perda

perda

amar:

pedra de tempo

no regaço

abrigas

Annazul, 1988 @ LC Barreira

árvores nuas

árvores nuas

 

 

no Inverno —

serenidade do eterno gesto

quando se despem no frio

abraço do instante

 

agradam

mesmo quando o coração

parece distante —

 

silêncio

de quem conhece

o tempo

quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira

Apelo: não cortem as árvores

Apelo

 

 

não cortem árvores —

 

demoram muito a medrar

fora do coração

 

um carvalho abatido

a madeira

leva consigo a sombra

quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira

meia-laranja

Meia-laranja

 

 

abro um livro

uma folha de eucalipto —

herbário da memória

 

lenta, a respiração

do silêncio

arde

no verso

 

tarde canícula

esperando a carícia

do sabor fresco

 

dormia

com meia-laranja

aos pés,

e as amoras

esmagadas no chão

 

 

Vidago —

 

agrada-me, sempre, falar de árvores:

o eucalipto gigante do Grande Hotel

e a amoreira da Meia-laranja —

na sombra da memória

ainda de pé

Quando estas árvores se desnudam descobrem as minhas raízes, 1983 © LC Barreira

chuva

poema

chuva

 

 

o poema carece

de chuva

 

as nuvens precisam

de rima

 

eu,

do teu corpo inteiro —

 

para que chova

dentro do verso

2026 © LC Barreira

sujeito

poema

sujeito estatelou-se no parágrafo —

nunca mais foi o mesmo

2026 © LC Barreira

Termas de Vidago

Termas de Vidago

Agosto

os aquistas

traziam rebuliço,

a récua partia

para as águas do Tâmega

as crianças jogavam à bola —

a gosto

poema © LC Barreira

Catarina

Luís Carvalho Barreira

Retrato barroco de Catarina Cavique

Páscoa de 2026

Fotografia

arquivo: 20260405_NK5_5324


Poema para a Catarina

 

Preso por um fio,

o papagaio de papel

 

 voa,

voa

  

[...]

 

voa,

 voa

 

percorre o mundo

antes de adormecer.

 

No fim da sua linha,

leva os sonhos

da Catarina

a sorrir.

felicidade

Coimbra, 2026

encontrei

numa rua de Coimbra:

 

“se a felicidade te escapar,

dança com a dor”

poeta anónimo

arquivo: 20260728_IMG_4938

What's your dirty fantasy?

What’s Your Dirty Fantasy?

 

 

To leave every room
a little lighter than I found it,
and one day discover
that was enough.

 

Nova Iorque, Verão de 1994.

poema © LC Barreira

ardor

ardor

 

 

quanto tempo demora

tirar:

sapatos,

meias,

calças,

camisa,

roupa interior —

 

um pouco mais

de ardor

poemas © LC Barreira

verão

verão —

se o não for

é falso

2026 © LC Barreira

utopia

utopia

 

 

palavra

dita em silêncio —

 

utopia

2022, poemas © LC Barreira

mar

a vastidão

dissolve-se em cor —

mar

poemas © LC Barreira

Morte do Tempo

Morte do tempo

 

 

quando morrer

não serei eu

a morrer —

será o tempo

a morrer em mim

 

 

no meu epitáfio —

aqui jaz o tempo

poemas © LC Barreira

último botão

Último botão

no silêncio

e na escuridão

breu que respira devagar —

mudo

o silêncio despe o último botão

poema © LC Barreira

solstício de verão

Solstício de Verão

 

 

tive um sonho

tão breve

parecia um pardal a saltar;

 

ficou o desejo,

um bater de asas

na noite

mais curta do ano —

 

solstício

poemas © LC Barreira