Bathsheba segurando a carta do Rei David

Bathsheba holding king David's letter by Willem Drost, 1654.Louvre Museum

Bathsheba holding king David's letter by Willem Drost, 1654.

Louvre Museum


Segundo a Bíblia  (Livro Segundo de Samuel), o Rei David apaixonou-se por Bathsheba ao vê-la banhar-se, do alto do terraço de seu palácio. Sentiu-se atraído e chamou-a aos seus aposentos com quem manteve relações amorosas. Ao saber que Bathsheba era esposa de Urias, o Hitita, e que este estava há muito tempo em campanha militar, David ordenou que Urias regressasse, sugerindo que fosse passar uma noite com a esposa. Urias recusou, alegando que não era honroso fazê-lo deixando o exército de Israel e Judá numa batalha contra os amonitas. Tudo por um código de honra, os comandantes deverão permanecer acampados no campo de batalha ao lado dos seus soldados.

Após reiterada recusa, David enviou um oficial seu, comandante Joabe, com uma carta que ordenava colocar Urias na frente da batalha e assim deixá-lo sem protecção de modo a que ele fosse morto pelos inimigos. E foi o que aconteceu.

A esposa de Urias ficara grávida do Rei David, num caso de adultério.


texto: 2018 © Luís Carvalho Barreira



O profete Natã[1] desagradado fez saber (em profecia) ao rei David que esta criança não sobreviveria porque desobedeceu à palavra do Senhor e fez o mal aos seus olhos; arrebatou a esposa de Urias, o hitita, e sacrificou-o com a espada amonita que passou por ordem e acção a ser sua (Rei David).

Bathsheva e David tiveram um segundo filho[2] o Rei Salomão.

 

[1]  Foi um profeta que viveu durante o período do reinado de David e de Salomão, em Israel.

[2] Shimea, or Shammua, provavelmente a primeira criança de Bathsheba; Shobab de Bathsheba; Nathan (filho de David e Bathsheba) e segundo a Genealogia de Jesus em S. Lucas 3:31 possivelmente pai de Maria; Salomão (rei), de acordo com a genealogia de S. Mateus ascendente de José, pai de Jesus.


 

Ovo da Páscoa

Ovo, 1985

fotografia de Luís Carvalho Barreira


O ovo da Páscoa — o corpo fechado e o mistério da vida

 

 

Muitos dos símbolos que hoje associamos à Páscoa possuem uma longa história anterior ao cristianismo. Ovos, flores, animais, sementes, ritos de passagem e celebrações da Primavera participam de um universo simbólico muito mais antigo, ligado aos ciclos da Natureza, à fertilidade da terra, à reprodução e à renovação da vida. Com a expansão do cristianismo, algumas destas práticas foram progressivamente integradas, reinterpretadas ou ganhando um novo significado no interior da celebração da Páscoa e da Ressurreição de Cristo.

Mas por que razão o ovo se tornou um dos seus símbolos mais persistentes?

A resposta talvez esteja na própria forma do objecto.

O ovo é simultaneamente matéria e promessa. É um corpo fechado que contém, no seu interior, uma vida que ainda não podemos ver. A sua superfície esconde aquilo que está para nascer. Existe, portanto, uma tensão entre o exterior e o interior, entre aquilo que conhecemos e aquilo que permanece oculto. Antes de se abrir, o ovo é apenas matéria; depois de aberto, revela uma possibilidade de vida.

É precisamente esta condição que lhe confere uma extraordinária força simbólica.

O ovo pode representar o princípio, a origem, o germe, a fecundidade e a esperança. É uma imagem elementar da passagem entre o invisível e o visível: algo existe dentro dele, mas ainda não se manifestou. O ovo encerra, assim, uma espécie de promessa ontológica — a possibilidade de uma existência que ainda não aconteceu.

Neste sentido, o ovo aproxima-se de uma das questões fundamentais que atravessam a experiência humana: como nasce a vida?

O ser humano observa a Natureza e reconhece os seus ciclos. A semente desaparece na terra para depois germinar; o animal reproduz-se; a planta morre e renasce; o Inverno dá lugar à Primavera. O ovo participa desta mesma lógica. É um corpo aparentemente imóvel que contém movimento; uma matéria silenciosa que contém uma possibilidade; uma forma finita que guarda a promessa de uma nova existência.

É nesta relação entre corpo, fecundidade e transformação que podemos reconhecer uma manifestação do nosso corpo poiético.

O corpo poiético é aquele que não se limita a existir: gera, transforma e produz significado. O ovo constitui uma das suas imagens mais elementares. É um corpo que contém outro corpo; uma matéria que produz vida; uma forma que anuncia outra forma.

Ao longo da História, esta capacidade simbólica foi ampliada pela cultura.

No século XVI, Cesare Ripa, na sua Iconologia, representa a Fecundidade através de uma composição povoada por imagens de abundância e reprodução: uma mulher, aves com as suas crias, uma galinha acompanhada pelos pintos, ovos e uma lebre rodeada pelas suas crias. O conjunto não representa simplesmente a reprodução biológica. Constitui uma verdadeira gramática visual da abundância.

O ovo surge aqui integrado numa cadeia de correspondências: ovo, nascimento, cria, animal, mulher, terra e abundância.

A fertilidade humana e a fertilidade da Natureza encontram-se simbolicamente aproximadas. A mulher que gera uma criança e a terra que produz alimento participam de uma mesma experiência fundamental: a capacidade de produzir e sustentar a vida.

É importante, contudo, distinguir entre aquilo que podemos afirmar historicamente e aquilo que pertence ao domínio da interpretação simbólica. Não podemos afirmar que todas as comunidades pré-históricas atribuíam ao ovo exactamente os mesmos significados, nem que todos os rituais primaveris possuíam uma origem única. Podemos, porém, reconhecer uma recorrência extraordinária de símbolos associados à renovação, fecundidade e passagem entre morte e vida.

O mesmo princípio pode ser observado nos monumentos megalíticos.

No Alentejo, a Rocha dos Namorados, em São Pedro do Corval, conserva uma tradição popular particularmente expressiva. As jovens solteiras lançam pedras para o alto do afloramento rochoso, procurando através do sucesso ou do fracasso do lançamento uma resposta sobre o futuro casamento. A pedra, lançada para uma forma que se ergue da terra, participa de um ritual em que se cruzam terra, corpo, desejo, fertilidade e futuro.

A pedra torna-se, assim, um objecto de comunicação.

Não é apenas matéria. É uma matéria à qual o ser humano atribui significado.

Encontramos uma lógica semelhante nas construções megalíticas, onde pedras, alinhamentos e formas naturais são organizados segundo uma ordem que ultrapassa a sua simples função material. No Cromeleque dos Almendres, por exemplo, os menires são dispostos num espaço estruturado, revelando que a pedra podia adquirir uma dimensão ritual, social e simbólica.

Aqui reencontramos uma questão que atravessa todo este percurso: quando é que uma matéria deixa de ser apenas matéria?

Talvez quando o homem a transforma em signo.

A pedra, o ovo, o falo, a coluna, o obelisco ou a imagem do corpo podem tornar-se veículos através dos quais uma experiência humana é exteriorizada. O corpo poiético manifesta-se precisamente nessa capacidade de transformar matéria em representação e representação em pensamento.

A Páscoa cristã introduzirá uma nova dimensão nesta longa história simbólica.

O ovo, enquanto corpo fechado que contém uma vida invisível, encontra na Ressurreição uma poderosa possibilidade de outro significado. Cristo morre, é colocado no sepulcro e, no terceiro dia, ressuscita. O sepulcro fechado e o ovo fechado podem estabelecer, no plano simbólico — embora não necessariamente numa relação histórica de origem — uma analogia particularmente sugestiva: ambos encerram um mistério que só a abertura pode revelar.

A casca do ovo transforma-se, deste modo, numa espécie de limite entre dois estados da existência.

Dentro está a vida ainda invisível.

Fora está o mundo conhecido.

A ruptura da casca anuncia a passagem.

Da mesma maneira, a Ressurreição introduz no pensamento cristão a passagem da morte para a vida. O símbolo pagão da renovação natural e o símbolo cristão da Ressurreição não são necessariamente a mesma coisa, mas podem encontrar-se na imaginação cultural através de uma mesma estrutura simbólica: a morte não constitui necessariamente o fim; pode ser o limiar de uma transformação.

É talvez por isso que o ovo tenha sobrevivido com tanta força no imaginário pascal.

O cristianismo não precisou de eliminar completamente os símbolos anteriores. Em muitos contextos, pôde absorvê-los, transformá-los e atribuir-lhes novos significados. O símbolo sobrevive porque a forma permanece, mesmo quando a interpretação muda.

Esta capacidade de transformação acompanha a própria História da Arte.

Em 1885, o czar Alexandre III encomendou a Peter Carl Fabergé um ovo de Páscoa destinado à imperatriz Maria Feodorovna. Fabergé transformou o simples ovo num objecto de extraordinária sofisticação artística: uma forma exterior aparentemente fechada que escondia no seu interior uma surpresa.

O princípio simbólico permanecia.

O que está dentro?

A obra de arte torna-se, assim, uma espécie de ovo cultural: uma superfície que protege um conteúdo; um corpo que contém outro corpo; uma forma que convida à descoberta.

Também os jogos populares europeus associados aos ovos conservam esta dimensão de passagem e de expectativa. O egg rolling, por exemplo, coloca os ovos em movimento e testa a sua resistência. Noutros costumes, os ovos são escondidos e posteriormente procurados; noutros ainda são pintados, oferecidos ou colocados em competição.

Em todos estes casos, o ovo deixa de ser simplesmente alimento.

Transforma-se em objecto ritual, objecto lúdico, objecto de troca, objecto artístico e objecto simbólico.

A sua forma permanece praticamente inalterada, mas os significados multiplicam-se.

Talvez seja esta uma das características mais fascinantes dos símbolos: não possuem necessariamente um único significado; acumulam significados.

O ovo pré-histórico, o ovo primaveril, o ovo da fertilidade, o ovo pascal, o ovo oferecido, o ovo escondido, o ovo de Fabergé — são diferentes manifestações de uma mesma estrutura imaginária: um corpo fechado que contém uma possibilidade.

E regressamos, assim, ao princípio.

O ser humano nasce de um corpo e passa a vida a produzir corpos simbólicos: imagens, esculturas, edifícios, pinturas, objectos, palavras e obras de arte. Cria porque sabe que é mortal. Produz porque deseja permanecer. Representa porque procura tornar visível aquilo que não consegue tocar.

O ovo condensa esta experiência de forma exemplar.

É um corpo que contém outro corpo.

É matéria que contém vida.

É finito e, simultaneamente, promessa de continuidade.

É silêncio que anuncia nascimento.

Por isso, talvez possamos compreender o ovo como uma das imagens mais antigas do corpo poiético: uma forma aparentemente simples que contém em si o mistério da criação.

E talvez seja precisamente essa a razão pela qual, todos os anos, continuamos a oferecer ovos.

Não oferecemos apenas um objecto.

Oferecemos a promessa de que a vida continua.

Texto © Luís Barreira, 1991

Dia da mãe

"Mãe de Deus" ou "Virgem Maria"

Masolino da Panicale (1383-1447)Madonna dell'umiltà c. 1423

Masolino da Panicale (1383-1447)

Madonna dell'umiltà c. 1423

Há muito que o culto Mariano se institucionalizou entre os católicos. Para ser mais preciso desde o primeiro Concílio de Éfeso onde a “Mãe de Deus”, defendida pelos Nestorianos, passou a ser “Virgem Maria” retirando-lhe o lado humano -mortal. Porém, durante muitos anos (séculos) a Virgem Maria foi representada mais como mãe, e mãe de todos nós, do que de uma santidade se tratasse. O lado humano está presente na dádiva, no aconchego junto ao regaço, no carinho posto no olhar e na gentileza das mãos delicadas protegendo o menino – o filho. Despojada de qualquer bem terreno, Maria cobre a cabeça com um véu ocultando os longos cabelos afastando qualquer olhar concupiscente. Quando olhamos para a “Mãe de Deus” presenciamos as nossas mães…

II_Catacumba_Priscila_Roma.jpg

Em Roma, na catacumba de Priscila, encontra-se uma pintura quase apagada pelo tempo representando a Virgem Maria amamentando o Menino Jesus no colo. Nesta imagem do século II poderemos ver o profeta Balaão a apontar para uma estrela pintada mais no alto da cabeça da mulher. O menino nu apoiado nos braços da mãe poderá ser a primeira representação da Virgem Maria, conhecida.

Hoje, dia 8 de Dezembro, é marcado por duas celebrações cristãs de significados antagónicos: a evocação popular da Nossa Senhora da Concepção (Conceição) celebrando o arquétipo da maternidade, e a celebração da Nossa Senhora sem Mácula (Imaculada) dogma introduzido no século XII, embora rejeitado por São Tomás de Aquino entre outros teólogos, que foi sustentado e aceite em 1854 pelo Papa Bento XIV.

A Senhora sem mácula é a nossa mãe.

(*o dia da mãe foi durante muito tempo comemorado no dia 8 de dezembro. É tradição montar a árvore de Natal e enfeitar a casa no dia 8 de dezembro, dia de N. Sra. da Conceição)


Texto © Luís Barreira, 1997

 

Goya, La Maja desnuda, 1800

La Maja desnuda de Francisco Goya

Francisco de Goya (1746-1828)Pepita Tudó "La Maja desnuda", 1800Dimensões: 97 cm x 190 cmMaterial: Tinta a óleoLocalização: Museu do PradoCriação: 1797–1800

Francisco de Goya (1746-1828)

Pepita Tudó "La Maja desnuda", 1800

Dimensões: 97 cm x 190 cm

Material: Tinta a óleo

Localização: Museu do Prado

Criação: 1797–1800


Os mistérios de “La Maja desnuda, c.1800” uma “obra menor” no percurso artístico de Francisco Goya?!

 

Goya, aos dezassete anos, transferiu-se para Madrid onde estudou com Anton Raphael Mengs, pintor da corte espanhola. Depois de duas tentativas (1763-66) foi recusada a entrada na academia de Belas Artes. Mais tarde, em 25 de abril de 1785, depois da morte de Carlos III e da coroação de Carlos IV, foi nomeado "Primeiro Pintor da Câmara do Rei", tornando-se o pintor oficial do monarca e da sua família. É com este estatuto que Goya se torna num retratista da corte e da nobreza espanhola acompanhando o gosto do academicismo vigente. Goya realizou inúmeros retratos e, entre muitos, destacamos o da figura de Manuel Godoy representado, ao jeito neoclássico, como vencedor da “Guerra das laranjas” entre espanhóis e portugueses sem que tivesse grande oposição por parte dos seus beligerantes.

Manuel Godoy retratado por Goya, 1801

Manuel Godoy retratado por Goya, 1801

Quem foi Manuel Godoy?

Manuel Godoy foi primeiro-ministro de Carlos IV, Rei de Espanha. Durante as invasões francesas as suas posições dúbias tornaram-no no joguete de Napoleão acalentando a ideia de poder ser príncipe do sul de Portugal (Alentejo e Algarve), promessa feita por parte de Napoleão Bonaparte no Tratado de Fontainebleau (secreto, 1807).

A ascensão de Manuel Godoy na corte espanhola deveu-se muito ao romance que manteve com Maria Luísa de Parma, esposa de Carlos IV.

Godoy casou-se com Maria Teresa de Borbón y Villabriga, 1797 e divorciaram-se em 1808. Todavia, manteve um relacionamento escaldante com a andaluza Pepita Tudó (1779-1869) de 17 anos com quem viria a casar depois da morte de sua mulher. Feita condessa de Castillofiel, Pepita Tudó terá sido a modelo de La Maja desnuda de Goya (Tese defendida por Robert Hughes no livro Goya, 2003).

 

Mas como é que podemos enquadrar a pintura erótica de La Maja desnuda (única no percurso artístico de Goya) no movimento romântico?

A decadência das monarquias absolutistas – Ancien Régime – promovera o lado hedonista e intimista da nobreza europeia. O culto artístico no final do Barroco (O Rococó) era de um naturalismo erótico, muitas das vezes camuflados em histórias mitológicas. Os desejos dos seus promotores alicerçados na futilidade das suas ações, dos encontros amorosos e na sensualidade de uma vida ociosa, eram o enquadramento da sociedade nobre e burguesa do final do século XVIII. Assim, a encomenda feita de Manuel Godoy a Goya de um nu deitado enquadra-se no espírito da arte do Rococó onde os “Boucher’s”, os “Fragonard’s”, tinham lugar de destaque nos aposentos dos seus encomendadores.

La Maja desnuda… e mais tarde La Maja vestida serviram de ostentação privada na galeria do seu ministério a par de outras obras que Godoy tinha no seu gabinete. Segundo relato de Gonzalez de Sepúlveda (referência tirada da página do Museu do Prado), possuía «vários quadros que poderiam ser observados: Vénus ao espelho de Velasquez, Vénus de Ticiano e uma (vénus) de Goya».

Ticiano, Vénus de Urbino, 1538Velasquez, Vénus ao espelho, 1648Goya, Maja desnuda, 1800

Ticiano, Vénus de Urbino, 1538

Velasquez, Vénus ao espelho, 1648

Goya, Maja desnuda, 1800

Esta obra de Goya, La Maja desnuda, (que inicialmente deu pelo nome de Gitana, conforme descrito no inventário do palácio Godoy) ultrapassou todos os limites representativos do nu, do belo clássico enquanto metáfora do ideal de beleza. O nu de La Maja desnuda é carnal, é concupiscente, oferece-se ao observador deixando a descoberto todo o corpo nos seus mais íntimos detalhes. É provocante e ao mesmo tempo vulnerável. Não obstante, a nudez de La Maja não se esconde atrás de nenhuma divindade, é identificável, tem nome: Pepita Tudó. A vulnerabilidade da amante levou Manuel Godoy a encomendar outra pintura a Goya, La Maja vestida, com as mesmas dimensões, quiçá, para colocar no verso da primeira e assim poder alternar/ocultar a menos conveniente.

Esta pintura utiliza uma paleta de cores tonais contrastada pelo claro/escuro aqui reforçado pela ausência de outros elementos formais que possam alterar a dinâmica da composição. Um fundo quase monocromático intensifica a vulnerabilidade do nu reclinado com as mãos atrás da cabeça. Ao realismo retratado do nu, incluindo as zonas erógenas (nunca antes realizado), é contraposto uma maior expressividade dada ao tratamento do drapeado, do canapé e dos tecidos envolventes. Pinceladas rápidas, sobrepostas, confere-lhe alguma modernidade plástica afastando a pintura de Goya do neoclassicismo e do romantismo da época.

“La Maja Desnuda” pintada ainda antes de 1800 tornar-se-á na pintura mais controversa no universo artístico de Goya arrastando, ainda hoje, milhares de pessoas ao Museu do Prado, em Madrid, onde está exposta desde 1901.

A genialidade de Goya.

Goya, depois de abandonar a Academia de Belas Artes, após críticas à instituição de coartar a liberdade criativa dos artistas, refugia-se na “Quinta do Surdo”, a casa de campo que adquiriu em 1819, onde pintou as mais escuras e misteriosas pinturas.

Uma doença grave (1792) e as invasões napoleónicas deixaram um Goya revoltado com a ganância de alguns; amargurado com o desrespeito pelo sofrimento dos mais desfavorecidos; indignado com os comportamentos insanos dos seres humanos. Assim, entre os anos de 1810 e 1814, produziu a sua “obra maior”, começada com uma série de gravuras (Los Desastres de la Guerra) e desenvolvida numa pintura denunciando os horrores da guerra.

Estas pinturas utilizando cores fortes, contrastes herdados do barroco (claro/escuro), pinceladas rápidas em velaturas energicamente sobrepostas conferem expressão e dramaticidade às figuras reveladas: olhares desesperados, gritos, rostos disformes, gestos que traduzem, não só um imaginário, mas o mal-estar do autor com a realidade social espanhola. “Os fuzilamentos de três de Maio, 1808” será, talvez, a obra icónica conferindo à pintura de Goya uma modernidade dentro do contexto do movimento romântico. Goya experimenta uma linguagem plástica de índole expressionista (já abordada, de certa maneira, em El Greco e em Rembrandt) e depois prosseguida por William Turner acabando por ser assumida pelos movimentos expressionistas no período de transição do século XIX/XX.



Texto de Luís Barreira ©2005-2017

Artemisia Gentileschi

Artemisia Gentileschi (Roma, 1593 – Nápoles, 1653)Judith e a sua Serva (1613-14)Óleo s/telaPalazzo Pitti, Florence

Artemisia Gentileschi (Roma, 1593 – Nápoles, 1653)

Judith e a sua Serva (1613-14)

Óleo s/tela

Palazzo Pitti, Florence

Artemisia Gentileschi — uma mulher que abriu caminho na História da Arte

 

 

Os diferentes estádios em que a Mulher se encontra, no que respeita ao reconhecimento e à plena concretização dos seus direitos humanos, nas mais diversas sociedades e geografias do mundo, explicam por que razão o Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de Março, permanece uma data necessária.

Mais do que uma celebração, esta data constitui uma oportunidade para revisitar a História e compreender o longo percurso de afirmação da mulher na sociedade: as conquistas alcançadas, as desigualdades que persistem e, sobretudo, o contributo tantas vezes silenciado ou subestimado das mulheres nos domínios da ciência, da cultura, das artes, da política e da vida social.

A História da Arte é, nesse sentido, particularmente reveladora. Durante séculos, a criação artística foi predominantemente narrada a partir de uma perspectiva masculina, relegando para segundo plano numerosas mulheres que, apesar das restrições impostas pela sua condição, conseguiram afirmar-se e deixar uma obra de extraordinária relevância.

Entre essas figuras encontra-se Artemisia Gentileschi, uma das mais notáveis pintoras do Barroco italiano e uma personalidade incontornável da pintura europeia do século XVII.

Filha do pintor Orazio Gentileschi, Artemisia formou-se num ambiente artístico profundamente marcado pela tradição caravaggista. A sua pintura distingue-se pela intensidade dramática, pelo domínio da luz e da cor e, sobretudo, pela representação de figuras femininas dotadas de força, determinação e agência. Nas suas telas, as mulheres deixam frequentemente de ser meras personagens secundárias para assumirem o centro da narrativa.

É particularmente significativo que Artemisia tenha conquistado reconhecimento num universo artístico em que o acesso das mulheres à formação, às instituições e à profissão de artista era extraordinariamente limitado. Em 1616, em Florença, tornou-se a primeira mulher a ser admitida na Accademia delle Arti del Disegno, uma instituição fundada no século XVI que reunia alguns dos mais importantes artistas e intelectuais do seu tempo.

A tela Judite e a sua Serva, realizada nos primeiros anos da sua carreira, inscreve-se numa das narrativas bíblicas que mais profundamente marcaram a sua produção: a história de Judite, que decapita Holofernes para libertar o seu povo. A escolha deste episódio não é, por si só, exclusiva de Artemisia — foi amplamente representado na pintura europeia —, mas a intensidade psicológica e a dignidade conferida às suas personagens femininas tornam a sua interpretação particularmente expressiva.

Recordar Artemisia Gentileschi no Dia Internacional da Mulher é, portanto, mais do que evocar uma grande pintora. É recordar uma mulher que viveu num tempo em que o talento feminino encontrava obstáculos institucionais, sociais e culturais consideráveis e que, apesar deles, conquistou um lugar próprio na História da Arte.

Muitas outras mulheres poderiam ser hoje recordadas e enaltecidas pelos seus feitos, pela sua coragem, pelo sofrimento suportado ou pelas injustiças e humilhações que lhes foram infligidas. Cada uma delas representa uma parcela dessa longa história de resistência, criação e afirmação.

A minha singela homenagem resume-se, assim, em Artemisia Gentileschi — não apenas pela excelência da sua pintura, mas também pelo significado histórico da sua trajectória: a de uma mulher que, num mundo essencialmente concebido pelos homens e para os homens, conseguiu fazer da sua arte uma forma de existência, reconhecimento e liberdade.

Que a sua obra continue a ser não apenas contemplada, mas também lida à luz do seu tempo e da extraordinária mulher que a criou.

 

1999 © Luís Carvalho Barreira