O ovo da Páscoa — o corpo fechado e o mistério da vida
Muitos dos símbolos que hoje associamos à Páscoa possuem uma longa história anterior ao cristianismo. Ovos, flores, animais, sementes, ritos de passagem e celebrações da Primavera participam de um universo simbólico muito mais antigo, ligado aos ciclos da Natureza, à fertilidade da terra, à reprodução e à renovação da vida. Com a expansão do cristianismo, algumas destas práticas foram progressivamente integradas, reinterpretadas ou ganhando um novo significado no interior da celebração da Páscoa e da Ressurreição de Cristo.
Mas por que razão o ovo se tornou um dos seus símbolos mais persistentes?
A resposta talvez esteja na própria forma do objecto.
O ovo é simultaneamente matéria e promessa. É um corpo fechado que contém, no seu interior, uma vida que ainda não podemos ver. A sua superfície esconde aquilo que está para nascer. Existe, portanto, uma tensão entre o exterior e o interior, entre aquilo que conhecemos e aquilo que permanece oculto. Antes de se abrir, o ovo é apenas matéria; depois de aberto, revela uma possibilidade de vida.
É precisamente esta condição que lhe confere uma extraordinária força simbólica.
O ovo pode representar o princípio, a origem, o germe, a fecundidade e a esperança. É uma imagem elementar da passagem entre o invisível e o visível: algo existe dentro dele, mas ainda não se manifestou. O ovo encerra, assim, uma espécie de promessa ontológica — a possibilidade de uma existência que ainda não aconteceu.
Neste sentido, o ovo aproxima-se de uma das questões fundamentais que atravessam a experiência humana: como nasce a vida?
O ser humano observa a Natureza e reconhece os seus ciclos. A semente desaparece na terra para depois germinar; o animal reproduz-se; a planta morre e renasce; o Inverno dá lugar à Primavera. O ovo participa desta mesma lógica. É um corpo aparentemente imóvel que contém movimento; uma matéria silenciosa que contém uma possibilidade; uma forma finita que guarda a promessa de uma nova existência.
É nesta relação entre corpo, fecundidade e transformação que podemos reconhecer uma manifestação do nosso corpo poiético.
O corpo poiético é aquele que não se limita a existir: gera, transforma e produz significado. O ovo constitui uma das suas imagens mais elementares. É um corpo que contém outro corpo; uma matéria que produz vida; uma forma que anuncia outra forma.
Ao longo da História, esta capacidade simbólica foi ampliada pela cultura.
No século XVI, Cesare Ripa, na sua Iconologia, representa a Fecundidade através de uma composição povoada por imagens de abundância e reprodução: uma mulher, aves com as suas crias, uma galinha acompanhada pelos pintos, ovos e uma lebre rodeada pelas suas crias. O conjunto não representa simplesmente a reprodução biológica. Constitui uma verdadeira gramática visual da abundância.
O ovo surge aqui integrado numa cadeia de correspondências: ovo, nascimento, cria, animal, mulher, terra e abundância.
A fertilidade humana e a fertilidade da Natureza encontram-se simbolicamente aproximadas. A mulher que gera uma criança e a terra que produz alimento participam de uma mesma experiência fundamental: a capacidade de produzir e sustentar a vida.
É importante, contudo, distinguir entre aquilo que podemos afirmar historicamente e aquilo que pertence ao domínio da interpretação simbólica. Não podemos afirmar que todas as comunidades pré-históricas atribuíam ao ovo exactamente os mesmos significados, nem que todos os rituais primaveris possuíam uma origem única. Podemos, porém, reconhecer uma recorrência extraordinária de símbolos associados à renovação, fecundidade e passagem entre morte e vida.
O mesmo princípio pode ser observado nos monumentos megalíticos.
No Alentejo, a Rocha dos Namorados, em São Pedro do Corval, conserva uma tradição popular particularmente expressiva. As jovens solteiras lançam pedras para o alto do afloramento rochoso, procurando através do sucesso ou do fracasso do lançamento uma resposta sobre o futuro casamento. A pedra, lançada para uma forma que se ergue da terra, participa de um ritual em que se cruzam terra, corpo, desejo, fertilidade e futuro.
A pedra torna-se, assim, um objecto de comunicação.
Não é apenas matéria. É uma matéria à qual o ser humano atribui significado.
Encontramos uma lógica semelhante nas construções megalíticas, onde pedras, alinhamentos e formas naturais são organizados segundo uma ordem que ultrapassa a sua simples função material. No Cromeleque dos Almendres, por exemplo, os menires são dispostos num espaço estruturado, revelando que a pedra podia adquirir uma dimensão ritual, social e simbólica.
Aqui reencontramos uma questão que atravessa todo este percurso: quando é que uma matéria deixa de ser apenas matéria?
Talvez quando o homem a transforma em signo.
A pedra, o ovo, o falo, a coluna, o obelisco ou a imagem do corpo podem tornar-se veículos através dos quais uma experiência humana é exteriorizada. O corpo poiético manifesta-se precisamente nessa capacidade de transformar matéria em representação e representação em pensamento.
A Páscoa cristã introduzirá uma nova dimensão nesta longa história simbólica.
O ovo, enquanto corpo fechado que contém uma vida invisível, encontra na Ressurreição uma poderosa possibilidade de outro significado. Cristo morre, é colocado no sepulcro e, no terceiro dia, ressuscita. O sepulcro fechado e o ovo fechado podem estabelecer, no plano simbólico — embora não necessariamente numa relação histórica de origem — uma analogia particularmente sugestiva: ambos encerram um mistério que só a abertura pode revelar.
A casca do ovo transforma-se, deste modo, numa espécie de limite entre dois estados da existência.
Dentro está a vida ainda invisível.
Fora está o mundo conhecido.
A ruptura da casca anuncia a passagem.
Da mesma maneira, a Ressurreição introduz no pensamento cristão a passagem da morte para a vida. O símbolo pagão da renovação natural e o símbolo cristão da Ressurreição não são necessariamente a mesma coisa, mas podem encontrar-se na imaginação cultural através de uma mesma estrutura simbólica: a morte não constitui necessariamente o fim; pode ser o limiar de uma transformação.
É talvez por isso que o ovo tenha sobrevivido com tanta força no imaginário pascal.
O cristianismo não precisou de eliminar completamente os símbolos anteriores. Em muitos contextos, pôde absorvê-los, transformá-los e atribuir-lhes novos significados. O símbolo sobrevive porque a forma permanece, mesmo quando a interpretação muda.
Esta capacidade de transformação acompanha a própria História da Arte.
Em 1885, o czar Alexandre III encomendou a Peter Carl Fabergé um ovo de Páscoa destinado à imperatriz Maria Feodorovna. Fabergé transformou o simples ovo num objecto de extraordinária sofisticação artística: uma forma exterior aparentemente fechada que escondia no seu interior uma surpresa.
O princípio simbólico permanecia.
O que está dentro?
A obra de arte torna-se, assim, uma espécie de ovo cultural: uma superfície que protege um conteúdo; um corpo que contém outro corpo; uma forma que convida à descoberta.
Também os jogos populares europeus associados aos ovos conservam esta dimensão de passagem e de expectativa. O egg rolling, por exemplo, coloca os ovos em movimento e testa a sua resistência. Noutros costumes, os ovos são escondidos e posteriormente procurados; noutros ainda são pintados, oferecidos ou colocados em competição.
Em todos estes casos, o ovo deixa de ser simplesmente alimento.
Transforma-se em objecto ritual, objecto lúdico, objecto de troca, objecto artístico e objecto simbólico.
A sua forma permanece praticamente inalterada, mas os significados multiplicam-se.
Talvez seja esta uma das características mais fascinantes dos símbolos: não possuem necessariamente um único significado; acumulam significados.
O ovo pré-histórico, o ovo primaveril, o ovo da fertilidade, o ovo pascal, o ovo oferecido, o ovo escondido, o ovo de Fabergé — são diferentes manifestações de uma mesma estrutura imaginária: um corpo fechado que contém uma possibilidade.
E regressamos, assim, ao princípio.
O ser humano nasce de um corpo e passa a vida a produzir corpos simbólicos: imagens, esculturas, edifícios, pinturas, objectos, palavras e obras de arte. Cria porque sabe que é mortal. Produz porque deseja permanecer. Representa porque procura tornar visível aquilo que não consegue tocar.
O ovo condensa esta experiência de forma exemplar.
É um corpo que contém outro corpo.
É matéria que contém vida.
É finito e, simultaneamente, promessa de continuidade.
É silêncio que anuncia nascimento.
Por isso, talvez possamos compreender o ovo como uma das imagens mais antigas do corpo poiético: uma forma aparentemente simples que contém em si o mistério da criação.
E talvez seja precisamente essa a razão pela qual, todos os anos, continuamos a oferecer ovos.
Não oferecemos apenas um objecto.
Oferecemos a promessa de que a vida continua.