L.H.O.O.Q. mona lisa, com bigode, 1919
O que é Arte?
A Arte é…
Aceitemos, como ponto de partida, a conhecida definição de Dino Formaggio: «A arte é tudo aquilo a que os homens chamam arte.»
Longe de nos oferecer uma definição fechada do conceito de Arte, esta formulação desloca a questão para o problema da sua validação. Aquilo que entendemos por arte depende, em grande medida, dos sujeitos e das instituições que, em determinado contexto histórico e cultural, reconhecem, legitimam, classificam e interpretam determinados objectos ou práticas como artísticos. Museus, academias, artistas, críticos, historiadores, coleccionadores, galerias, comunidades e públicos participam, de diferentes modos, nessa construção. Não existe, portanto, um único “sumo pontífice” da Arte, mas uma rede de instâncias que, ao longo do tempo, determina aquilo que pode ser reconhecido como tal.
Sempre assim foi?
Não necessariamente.
A ideia contemporânea de Arte é, em grande medida, herdeira do academismo dos séculos XVII e XVIII e, posteriormente, da concepção das Belas-Artes, profundamente marcada pelo pensamento iluminista e pelas transformações sociais e culturais desencadeadas pela Revolução Francesa. Esta concepção afastou-se progressivamente dos antigos métiers das artes aplicadas e dos ofícios organizados pelas corporações, guildas e mestres artesãos medievais.
A separação entre Arte e ofício, entre criação artística e produção artesanal, não é, portanto, uma realidade universal nem intemporal. É uma construção histórica. Aquilo que hoje colocamos sob a designação de “obra de arte” nem sempre foi produzido ou entendido com esse propósito.
Mesmo quando determinada arte contemporânea proclama a morte da ideia de arte, a destruição do objecto ou a negação da própria “arte pela arte”, a obra continua a estabelecer uma relação inevitável entre objecto, contexto, forma e interpretação. Mesmo perante a recusa da materialidade tradicional, existe ainda uma experiência estética produzida pelo encontro entre aquilo que é apresentado e o olhar daquele que observa.
A obra não existe isoladamente.
Entre o objecto e aquele que o contempla estabelece-se uma relação na qual intervêm a memória, a cultura, a experiência, o conhecimento e as expectativas de cada indivíduo. É nesse espaço de encontro que a obra adquire novos significados.
O artista é, por sua vez, herdeiro de uma memória artística colectiva. Antes de encontrar a sua própria voz, fala através de muitas outras vozes. Transporta consigo imagens, formas, técnicas, ideias e experiências que pertencem aos seus antecessores. Todo o artista é, nesse sentido, simultaneamente herdeiro e transformador de uma tradição.
A criação artística não começa no vazio.
Cada nova obra estabelece um diálogo, consciente ou inconsciente, com aquilo que a precedeu. O artista apropria-se de uma memória que não lhe pertence inteiramente e transforma-a numa linguagem própria. Só progressivamente essa linguagem se autonomiza e encontra o seu próprio discurso.
Mas nenhuma obra fica definitivamente encerrada na intenção daquele que a produziu.
Uma vez criada, ela passa a pertencer também ao olhar dos outros. É percorrida por diferentes interpretações, atravessada por novos contextos e sujeita a diferentes valores. O seu ethos, o seu carácter, permanece aberto à transformação.
Por isso, uma obra de arte não pode ser reduzida a uma explicação causal. Podemos explicar as suas circunstâncias históricas, os materiais utilizados, as técnicas, as influências ou as intenções do artista. Podemos construir teorias acerca dela. Mas existe sempre algo que escapa à explicação e que apenas se manifesta na experiência da obra.
Interpretar não é simplesmente explicar.
Interpretar é estabelecer uma relação.
É inevitável que toda a interpretação seja condicionada pelo tempo e pelo lugar daquele que interpreta. O nosso olhar é sempre histórico, cultural e, de algum modo, perspéctico. Vemos a obra a partir de uma determinada posição no mundo e transportamos para ela os valores, conhecimentos e sensibilidades da nossa época.
Por isso, aquilo que hoje consideramos uma obra de arte poderá não ter sido produzido com esse estatuto. E aquilo que hoje reconhecemos como arte poderá, no futuro, deixar de o ser ou adquirir um significado completamente diferente.
O conceito de Arte está em permanente transformação.
Descodificar os fenómenos artísticos significa, assim, entrar nas suas contradições: entre forma e ideia, matéria e conceito, artista e espectador, tradição e inovação, criação e interpretação, passado e presente.
Não podemos esquecer que a própria noção de “obra de arte” é uma construção histórica e cultural. Não existe fora do tempo, nem permanece imune às transformações do olhar humano.
Por isso, a nossa tarefa não é encontrar uma definição definitiva de Arte, mas interpretá-la.
Uma obra torna-se verdadeiramente fecunda quando permanece capaz de provocar novas leituras, novas experiências, novas interpretações e até novas recriações. O seu valor não reside apenas naquilo que foi quando nasceu, mas também naquilo que continua a ser capaz de produzir em nós.
É nesse encontro que o homem pode simultaneamente existir, contemplar e criar.
A Arte acontece, então, na relação.
É uma realidade constituída pelo encontro entre sujeito e objecto, entre aquele que cria, aquilo que é criado e aquele que contempla. Nenhum destes elementos pode ser plenamente compreendido isoladamente, porque cada um transforma os outros.
Nós mudamos.
E, porque mudamos, as obras também mudam connosco.
A realidade, tal como a nossa própria existência, encontra-se submetida a um movimento permanente, a um processo de devir. Espaço, tempo e memória entrelaçam-se num lugar misterioso onde tudo se transforma e onde nenhum fenómeno pode ser considerado definitivamente acabado.
A obra permanece aberta.
O olhar transforma-se.
A memória acrescenta novas camadas.
O tempo altera os significados.
E a experiência estética renasce a cada encontro.
Talvez seja por isso que, perante a pergunta “O que é Arte?”, qualquer definição seja simultaneamente necessária e insuficiente.
Porque, no limite, a Arte é indizível.
Arte, sublime inutilidade © Luís Barreira
