1992 @anartchist
"Partrilhar"
1988 @ anartchist
“Partrilhar”
duas estradas divergem
no lúrido bosque
em adágios
sem nunca discordar
duas estradas perdidas
vagabundeiam
no telúrico enseio
sem nunca se encontrar
duas estradas vagueiam
sem tino
no meu corpo vazio
sem nunca pausar
duas estradas demoram
num corpo que era outro
sem rumo
sem nunca as escutar
duas estradas... duas estradas
existem no lamento
do meu coração
sem nunca as poder partrilhar
"dias de chuva"
Luís Carvalho Barreira
“dias de chuva”, 2024
fotografia realizada para ilustrar o poema
Dias de chuva
Chovia…
Abrigo na memória
uma janela entreaberta,
o latido das gotas caídas,
seduzidas por letras
cantaroladas nas pontas dos dedos.
Nesses dias pardos
que ainda trago na boca...
Chovia...
Abri uma gaveta
de infância -
e não havia nada,
nada que me fizesse lembrar
a faceta de transgressor.
Chovia...
Desejos esses,
habitados em ímpetos silêncios,
de vaga mundos -
sem sair do regaço da minha mãe.
Chovia...
Vertiam-se aqueles beijos
em dia de branco chumbo,
dados com amor e paixão,
como as gotas escorridas,
ecoando melodias
no meu coração
[mãe]
2023 @ Luiz Carvalho
etéreos pensamentos
Luís Carvalho Barreira
etéreos pensamentos
deixa-me crescer dentro de ti…
Fotografia / Poesia
arquivo: 2023_09_30_IMG_6636
O Rapto de Proserpina (poema)
Luís Carvalho Barreira
O Rapto de Proserpina (1621-2)
Escultura de Gian Lorenzo Bernini
Galleria Borghese
Fotografia
arquivo: 2023_02_24_DSCF0526_crop1
cama
confesso-vos
o ímpeto
cair convosco
não na cama,
mas no abismo das palavras
onde o corpo é metáfora
e o toque é apenas lume
arde
na língua do poema —
como a mão esculpida
que aperta
a coxa de Prosérpina
tudo o que o poema
pudesse dizer
era pouco,
tão pouco que ouso
dizer —
cama
2023, poema © LC Barreira
"Julgamento de Páris"
Luís Carvalho Barreira
serie: Figuras de Espanto
“julgamento de Páris”, 1995
Fotografia
Gelatin Silver Print
arquivo: 1995_FOLIO_203_12260_vs1
Mãe
Lurdes de Jesus Carvalho [Mãe] 29.12.1933 - 27.07.2022
Preencho espaços ausentes,
deambulo por intervalos vazios,
perscruto sons
entre vários silêncios –
formas difusas de ti, mãe.
Desejos que não posso ter,
raízes que me prendem à terra,
mas que teimam
em separar-se de mim.
É todo um vazio…
um vazio a pedir preenchimento –
que só tu,
[mãe],
me soubeste dar.
Cacófato - essa fada
corda
Luís Carvalho Barreira
acorda
discorda
recorda
a corda
concorda
com corda
diz corda
corda…
anartchist, 1986
Cálice
Luís Carvalho Barreira
Book in progress
Cálice, 2000
deixa-me beber o teu néctar
até ao último trago
e esqueçamos as torrentes
desse cálice
this is the end, 2021
HNY22
"O futuro é passado no presente"
Luís Carvalho Barreira
“O futuro é passado no presente” [anartchist] 2021
Fotografia
arquivo: 2021_11_21_DSCF8483
câmara: Fujifilm X 100F
"A vida não é de abrolhos."
Luís Carvalho Barreira
Tributo a Alexandre O’Neill
serie: paisagens habitadas
Fotografia
Gelatin Silver Print
arquivo: 1997_FOLIO_291_332
A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.
A vida não é de escolhos.
É de escolhas.
Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?
Serei eu a tua escolha?
Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!
Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça, 1972
“sei os teus seios”
© Luís Carvalho Barreira
“sei-os de cor”, 2018
tributo a Alexandre O’Neill
série: NUANCES
Fotografia
arquivo: 2018_05_15_DSCF7641_crop2
câmara: Fujifilm X 100F
Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?
Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
(Abade de Jazente)
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser
Alexandre O’Neill
dia da mãe
My Mother: Lurdes de Jesus Carvalho
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"
25 de Abril, Sempre
25 de Abril
Olhai à vossa volta
embriagai-vos com a verdade
cravos teremos sempre
pois vive em nós a Liberdade
© Luís Carvalho Barreira
Foto: 2019
"As Palavras"
© Luís Carvalho Barreira
Tributo a António Ramos Rosa
As Palavras
arquivo: 2020_04_01_DSCF4768
câmara: Fujifilm X 100F
António Ramos Rosa
As Palavras
Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras? Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras? O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas
de Gravitações (1984)
"As palavras mais nuas"
© Luís Carvalho Barreira
Tributo a António Ramos Rosa
Lisboa, 2020
serie: palavras nuas
Fotografia
arquivo: 2020_03_31_IMG_8831
câmara: Iphone 8
As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
António Ramos Rosa
"Moradas"
Tinha ainda muitas coisas para dizer
mas não as poderíeis suportar.
João, 16, 12
Manuel António Pina (Todas as Palavras - poesia reunida)
Luís Barreira
“Moradas”, 2019
série: palavras nuas
Fotografia
arquivo: 2019_06_16_NK2_5037
25 de Abril
25 de Abril
Ode aos poetas embriagados: de liberdade
Olhai à vossa volta
embriagai-vos com a verdade
cravos teremos sempre
pois vive em nós a Liberdade
Ó sedentos de poesia,
libertai o néctar
das rolhas que o oprimem.
Deixai que o vinho
solte a língua,
que as palavras se embriaguem
na taça dos vossos lábios.
Que cada verso tinto
tinga a página
com rubro delírio,
que o soneto vacile,
mas nunca caia.
E se a sede vos pedir água —
cedei-lhe,
mas apenas o bastante
para lavar o cálice
e recomeçar o rito.
Luís Carvalho Barreira
25 de Abril
Foto, 2019
Fotografia
arquivo: 2019_04_24_IMG_0869
