auto-retrato, 2026
no ocaso
a penumbra ensaia
um rosto
outono, 26
POESIA / fotografia digital
arquivo: 20261013_NK5_7763
Mnemografias: imagens, textos e reflexões
Estas imagens procuram dar forma ao registo quotidiano, ao pulsar dos dias e à necessidade de preservar aquilo que, de outro modo, se perderia no tempo. São imagens que nascem da memória, da solidão e do silêncio — um silêncio que muitas vezes acompanha a experiência de olhar e que, simultaneamente, me inquieta e me interroga.
São, por isso, mnemografias: grafias da memória, imagens que procuram fixar não apenas aquilo que foi visto, mas também aquilo que foi vivido, pensado e sentido. Cada imagem constitui o vestígio de um instante e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para uma reflexão sobre o tempo, o corpo e a própria experiência estética.
Estas grafias brotam de um processo simultaneamente reflexivo e mnemónico, desenvolvido ao longo do tempo, no qual a imagem deixa de ser apenas representação para se tornar lugar de pensamento. A memória transforma-se em matéria visual; o corpo torna-se arquivo; e a experiência vivida converte-se em linguagem.
É nesse movimento entre imagem, memória, corpo e pensamento que se revela aquilo a que podemos chamar corpo poiético: um corpo que não é apenas matéria ou presença, mas também criação, transformação e possibilidade. Um corpo que se inscreve no tempo e que, através da experiência estética, continuamente se refaz.
As mnemografias são, assim, tentativas de dar corpo ao que permanece: fragmentos de memória, vestígios de silêncio, pensamentos e imagens que resistem ao esquecimento e acompanham o devir estético.
Pesquisa por tema:
auto-retrato, 2026
no ocaso
a penumbra ensaia
um rosto
outono, 26
POESIA / fotografia digital
arquivo: 20261013_NK5_7763
perda
amar:
pedra de tempo
no regaço
abrigas
Annazul, 1988 @ LC Barreira
árvores nuas
no Inverno —
serenidade do eterno gesto
quando se despem no frio
abraço do instante
agradam
mesmo quando o coração
parece distante —
silêncio
de quem conhece
o tempo
quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira
Apelo
não cortem árvores —
demoram muito a medrar
fora do coração
um carvalho abatido
a madeira
leva consigo a sombra
quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira
Meia-laranja
abro um livro
uma folha de eucalipto —
herbário da memória
lenta, a respiração
do silêncio
arde
no verso
tarde canícula
esperando a carícia
do sabor fresco
dormia
com meia-laranja
aos pés,
e as amoras
esmagadas no chão
Vidago —
agrada-me, sempre, falar de árvores:
o eucalipto gigante do Grande Hotel
e a amoreira da Meia-laranja —
na sombra da memória
ainda de pé
Quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira
poema
chuva
o poema carece
de chuva
as nuvens precisam
de rima
eu,
do teu corpo inteiro —
para que chova
dentro do verso
2026 © LC Barreira
poema
o meu fim
está no começo
Annazul, 1988 © LC Barreira
poema
sujeito estatelou-se no parágrafo —
nunca mais foi o mesmo
2026 © LC Barreira
Termas de Vidago
Agosto
os aquistas
traziam rebuliço,
a récua partia
para as águas do Tâmega
as crianças jogavam à bola —
a gosto
poema © LC Barreira
Luís Carvalho Barreira
Retrato barroco de Catarina Cavique
Páscoa de 2026
Fotografia
arquivo: 20260405_NK5_5324
Preso por um fio,
o papagaio de papel
voa,
voa
[...]
voa,
voa
percorre o mundo
antes de adormecer.
No fim da sua linha,
leva os sonhos
da Catarina
a sorrir.
Coimbra, 2026
encontrei
numa rua de Coimbra:
“se a felicidade te escapar,
dança com a dor”
poeta anónimo
arquivo: 20260728_IMG_4938
What’s Your Dirty Fantasy?
To leave every room
a little lighter than I found it,
and one day discover
that was enough.
Nova Iorque, Verão de 1994.
poema © LC Barreira
ardor
quanto tempo demora
tirar:
sapatos,
meias,
calças,
camisa,
roupa interior —
um pouco mais
de ardor
poemas © LC Barreira
verão —
se o não for
é falso
2026 © LC Barreira
utopia
palavra
dita em silêncio —
utopia
2022, poemas © LC Barreira
a vastidão
dissolve-se em cor —
mar
poemas © LC Barreira
Morte do tempo
quando morrer
não serei eu
a morrer —
será o tempo
a morrer em mim
no meu epitáfio —
aqui jaz o tempo
poemas © LC Barreira
Último botão
no silêncio
e na escuridão
breu que respira devagar —
mudo
o silêncio despe o último botão
poema © LC Barreira
imagem do poema
a poesia
repete sem dizer —
dizer
o mesmo
2019, poemas © LC Barreira
Solstício de Verão
tive um sonho
tão breve
parecia um pardal a saltar;
ficou o desejo,
um bater de asas
na noite
mais curta do ano —
solstício
poemas © LC Barreira