Vaz & Luís Barreira

Villa D'Este, 1990

Série: ROMA'90

Foto: Artur Amaro

arquivo: SLIDE_21734, 1990

 

Villa d’Este, Tivoli — poder, água e representação

Localização: Tivoli, Itália

Construção: 1560–1572

Arquiteto: Pirro Ligorio

Encomendante: Cardeal Hipólito II d’Este (1509–1572)

 

 

 

A Villa d’Este, em Tivoli, é uma das grandes realizações do Renascimento italiano. Construída a partir de 1560 para o cardeal Hipólito II d’Este, a villa transformou uma antiga residência religiosa num extraordinário conjunto de jardins, terraços, esculturas e fontes.

Mais do que um lugar de lazer, a Villa d’Este deve ser entendida como uma obra de representação do poder. A água, a arquitectura e a natureza foram organizadas para demonstrar a riqueza, a cultura e a influência do seu proprietário.

Hipólito II d’Este

Hipólito nasceu em 1509, filho de Afonso I d’Este, duque de Ferrara, e de Lucrécia Bórgia.

Pertencia, portanto, a uma das famílias mais poderosas da Itália renascentista. Desde cedo esteve ligado à vida política e diplomática das cortes europeias.

Em 1539, foi nomeado cardeal pelo papa Paulo III. A carreira eclesiástica oferecia-lhe uma posição de enorme prestígio, mas não significava necessariamente uma vida afastada dos prazeres mundanos.

Quando se estabeleceu em Roma, Hipólito passou a alimentar uma ambição ainda maior: ser eleito papa.

Participou de vários conclaves, mas nunca conseguiu alcançar o pontificado.

A Villa d’Este pode ser vista, nesse contexto, como uma espécie de compensação simbólica: se Hipólito não conseguiu conquistar o poder supremo da Igreja, criou em Tivoli uma residência capaz de expressar a dimensão da sua riqueza, cultura e ambição.

A transformação de Tivoli

Tivoli possuía uma longa tradição de grandes residências aristocráticas.

Desde a Antiguidade, a região era apreciada pelas suas águas, paisagens e proximidade com Roma. O exemplo mais famoso é a Villa Adriana, construída pelo imperador Adriano no século II.

Hipólito aproveitou precisamente essa tradição.

A Villa d’Este foi construída sobre uma área anteriormente ocupada por um convento e incorporou elementos arquitectónicos e escultóricos provenientes do território de Tivoli.

O projeto ficou a cargo de Pirro Ligorio, arquiteto, antiquário e estudioso da Antiguidade.

Ligorio compreendia perfeitamente a linguagem cultural do Renascimento: recuperar a Antiguidade para criar uma nova forma de magnificência.

A água como símbolo de poder

O elemento mais extraordinário da Villa d’Este é a água.

Centenas de fontes, canais, cascatas e jogos hidráulicos foram distribuídos pelos jardins.

A água vinha do rio Aniene e era conduzida através de um sofisticado sistema hidráulico que permitia alimentar as fontes sem a utilização das modernas tecnologias de bombeamento.

Esse domínio sobre a água tinha também um significado simbólico.

Controlar a natureza significava demonstrar poder.

O cardeal não apenas possuía uma paisagem: ele era capaz de organizar, domesticar e fazer a própria natureza trabalhar para a sua glória.

O jardim como teatro

A Villa d’Este não deve ser entendida simplesmente como um jardim.

Ela funciona como um grande teatro ao ar livre.

O visitante percorre diferentes níveis, encontra fontes, esculturas, grutas artificiais, árvores e perspectivas arquitectónicas. A experiência é construída progressivamente.

A natureza é transformada em espectáculo.

As fontes não servem apenas para fornecer água. Produzem som, movimento, luz e surpresa.

A água cai, corre, jorra e desaparece; o visitante é continuamente surpreendido por novos efeitos.

É uma concepção profundamente renascentista do jardim: arte e natureza deixam de ser elementos separados e passam a formar uma única composição.

A Antiguidade como modelo

O programa decorativo da Villa d’Este está profundamente ligado à cultura clássica.

Deuses, heróis, símbolos mitológicos e referências à Roma Antiga aparecem associados ao espaço arquitectónico.

Essa presença da Antiguidade não era apenas decorativa.

Para um aristocrata renascentista, demonstrar conhecimento da cultura clássica era também demonstrar educação, autoridade e refinamento intelectual.

Hipólito apresentava-se como herdeiro de uma tradição cultural que remontava à Roma imperial.

A proximidade da Villa Adriana reforçava ainda mais essa associação.

A Villa como imagem do cardeal

Existe uma relação directa entre o proprietário e o jardim.

Hipólito era um homem da Igreja, mas também membro de uma poderosa família aristocrática. A villa traduz visualmente essa dualidade.

Por um lado, encontramos referências religiosas e à autoridade eclesiástica. Por outro, encontramos luxo, prazer, mitologia e celebração da natureza.

A residência manifesta, portanto, a tensão característica da cultura renascentista entre o sagrado e o profano.

A água, nesse contexto, torna-se também uma metáfora da abundância e da generosidade do proprietário.

O destino da água

A enorme quantidade de água utilizada pela Villa d’Este também demonstra a dimensão extraordinária do projecto.

A água descia em direcção ao vale e ao curso do Aniene, passando pela região dos antigos monumentos de Tivoli.

Nos séculos seguintes, a mesma infra-estrutura hidráulica seria aproveitada para outras finalidades.

Durante o século XVII, parte da água foi utilizada em instalações industriais, incluindo uma fundição destinada à produção de objectos de ferro e armamentos.

É uma transformação particularmente significativa.

A água que no século XVI servia para produzir o espectáculo da magnificência aristocrática passou posteriormente a alimentar a produção industrial e militar.

Do jardim ao poder moderno

A história da Villa d’Este pode ser colocada em paralelo com a transformação de outros espaços ligados ao poder em Roma.

O antigo Monte Cavallo, onde Hipólito havia vivido, viria a receber o Palácio do Quirinal.

O edifício tornou-se posteriormente residência papal, depois residência do rei de Itália e, actualmente, residência oficial do Presidente da República Italiana.

Temos, portanto, uma curiosa continuidade histórica:

Cardeais, papas, reis e presidentes.

Os lugares mudam de função, mas continuam associados à representação do poder.

Conclusão

A Villa d’Este é muito mais do que uma residência renascentista com belas fontes.

Ela é uma obra política transformada em arquitectura e paisagem.

Hipólito d’Este não conseguiu tornar-se papa, mas criou em Tivoli um espaço que afirmava visualmente a sua posição, a sua cultura e a sua ambição.

Através de água, jardins, mitologia, arquitectura e memória da Antiguidade, a villa transforma a natureza num espectáculo de poder.

A água é, talvez, o elemento mais eloquente dessa mensagem: quem controla a água controla a paisagem; quem controla a paisagem demonstra que é capaz de dominar a própria natureza.

E a história posterior acrescenta uma ironia poderosa: a mesma água que alimentava as fontes destinadas ao prazer e à ostentação de um cardeal acabou sendo utilizada para produzir armas. A paisagem renascentista de luxo e beleza e a infra-estrutura moderna de produção revelam, assim, duas faces diferentes do poder humano sobre a natureza.