Selecçao Nacional de 1966
“O rapto do número da bola”
Na mercearia do Sr. Castelo vendia-se de tudo um pouco.
Uma sucessão de portas de entrada deixava entrever um longo balcão de madeira, polido pelo tempo e pelas intermináveis conversas dos fregueses. Numa das extremidades, uma vitrina ao nível da estrada e do passeio, quase sempre ocupada por um pachorrento e ronceiro gato, revelava, por detrás de uma cortina, um pequeno escritório. Ali, ao lado da gaveta registadora, a luz ténue de um candeeiro desenhava o perfil do homem que governava aquele modesto comércio.
O Sr. Castelo era o retrato acabado do merceeiro tradicional: lápis aguçado atrás da orelha, mangas-de-alpaca e uma pança generosa que, não raras vezes, deixava escapar a fralda da camisa por entre a carcela mal abotoada das calças. Era um homem rezingão, dado a arrufos, mas nunca mal-educado. O que mais o distinguia, porém, era a delicadeza das mãos, apesar de endurecidas por uma vida inteira a acarretar sacos de batatas, a remexer cebolas, a cortar bacalhau ou a manusear produtos tão distintos como o amónio e o Ratax E 605 Forte.
Reformado da Marinha, fizera prosperar um negócio conhecido muito para além do alcance do relógio da torre da freguesia. Para todos, bastava dizer «o Castelo» para que se soubesse de que lugar se falava. Era casado e tinha um filho que, após a sua morte, deu continuidade ao negócio. O velho merceeiro foi encontrado sem vida, debruçado sobre a escrevaninha do pequeno escritório, rodeado pelos livros da escrita, com as cortinas entreabertas e o corpo voltado para a estrada, como se ainda esperasse a chegada de mais um freguês.
O filho, homem de trato mais fino, casado mas sem descendência, preservou o espírito da mercearia. Recebia jovens aprendizes, pagando-lhes um magro soldo, numa espécie de escola prática para a vida. Anos mais tarde, porém, soube-se que a cobiça de um empregado ditaria um desfecho trágico: o Castelo, filho, seria brutalmente assassinado precisamente no mesmo local onde o pai encontrara a morte.
A escrevaninha e a própria mercearia ficaram abaixo do nível do passeio depois de a antiga estrada nacional, entretanto transformada na principal rua de Vidago, ter sido repavimentada com paralelepípedos.
Ir «à estrada» era, naquele tempo, o equivalente a ir ao centro comercial. Os clientes e os transeuntes descobriam, num simples relance, todas as novidades penduradas por guitas no tecto da loja. Era um verdadeiro regalo para os olhos.
Naquele aparente caos conviviam os mais variados artigos pendurados por guitas: potes, panelas, sertãs e respectivos testos; novelos de ráfia e palha-de-aço; cruzetas e esfregões de piaçaba, misturados com alfaias agrícolas — sacholas, enxadas, foices, seitoiras e os respectivos cabos. Havia ainda rolos de papel higiénico, réstias de cebolas e de alhos, ratoeiras, fitas helicoidais para apanhar moscas e uma infinidade de outras utilidades que pareciam encontrar ali o seu lugar natural.
Nas épocas festivas, uma banda de porco pendia do tecto e era cortada conforme as necessidades dos fregueses. À porta, os grandes peixes de bacalhau seco, as canastras de polvo e as pencas de couve davam as boas-vindas a quem passava.
Puro marketing? Talvez. Mas, para quem ali entrava, bastava um olhar para perceber que naquela mercearia havia sempre qualquer coisa de novo para descobrir.
Numa época em que a maioria das pessoas pouco mais tinha do que um cibo de pão para matar a fome, a quantidade de víveres comprada dependia da bolsa de cada freguês. Os géneros vendiam-se à grama ou ao quartilho, conforme as posses de cada um.
Também os vícios eram contados à unidade. Raros eram os maços de tabaco 20-20-20 — os famosos «três vintes» — vendidos também à unidade. As folhas de jornais velhos, espetadas num prego, ganhavam uma segunda vida como embrulho para as compras das freguesas, que saíam do Castelo sempre satisfeitas, levando para casa as encomendas enroladas em boas notícias. O papel grosso costaneiro ficava reservado para encomendas de maior vulto. Era nele que se embrulhavam as postas de bacalhau, cortadas por um enorme facalhão preso ao balcão, numa espécie de guilhotina capaz de cortar tudo o que lhe aparecesse pela frente.
No esforço de recuperar estas memórias de infância, quase juraria ter visto esse mesmo facalhão dividir barras de sabão rosa. Ou seria sabão azul? Talvez não… O Castelo não misturava o sabão azul com o rosa!
Percorrendo as «ameias» daquela muralha que o balcão representava para os miúdos da minha idade, encontrávamos, ao centro, uma balança já desnivelada de algumas gramas. Ao seu lado amontoavam-se os pesos, desde um grama até um quilo, passando pelos respectivos múltiplos. Muitos apresentavam sinais evidentes de desgaste; alguns tinham mesmo perdido os contrapesos de chumbo, o que acabava por favorecer discretamente o Sr. Castelo nas pesagens.
O açúcar, o grão, o arroz, o feijão, o milho ou o tremoço eram retirados dos sacos e dos grandes caixotes de madeira com um corredor comum a todos eles. Depois enchiam-se cartuchos de papel grosso às riscas azuis, que eram colocados sobre a balança numa pesagem tão rápida que o fiel mal tinha tempo de estabilizar. O Castelo abafava sempre algumas gramas, sem que os fiéis fregueses dessem por isso. Todos os tostões contavam. Ali ao lado, um rol de contas, já gasto pelo contínuo manuseamento, registava as vendas a fiado de toda a freguesia.
Tudo naquele estabelecimento tinha uma forma muito própria de se apresentar, uma imagem que nunca mais me saiu da memória. Ainda assim, não era por causa dos víveres, nem dos utensílios, nem sequer das guloseimas que eu ia ao Castelo.
Era por causa do «número da bola».
Pertencia àquela miudalha cujo maior sonho era possuir uma bola de cauchu. A minha avó Felisbela, que também foi minha professora, tentou convencer-me a mudar de escola para Vidago, no final da segunda classe, dizendo-me que o novo professor, o Etienne, tinha uma bola de cauchu. Se, por um lado, me angustiava a ideia de deixar a protecção da minha avó, por outro saltava de alegria ao imaginar que poderia dar uns pontapés naquele tão desejado esférico.
Nunca aconteceu.
Ter uma bola significava jogar sempre; ter uma bola de cauchu significava ter muitos amigos. O dono da bola jogava em todos os jogos e era sempre o primeiro a escolher a equipa. As nossas brincadeiras resumiam-se, quase inevitavelmente, ao futebol. Eu considerava-me um «exímio futebolista» e, no Castelo, havia sempre uma bola de cauchu exposta, bem à vista, no centro de uma rifa rodeada de prémios: canivetes, tesouras, baralhos de cartas, saca-rolhas, aguçadeiras, lápis, chocolates e tantas outras tentações.
Não havia dia em que não nos encostássemos às «ameias» do balcão para contemplar aquele sonho redondo.
Havia também uma lata cheia de rebuçados açucarados, pouco recomendáveis ao paladar, mas que escondiam um tesouro muito mais apetecido: pequenos «jogadores de futebol». Esses cromos faziam parte de uma colecção que, depois de completa e colada na respectiva caderneta, dava direito à tão cobiçada bola de cauchu. Tanto os prémios como a própria caderneta eram obtidos através de senhas escondidas dentro dos rebuçados. Os mais volumosos pareciam anunciar a sorte. Mal os comprávamos, radiografávamo-los com o olhar e desembrulhávamos primeiro os que pareciam maiores, convencidos de que seriam eles os premiados.
Mas a fortuna nem sempre se deixava adivinhar. Muitas vezes, os rebuçados mais gordos escondiam apenas dois ou três jogadores repetidos, numa artimanha que alimentava as ilusões da pobre criançada. Comprávamos, trocávamos e disputávamos aqueles jogadores sem descanso e, quando o dinheiro faltava, jogávamos ao abafa para aumentar a colecção.
Havia, porém, um jogador especial. Tão raro que existia apenas um em cada lata.
Era o número da bola.
E esse jogador parecia estar sempre colado ao fundo da lata...
...até que, quando o prémio já parecia ao alcance de mais uns poucos tostões, surgia sempre alguém, desconhecido, que perpetrava um misterioso assalto ao Castelo, levando consigo, como refém, o tão desejado «número da bola».
texto publicado na revista Maré de Notícias
