short stories [ııı]
David Carvalho [avô]
conceptual portrait by Luís Carvalho Barreira
Colagens
arquivo: 2020_Foto0002_David_03
Mnemografias: imagens, textos e reflexões
Estas imagens procuram dar forma ao registo quotidiano, ao pulsar dos dias e à necessidade de preservar aquilo que, de outro modo, se perderia no tempo. São imagens que nascem da memória, da solidão e do silêncio — um silêncio que muitas vezes acompanha a experiência de olhar e que, simultaneamente, me inquieta e me interroga.
São, por isso, mnemografias: grafias da memória, imagens que procuram fixar não apenas aquilo que foi visto, mas também aquilo que foi vivido, pensado e sentido. Cada imagem constitui o vestígio de um instante e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para uma reflexão sobre o tempo, o corpo e a própria experiência estética.
Estas grafias brotam de um processo simultaneamente reflexivo e mnemónico, desenvolvido ao longo do tempo, no qual a imagem deixa de ser apenas representação para se tornar lugar de pensamento. A memória transforma-se em matéria visual; o corpo torna-se arquivo; e a experiência vivida converte-se em linguagem.
É nesse movimento entre imagem, memória, corpo e pensamento que se revela aquilo a que podemos chamar corpo poiético: um corpo que não é apenas matéria ou presença, mas também criação, transformação e possibilidade. Um corpo que se inscreve no tempo e que, através da experiência estética, continuamente se refaz.
As mnemografias são, assim, tentativas de dar corpo ao que permanece: fragmentos de memória, vestígios de silêncio, pensamentos e imagens que resistem ao esquecimento e acompanham o devir estético.
Pesquisa por tema:
short stories [ııı]
David Carvalho [avô]
conceptual portrait by Luís Carvalho Barreira
Colagens
arquivo: 2020_Foto0002_David_03
short stories [II], 2020
David Carvalho [avô]
conceptual portrait by Luís Carvalho Barreira
Fotografia
arquivo: 2020_Foto0002_David_02
short stories [I]
David Carvalho [avô: 1893-19xx]
conceptual portrait by Luís Carvalho Barreira
2020
serie:
© Luís Carvalho Barreira
Túmulo de Inês de Castro
Mosteiro de Alcobaça, 2020
serie:
Fotografia
arquivo: 2020_08_13_DSCF5691
câmara: Fujifilm X 100F
© Luís Carvalho Barreira
Sofia Namora* like a Modigliani model, 2014
serie: portraits in art
Fotografia
arquivo: 2014_05_09_DSC_2427
câmara: Nikon D800
*20.05.1966 - feliz aniversário
Luís Barreira (Pai)
Vidago F C
Local: Murça, 1952
série: art portraits
Luís Barreira
Título: B L U E
Ano: 2018
Instalação
Fotografia
Luís Barreira
Fragmento da obra de José Pedro Croft (1998)
Parque das Nações, 2018
Lisboa
série: no parque
Fotografia
arquivo: 2018_12_15_DSCF1314
Fátima Vaz & Luís Barreira
Villa D'Este, 1990
Série: ROMA'90
Foto: Artur Amaro
arquivo: SLIDE_21734, 1990
Villa d’Este, Tivoli — poder, água e representação
Localização: Tivoli, Itália
Construção: 1560–1572
Arquiteto: Pirro Ligorio
Encomendante: Cardeal Hipólito II d’Este (1509–1572)
A Villa d’Este, em Tivoli, é uma das grandes realizações do Renascimento italiano. Construída a partir de 1560 para o cardeal Hipólito II d’Este, a villa transformou uma antiga residência religiosa num extraordinário conjunto de jardins, terraços, esculturas e fontes.
Mais do que um lugar de lazer, a Villa d’Este deve ser entendida como uma obra de representação do poder. A água, a arquitectura e a natureza foram organizadas para demonstrar a riqueza, a cultura e a influência do seu proprietário.
Hipólito II d’Este
Hipólito nasceu em 1509, filho de Afonso I d’Este, duque de Ferrara, e de Lucrécia Bórgia.
Pertencia, portanto, a uma das famílias mais poderosas da Itália renascentista. Desde cedo esteve ligado à vida política e diplomática das cortes europeias.
Em 1539, foi nomeado cardeal pelo papa Paulo III. A carreira eclesiástica oferecia-lhe uma posição de enorme prestígio, mas não significava necessariamente uma vida afastada dos prazeres mundanos.
Quando se estabeleceu em Roma, Hipólito passou a alimentar uma ambição ainda maior: ser eleito papa.
Participou de vários conclaves, mas nunca conseguiu alcançar o pontificado.
A Villa d’Este pode ser vista, nesse contexto, como uma espécie de compensação simbólica: se Hipólito não conseguiu conquistar o poder supremo da Igreja, criou em Tivoli uma residência capaz de expressar a dimensão da sua riqueza, cultura e ambição.
A transformação de Tivoli
Tivoli possuía uma longa tradição de grandes residências aristocráticas.
Desde a Antiguidade, a região era apreciada pelas suas águas, paisagens e proximidade com Roma. O exemplo mais famoso é a Villa Adriana, construída pelo imperador Adriano no século II.
Hipólito aproveitou precisamente essa tradição.
A Villa d’Este foi construída sobre uma área anteriormente ocupada por um convento e incorporou elementos arquitectónicos e escultóricos provenientes do território de Tivoli.
O projeto ficou a cargo de Pirro Ligorio, arquiteto, antiquário e estudioso da Antiguidade.
Ligorio compreendia perfeitamente a linguagem cultural do Renascimento: recuperar a Antiguidade para criar uma nova forma de magnificência.
A água como símbolo de poder
O elemento mais extraordinário da Villa d’Este é a água.
Centenas de fontes, canais, cascatas e jogos hidráulicos foram distribuídos pelos jardins.
A água vinha do rio Aniene e era conduzida através de um sofisticado sistema hidráulico que permitia alimentar as fontes sem a utilização das modernas tecnologias de bombeamento.
Esse domínio sobre a água tinha também um significado simbólico.
Controlar a natureza significava demonstrar poder.
O cardeal não apenas possuía uma paisagem: ele era capaz de organizar, domesticar e fazer a própria natureza trabalhar para a sua glória.
O jardim como teatro
A Villa d’Este não deve ser entendida simplesmente como um jardim.
Ela funciona como um grande teatro ao ar livre.
O visitante percorre diferentes níveis, encontra fontes, esculturas, grutas artificiais, árvores e perspectivas arquitectónicas. A experiência é construída progressivamente.
A natureza é transformada em espectáculo.
As fontes não servem apenas para fornecer água. Produzem som, movimento, luz e surpresa.
A água cai, corre, jorra e desaparece; o visitante é continuamente surpreendido por novos efeitos.
É uma concepção profundamente renascentista do jardim: arte e natureza deixam de ser elementos separados e passam a formar uma única composição.
A Antiguidade como modelo
O programa decorativo da Villa d’Este está profundamente ligado à cultura clássica.
Deuses, heróis, símbolos mitológicos e referências à Roma Antiga aparecem associados ao espaço arquitectónico.
Essa presença da Antiguidade não era apenas decorativa.
Para um aristocrata renascentista, demonstrar conhecimento da cultura clássica era também demonstrar educação, autoridade e refinamento intelectual.
Hipólito apresentava-se como herdeiro de uma tradição cultural que remontava à Roma imperial.
A proximidade da Villa Adriana reforçava ainda mais essa associação.
A Villa como imagem do cardeal
Existe uma relação directa entre o proprietário e o jardim.
Hipólito era um homem da Igreja, mas também membro de uma poderosa família aristocrática. A villa traduz visualmente essa dualidade.
Por um lado, encontramos referências religiosas e à autoridade eclesiástica. Por outro, encontramos luxo, prazer, mitologia e celebração da natureza.
A residência manifesta, portanto, a tensão característica da cultura renascentista entre o sagrado e o profano.
A água, nesse contexto, torna-se também uma metáfora da abundância e da generosidade do proprietário.
O destino da água
A enorme quantidade de água utilizada pela Villa d’Este também demonstra a dimensão extraordinária do projecto.
A água descia em direcção ao vale e ao curso do Aniene, passando pela região dos antigos monumentos de Tivoli.
Nos séculos seguintes, a mesma infra-estrutura hidráulica seria aproveitada para outras finalidades.
Durante o século XVII, parte da água foi utilizada em instalações industriais, incluindo uma fundição destinada à produção de objectos de ferro e armamentos.
É uma transformação particularmente significativa.
A água que no século XVI servia para produzir o espectáculo da magnificência aristocrática passou posteriormente a alimentar a produção industrial e militar.
Do jardim ao poder moderno
A história da Villa d’Este pode ser colocada em paralelo com a transformação de outros espaços ligados ao poder em Roma.
O antigo Monte Cavallo, onde Hipólito havia vivido, viria a receber o Palácio do Quirinal.
O edifício tornou-se posteriormente residência papal, depois residência do rei de Itália e, actualmente, residência oficial do Presidente da República Italiana.
Temos, portanto, uma curiosa continuidade histórica:
Cardeais, papas, reis e presidentes.
Os lugares mudam de função, mas continuam associados à representação do poder.
Conclusão
A Villa d’Este é muito mais do que uma residência renascentista com belas fontes.
Ela é uma obra política transformada em arquitectura e paisagem.
Hipólito d’Este não conseguiu tornar-se papa, mas criou em Tivoli um espaço que afirmava visualmente a sua posição, a sua cultura e a sua ambição.
Através de água, jardins, mitologia, arquitectura e memória da Antiguidade, a villa transforma a natureza num espectáculo de poder.
A água é, talvez, o elemento mais eloquente dessa mensagem: quem controla a água controla a paisagem; quem controla a paisagem demonstra que é capaz de dominar a própria natureza.
E a história posterior acrescenta uma ironia poderosa: a mesma água que alimentava as fontes destinadas ao prazer e à ostentação de um cardeal acabou sendo utilizada para produzir armas. A paisagem renascentista de luxo e beleza e a infra-estrutura moderna de produção revelam, assim, duas faces diferentes do poder humano sobre a natureza.
Luís Barreira
Vénus (cópia romana)
British Museum, London, 2014
Série:
Fotografia
arquivo: 08_05_IMG_8513, 2014
Luís Barreira
N A T U R A
fotografia
projecto apresentado e exposto na Bienal de Vila Franca de Xira, 2003
Luís Barreira
s/título, 1986/93
série: pathos
fotografia
Gelatin Silver print
arquivo:
F_023_4332, 1986
F_476
Luís Barreira
Mirror, Vase on the table, 1992
Fotografia/Instalação
Série: arealva
Luís Barreira
Arealva, 1992
Fotografia/Instalação
Gelatin Silver print
Série:
arquivo: F_160_3988, 1992
Luís Barreira
S/título, Arealva #01, 1992
Fotografia/Instalação
Gelatin Silver print
Série: Arealva
Luís Barreira
Instalação, 1992
Arealva
Fotografia/Instalação
Santa Bárbara, Basílica de Mafra, 2015
Foto: Luís Barreira
Poder Crer em Santa Bárbara
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa
Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema IV"