Termas de Vidago
Agosto
os aquistas
traziam rebuliço,
a récua partia
para as águas do Tâmega
as crianças jogavam à bola —
a gosto
poema © LC Barreira
Mnemografias: imagens, textos e reflexões
Estas imagens procuram dar forma ao registo quotidiano, ao pulsar dos dias e à necessidade de preservar aquilo que, de outro modo, se perderia no tempo. São imagens que nascem da memória, da solidão e do silêncio — um silêncio que muitas vezes acompanha a experiência de olhar e que, simultaneamente, me inquieta e me interroga.
São, por isso, mnemografias: grafias da memória, imagens que procuram fixar não apenas aquilo que foi visto, mas também aquilo que foi vivido, pensado e sentido. Cada imagem constitui o vestígio de um instante e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para uma reflexão sobre o tempo, o corpo e a própria experiência estética.
Estas grafias brotam de um processo simultaneamente reflexivo e mnemónico, desenvolvido ao longo do tempo, no qual a imagem deixa de ser apenas representação para se tornar lugar de pensamento. A memória transforma-se em matéria visual; o corpo torna-se arquivo; e a experiência vivida converte-se em linguagem.
É nesse movimento entre imagem, memória, corpo e pensamento que se revela aquilo a que podemos chamar corpo poiético: um corpo que não é apenas matéria ou presença, mas também criação, transformação e possibilidade. Um corpo que se inscreve no tempo e que, através da experiência estética, continuamente se refaz.
As mnemografias são, assim, tentativas de dar corpo ao que permanece: fragmentos de memória, vestígios de silêncio, pensamentos e imagens que resistem ao esquecimento e acompanham o devir estético.
Pesquisa por tema:
Termas de Vidago
Agosto
os aquistas
traziam rebuliço,
a récua partia
para as águas do Tâmega
as crianças jogavam à bola —
a gosto
poema © LC Barreira
Luís Carvalho Barreira
Retrato barroco de Catarina Cavique
Páscoa de 2026
Fotografia
arquivo: 20260405_NK5_5324
Preso por um fio,
o papagaio de papel
voa,
voa
[...]
voa,
voa
percorre o mundo
antes de adormecer.
No fim da sua linha,
leva os sonhos
da Catarina
a sorrir.
Coimbra, 2026
encontrei
numa rua de Coimbra:
“se a felicidade te escapar,
dança com a dor”
poeta anónimo
arquivo: 20260728_IMG_4938
What’s Your Dirty Fantasy?
To leave every room
a little lighter than I found it,
and one day discover
that was enough.
Nova Iorque, Verão de 1994.
poema © LC Barreira
ardor
quanto tempo demora
tirar:
sapatos,
meias,
calças,
camisa,
roupa interior —
um pouco mais
de ardor
poemas © LC Barreira
verão —
se o não for
é falso
2026 © LC Barreira
utopia
palavra
dita em silêncio —
utopia
2022, poemas © LC Barreira
a vastidão
dissolve-se em cor —
mar
poemas © LC Barreira
Morte do tempo
quando morrer
não serei eu
a morrer —
será o tempo
a morrer em mim
no meu epitáfio —
aqui jaz o tempo
poemas © LC Barreira
Último botão
no silêncio
e na escuridão
breu que respira devagar —
mudo
o silêncio despe o último botão
poema © LC Barreira
imagem do poema
a poesia
repete sem dizer —
dizer
o mesmo
2019, poemas © LC Barreira
Solstício de Verão
tive um sonho
tão breve
parecia um pardal a saltar;
ficou o desejo,
um bater de asas
na noite
mais curta do ano —
solstício
poemas © LC Barreira
ofereço poema —
a quem me arrumar o quarto
poesia © LC Barreira
morrera de amores
morri uma vez —
ainda dói
poemas © LC Barreira
Annazul falta-lhe um parafuso — o meu
1991, poemas visuais © LC Barreira
um calhau rolado
é tão belo quanto —
Vénus de Botticelli
fotografia/poema © LC Barreira
arte
arte
amarte — erro ortográfico
arte
arte
1991 © LC Barreira
livro
tenho um amigo —
lido
poema © LC Barreira
pôr-do-sol
2026
poemas visuais © LC Barreira
Santo António
cheira a sardinha —
Lisboa
reza em manjericos
poemas © LC Barreira