Conversas à mesa — troncha ou couve-galega

A construção da portugalidade para além do mito do sangue luso

 

É à mesa que se conhece uma família, que a gente se entende, que se celebra e que se faz a festa. É também à volta da mesa que melhor se conhece uma cultura. Os produtos gastronómicos, as formas de os preparar e os modos de os partilhar transportam memórias, práticas e identidades.

Juntemo-nos, então, à mesa: um angolano, um brasileiro, um português e um galego. Preparemos um cozido à portuguesa — ou, para outros, um cocido gallego —, prato perfilhado, adaptado e reinventado por diferentes comunidades.

Lá estão as carnes, os enchidos, o presunto e os legumes. E, quando chegamos aos legumes, surge a memória do palato: couve-troncha, penca ou galega? Qual é a mais saborosa?

Há quem diga que a melhor é aquela que conheceu as agruras do inverno: o frio, as geadas, o sincelo, as noites longas que lhe conferem uma suculência particular. Uma penca transmontana não é necessariamente igual à couve minhota, tal como esta não será igual à couve cultivada do outro lado da fronteira, na Galiza. Distinguimo-las pelo sabor, pela textura, pela variedade, pelas condições em que foram cultivadas e pela mão de quem as trabalhou.

O lugar importa. A terra, o clima, as práticas agrícolas e os saberes transmitidos conferem particularidades ao produto. Uma couve-troncha não deixa de ser uma couve-troncha por atravessar uma fronteira, nem se torna simplesmente “portuguesa” porque alguém assim a nomeia. Há características que pertencem ao território onde criou raízes, às práticas que a moldaram e às comunidades que lhe atribuíram significado.

O meu amigo angolano nasceu em Luanda, numa família de origem portuguesa. O amigo brasileiro encontra no cozido à portuguesa as memórias da avó. O amigo galego remete, com algum humor político, para tradições culinárias anteriores às fronteiras nacionais e à própria nacionalidade que hoje conhecemos. Povos e comunidades de diferentes épocas deixaram-nos sabores, técnicas e memórias que hoje podemos reconhecer como próximos.

Podemos partilhar exactamente o mesmo deleite. Podemos reconhecer os mesmos sabores e contar histórias diferentes sobre eles. O que nos separa pode ser, em parte, a nacionalidade que atribuímos àquilo que estamos a comer.

É nesta pequena disputa gastronómica que começa a nossa provocação histórica.

Quando é que uma couve passa a ser portuguesa? Quando é que passa a ser galega? Será pela semente? Pelo lugar onde nasceu? Pela mão que a cultivou? Pela receita em que foi integrada? Ou pela memória de quem a come?

E, sobretudo, quem tem autoridade para determinar a sua nacionalidade?

A pergunta pode parecer absurda quando aplicada a uma couve. Torna-se, porém, muito mais séria quando aplicada às pessoas e às comunidades.

Porque aquilo que fazemos com a couve fazemos, muitas vezes, também com os seres humanos: procuramos uma origem, atribuímos uma pertença e imaginamos que essa pertença pode ser inscrita num território, numa língua, numa cultura ou, em versões mais essencialistas, no próprio sangue.

Mas a portugalidade não resulta de uma continuidade racial, étnica ou sanguínea linear. Não é uma substância que tenha permanecido intacta desde a formação do reino e que se tenha transmitido de geração em geração como uma herança biológica.

É, antes, uma construção histórica: o resultado de processos de territorialização, poder, conflito, negociação, mobilidade, incorporação de populações, construção institucional, legitimação política e produção de memória.

O que hoje reconhecemos como identidade portuguesa foi sendo construído ao longo de séculos. Formou-se através de contactos, deslocações, conflitos, alianças, incorporações e diferenciações. As fronteiras mudaram, as populações circularam, as instituições transformaram-se e as formas de definir quem pertencia a uma comunidade política também se alteraram.

A portugalidade, nesse sentido, não é apenas uma herança. É também uma construção.

Não é somente aquilo que recebemos dos antepassados, mas aquilo que sociedades sucessivas foram reconhecendo, negociando e transmitindo como sendo “português”.

É à mesa da investigação histórica que importa, por isso, questionar a ideia de uma portugalidade inscrita desde sempre no sangue de um povo.

Tal como não basta olhar para a semente para determinar a nacionalidade de uma couve, também não basta procurar nos antepassados uma suposta essência portuguesa para explicar a identidade de uma comunidade.

Entre a origem e aquilo que somos existe história.

E é precisamente nessa história — feita de encontros, fronteiras, migrações, conflitos, adaptações e memórias — que devemos procurar a construção da portugalidade.

 

O mito luso

 

A ideia de uma continuidade entre Lusitanos, Viriato e portugueses é uma das formas mais persistentes de imaginar uma ancestralidade portuguesa. Mas essa continuidade não deve ser tomada como um dado histórico evidente. Deve, antes, ser estudada como uma construção discursiva: uma forma, historicamente situada, de interpretar e organizar o passado.

A recuperação da Lusitânia e de Viriato ganhou particular força a partir do Renascimento. Autores como André de Resende, na sua obra Das Antiguidades da Lusitânia, e Luís de Camões, n’Os Lusíadas, contribuíram para integrar a Antiguidade numa narrativa mais ampla sobre as origens e a grandeza de Portugal.

À genealogia dinástica e territorial veio juntar-se uma genealogia heróica: a procura de um passado anterior à própria formação do reino que pudesse funcionar como fundamento remoto da identidade portuguesa.

O problema não está em reconhecer a importância histórica da Lusitânia, dos povos que os autores antigos identificaram como Lusitanos ou da figura de Viriato. O problema começa quando essas realidades da Antiguidade são retrospectivamente integradas numa narrativa nacional que lhes atribui uma função que originalmente não poderiam ter: a de serem antepassados de uma comunidade política chamada Portugal, que ainda não existia.

É aqui que importa separar duas perguntas muito diferentes.

A primeira é: quem eram os Lusitanos?

A segunda, historicamente mais reveladora, é: quando, como e por que razão os Lusitanos passaram a ser apresentados como antepassados dos portugueses?

A primeira pergunta pertence sobretudo à história da Antiguidade. A segunda pertence também à história da memória, da identidade e da construção das narrativas nacionais.

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

Em vez de procurarmos nos Lusitanos uma espécie de origem portuguesa primordial, devemos investigar os momentos e os contextos em que autores, instituições e comunidades começaram a estabelecer essa ligação.

O que importa, portanto, não é demonstrar simplesmente que os portugueses “descendem” dos Lusitanos, mas compreender por que razão essa descendência — real, imaginada ou simbólica — se tornou uma narrativa tão útil para pensar Portugal.

O chamado mito luso pode, assim, ser entendido como uma das camadas através das quais uma comunidade política posterior procurou construir para si uma ancestralidade profunda, autónoma e heróica.

A Antiguidade passou a funcionar como um espelho retroactivo: procurou-se nela não apenas aquilo que tinha existido, mas aquilo que se desejava encontrar como origem.

Viriato ocupa, nesse processo, um lugar particularmente significativo. A sua transformação em herói nacional não resulta simplesmente da sobrevivência da memória de uma personagem antiga. Resulta da sua reinvenção sucessiva como símbolo de resistência, liberdade e oposição ao poder estrangeiro.

O Viriato que interessa à construção da identidade portuguesa é, por isso, também um produto das épocas que o recordaram.

O passado não fala sozinho.

É interrogado, seleccionado e organizado por aqueles que o recebem.

E talvez seja precisamente aí que comece uma parte importante da história da portugalidade: não na descoberta de um sangue antigo que teria permanecido intacto, mas na sucessiva construção de narrativas capazes de transformar populações, territórios, personagens e memórias do passado em antepassados de uma comunidade do presente.

 

Antes do sangue, as linhagens

 

A própria formação medieval do reino de Portugal dificulta qualquer interpretação baseada numa origem única.

Portugal não surgiu de uma comunidade previamente definida que, num determinado momento, tivesse simplesmente adquirido um reino. Formou-se no interior do espaço político e cultural do noroeste peninsular e das monarquias cristãs medievais.

As tradições asturianas, leonesas e galegas fizeram parte desse universo político, dinástico e cultural. A formação do condado e, posteriormente, do reino de Portugal desenvolveu-se nesse contexto, através de alianças, disputas, heranças, conquistas, reorganizações territoriais e diferentes formas de legitimidade.

As linhagens que participaram nesse processo também tinham proveniências diversas.

Com a chegada do conde D. Henrique e da sua linhagem, ligada à aristocracia de origem borgonhesa, acrescentou-se uma nova dimensão à composição das elites dirigentes. Mas essa presença não aconteceu fora da realidade peninsular: D. Henrique integrou-se num sistema político, matrimonial e dinástico já existente, e a sua descendência passou a disputar e a construir poder dentro dele.

É importante, por isso, não transformar linhagens aristocráticas em “povos” distintos, como se cada família transportasse consigo uma identidade nacional pronta.

Na sociedade medieval, a pertença política e dinástica obedecia a lógicas diferentes das nacionalidades modernas. O que hoje chamaríamos português, galego, leonês ou borgonhês não correspondia necessariamente às categorias com que aquelas pessoas compreendiam a sua própria pertença.

Estas diferentes proveniências não desapareceram para que Portugal pudesse existir. Foram incorporadas, negociadas, reorganizadas e, com o tempo, integradas numa narrativa de especificidade portuguesa.

Isto é importante porque desloca a discussão.

A questão não é descobrir qual destas matrizes era a “verdadeiramente portuguesa”. Essa pergunta transporta para a Idade Média uma ideia de nacionalidade que ainda estava longe de possuir o significado que hoje lhe atribuímos.

A questão é perceber como diferentes linhagens, territórios, comunidades e tradições de legitimidade foram reunidos numa construção política que veio progressivamente a ser reconhecida como Portugal.

O reino precedeu, em muitos sentidos, a ideia moderna de nação. E a identidade que posteriormente associamos a esse reino não foi simplesmente herdada de uma população homogénea: foi sendo construída à medida que o próprio espaço político se consolidava.

A identidade não precedeu necessariamente essa construção. Em muitos aspectos, foi também produzida por ela.

Antes do sangue, estavam as linhagens. Antes da nação, estavam as relações de poder, os territórios, as dinastias e as comunidades políticas.

E é nesse mundo, muito mais complexo do que qualquer genealogia linear, que começa a tomar forma aquilo a que mais tarde chamaremos Portugal.

Quem nomeia quem?

Conceitos como “Lusitano”, “Galego” ou “Português” não devem ser tratados automaticamente como categorias étnicas estáveis, dotadas do mesmo significado ao longo dos séculos.

É necessário perguntar: quem nomeia, quem é nomeado, em que contexto e com que finalidade?

Os nomes não são meros rótulos. Podem classificar populações, delimitar territórios, estabelecer diferenças e produzir formas de pertença.

Uma comunidade política não se constrói apenas através da integração de populações. Constrói-se também através da produção de categorias, fronteiras e narrativas que permitem distinguir “nós” de “eles”.

Território, instituições, relações de fidelidade, religião, língua, guerra, dinastia e memória participam nesse processo. Em diferentes momentos, alguns desses elementos podem adquirir maior importância do que outros. As formas de pertença transformam-se, tal como se transformam as palavras usadas para as descrever.

E, uma vez consolidadas, essas construções podem adquirir uma aparência de naturalidade.

O que foi historicamente produzido pode começar a parecer simplesmente herdado. O que resultou de escolhas, conflitos, negociações e circunstâncias pode ser apresentado como se tivesse existido desde sempre.

É precisamente aí que surge o “sangue luso”.

O sangue como metáfora da continuidade

A expressão “sangue luso” é particularmente reveladora porque transforma uma história complexa numa imagem de transmissão simples.

O sangue parece resolver aquilo que a história torna difícil: estabelece uma linha contínua entre passado e presente, entre antepassado e descendente, entre um povo antigo e uma nação moderna.

Onde a história encontra rupturas, misturas, deslocações e transformações, o sangue oferece a aparência de uma continuidade sem interrupção.

Mas é precisamente essa linearidade que importa questionar.

O “sangue luso”, enquanto explicação da portugalidade, é menos uma demonstração de continuidade biológica do que uma metáfora política da permanência.

Permite imaginar que uma comunidade histórica contingente existiu desde sempre, apenas aguardando o momento de se reconhecer enquanto tal.

O problema dessa narrativa não está em admitir que possa existir continuidade populacional. Naturalmente, populações não desaparecem magicamente quando mudam os poderes políticos, as fronteiras ou os nomes pelos quais são designadas.

O problema está em transformar essa continuidade demográfica — sempre complexa, desigual e sujeita a mobilidades e recomposições — numa continuidade nacional automática.

Ter antepassados que viveram num determinado território não significa que esses antepassados fossem portugueses no sentido em que hoje entendemos a palavra.

É precisamente aqui que a investigação histórica deve deslocar a pergunta.

Não perguntar apenas:

“De que povos descendem os portugueses?”

Mas sobretudo:

“Como é que diferentes populações passaram a ser integradas numa comunidade que veio a ser reconhecida como portuguesa?”

E ainda:

“Como é que essa construção histórica foi posteriormente apresentada como se fosse uma continuidade ancestral?”

A primeira pergunta procura uma origem.

A segunda procura um processo.

E é na passagem da origem para o processo que o mito do sangue começa a perder a sua evidência.

A portugalidade deixa então de aparecer como uma substância transmitida pelos antepassados e passa a ser compreendida como aquilo que a história foi produzindo: uma forma de pertença construída no tempo, reconhecida, disputada, transmitida e continuamente reinventada.

 

Depois do repasto

 

Talvez a portugalidade se pareça menos com uma linhagem de sangue e mais com um cozido.

Um cozido não deixa de ter identidade porque os seus ingredientes têm histórias diferentes. Pelo contrário: a sua identidade resulta precisamente da combinação, da transformação e da apropriação desses ingredientes.

Cada elemento conserva características próprias, mas, uma vez reunidos, participa de uma realidade que não existia antes daquela combinação.

O território transforma-os. As práticas transformam-nos. As pessoas transformam-nos. A memória transforma-os.

O resultado adquire uma identidade própria sem que cada ingrediente tenha de possuir uma origem única ou exclusivamente nacional.

A portugalidade pode ser pensada de maneira semelhante.

Não como uma herança imóvel recebida do passado, nem como a transmissão linear de um sangue ancestral, mas como uma relação histórica com o passado, permanentemente reconstruída no presente.

Isso não significa que tudo seja mistura indiferenciada, nem que as diferenças desapareçam.

Significa, antes, reconhecer que as identidades históricas se formam através de relações: entre pessoas e territórios, entre comunidades e instituições, entre memórias e esquecimentos, entre aquilo que se herda e aquilo que se transforma.

A questão fundamental deixa, portanto, de ser:

“De que sangue descendem os portugueses?”

E passa a ser:

“Como se tornou possível que populações historicamente diversas passassem a reconhecer-se — e a ser reconhecidas — como portuguesas?”

É aqui que a couve ganha raízes.

A couve portuguesa, a couve-galega, a penca, a couve-troncha: talvez a disputa nunca tenha sido verdadeiramente sobre a couve.

Talvez seja sobre a necessidade humana de atribuir fronteiras, origens e pertenças a coisas que circularam, foram transformadas e receberam novos significados muito antes de as fronteiras nacionais adquirirem a forma que hoje conhecemos.

Uma couve pode atravessar uma fronteira sem deixar de ser a mesma espécie. Uma receita pode viajar sem perder a memória de quem a preparou. Uma palavra pode mudar de significado sem desaparecer.

E uma comunidade pode transformar-se profundamente sem deixar de reconhecer no passado parte da sua própria história.

Talvez seja precisamente à mesa — entre amigos, diante de um cozido, discutindo qual é a melhor couve — que possamos perceber uma das questões mais profundas da história de Portugal:

uma identidade não precisa de ter existido desde sempre para se tornar real.

Precisa, antes, de ser construída, reconhecida, transmitida e continuamente contada.

E talvez seja esse o verdadeiro segredo do cozido: não a pureza dos seus ingredientes, mas a história que acontece quando são postos juntos.

texto © Luís Carvalho Barreira