"Moradas"

Tinha ainda muitas coisas para dizer    mas não as poderíeis suportar.    João, 16, 12    Manuel António Pina (Todas as Palavras - poesia reunida)

Tinha ainda muitas coisas para dizer

mas não as poderíeis suportar.

João, 16, 12

Manuel António Pina (Todas as Palavras - poesia reunida)


Luís Barreira

“Moradas”, 2019

série: palavras nuas

Fotografia

arquivo: 2019_06_16_NK2_5037

"Sei os teus seios"

Sei os teus seios

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p’la manhã?

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas…

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p’ra de lá saírem
Direitinhos p’ra casa…

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer…

O amor excessivo dum poeta:
“E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio”

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

“Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos”

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p’la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
(“É isto que amas?”)
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios…

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá…

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou…

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser

Alexandre O’Neill

Luís Barreira  "sei-os de cor", 1992  Jardim Botânico, Lisboa  Série:  Fotografia  Gelatin Silver print  arquivo: FOLIO_139_10339, 1992

Luís Barreira

"sei-os de cor", 1992

Jardim Botânico, Lisboa

Série:

Fotografia

Gelatin Silver print

arquivo: FOLIO_139_10339, 1992

nuvem

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim. 
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece. 

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa

Luís Barreira  nuvem, 2018  Fotografia  arquivo: 03_29_IMG_3824, 2018  câmara: IPhone 5

Luís Barreira

nuvem, 2018

Fotografia

arquivo: 03_29_IMG_3824, 2018

câmara: IPhone 5

Essa negra Fulô

Essa negra Fulô, poema de Jorge de Lima (1895 - 1953) dito por João Villaret no Teatro S. Luís em Lisboa, em 1957.

Essa Negra Fulô

 

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô

ficou logo pra mucama,

pra vigiar a Sinhá

pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco.”

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

“Minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou.”

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô.)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa.

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou.

Ah! foi você que roubou.

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

Carlos Drummond de Andrade

árvore

Luís Barreira  arquivo: 11_13_IMG_5677, 2015

Luís Barreira

arquivo: 11_13_IMG_5677, 2015


«Glória aos fotógrafos, a essa objectiva humilde que vai visitar as árvores na mata, no jardim público ou à beira da estrada, e delas recolhe a imagem menos imperfeita, porque menos individualista - árvore em estado de árvore. Não me achando em condições de possuir um sítio, nem mesmo uma araucária particular, incompatível com as dimensões do metro quadrado em que resido, eu (e aqui sou João, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral) consolo-me contemplando algumas fotografias de olmos, faias, eucaliptos, jequitibás, espécies resinosas e essências. Amo vê-las em grupo ou isoladas, oferecendo à pressão do vento a massa compacta de folhagem; reflectindo, interceptando ou matizando os raios solares que tentam penetrá-las; lavando-se à beira da corrente, em sincera solidão; ou ainda contrastando com os frágeis monumentos de pedra, tijolo e cimento, que chamamos de casas, e que é tão raro não "sobrarem" na natureza; e até mesmo esparsas entre esses outros monumentos, os mais frágeis de todos, de nervos e vasos sanguíneos, que chamamos homens, e tampouco sabem integrar-se no conjunto natural onde folhas, raízes, insetos e ventos se organizam sem política.»

 

Carlos Drummond de AndradePasseios na Ilha (1952)

Delfos

Luís Barreira  Delfos, 1984  Coordenadas: 38°28'55.7"N 22°30'05.9"E  Fotografia/Diapositivo  série:  arquivo: SLIDE_1461, 1984

Luís Barreira

Delfos, 1984

Coordenadas: 38°28'55.7"N 22°30'05.9"E

Fotografia/Diapositivo

série:

arquivo: SLIDE_1461, 1984

To the Oracle at Delphi

 

Great Oracle, why are you staring at me,

do I baffle you, do I make you despair?

I, Americus, the American,

wrought from the dark in my mother long ago,

from the dark of ancient Europa--

Why are you staring at me now

in the dusk of our civilization--

Why are you staring at me

as if I were America itself

the new Empire

vaster than any in ancient days

with its electronic highways

carrying its corporate monoculture

around the world

And English the Latin of our days--

 

Great Oracle, sleeping through the centuries,

Awaken now at last

And tell us how to save us from ourselves

and how to survive our own rulers

who would make a plutocracy of our democracy

in the Great Divide

between the rich and the poor

in whom Walt Whitman heard America singing

 

O long-silent Sybil,

you of the winged dreams,

Speak out from your temple of light

as the serious constellations

with Greek names

still stare down on us

as a lighthouse moves its megaphone

over the sea

Speak out and shine upon us

the sea-light of Greece

the diamond light of Greece

 

Far-seeing Sybil, forever hidden,

Come out of your cave at last

And speak to us in the poet’s voice

the voice of the fourth person singular

the voice of the inscrutable future

the voice of the people mixed

with a wild soft laughter--

And give us new dreams to dream,

Give us new myths to live by!

 

 

Lawrence Ferlinghetti, 1919

Menhir  do Outeiro, 2015

Luís Barreira  Menhir do Outeiro, 2015  Fotografia  série: Megalíticos  arquivo: 03_5497, 2015

Luís Barreira

Menhir do Outeiro, 2015

Fotografia

série: Megalíticos

arquivo: 03_5497, 2015


MENIR

Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura
De granito,
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!

MIGUEL TORGA, Diário XIV, Coimbra, 1995, p. 1461.

Eugénio de Andrade

“Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
Faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo – do deserto ou do mar.”

Eugénio de Andrade

Foto: Luís Barreira  Sintra, 2014

Foto: Luís Barreira

Sintra, 2014