Brueghel - Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Pieter Brueghel, o Velho, Combate entre o Carnaval e a Quaresma, 1559

Museu de História da Arte em Viena, Viena.

Pieter Bruegel, o Velho — O Combate entre o Carnaval e a Quaresma, 1559

 

Em 1559, Pieter Bruegel, o Velho, pinta O Combate entre o Carnaval e a Quaresma. À primeira vista, estamos perante uma cena festiva numa praça de uma cidade flamenga, povoada por personagens, procissões, mendigos, músicos, vendedores e transeuntes. Tudo parece acontecer ao mesmo tempo, numa espécie de grande teatro da vida quotidiana.

Mas olhar não é ver. E, em Bruegel, aquilo que parece uma simples representação dos festejos que antecedem a Páscoa esconde uma leitura muito mais complexa.

O combate entre o Carnaval e a Quaresma não é apenas o confronto simbólico entre dois períodos do calendário cristão — um associado à festa, à abundância e aos prazeres do corpo; outro ao jejum, à penitência e à contenção. É, sobretudo, uma metáfora da sociedade do seu tempo: uma sociedade dividida entre a tradição católica e as novas ideias reformistas que atravessavam os Países Baixos.

Estamos numa Europa profundamente marcada pela Reforma Protestante e pela resposta da Igreja Católica através da Contra-Reforma. Os Países Baixos encontravam-se sob o domínio da monarquia espanhola, primeiro de Carlos V e, a partir de 1555, de Filipe II. A tensão religiosa e política agravava-se, particularmente com a expansão do calvinismo.

Poucos anos depois da realização da pintura, em 1566, essa tensão haveria de explodir na Beeldenstorm, a chamada “tempestade das imagens”, durante a qual numerosas igrejas católicas foram alvo da destruição de imagens, esculturas e outros objetos religiosos. A questão religiosa era, porém, inseparável da questão política: os flamengos contestavam simultaneamente a autoridade religiosa e o domínio político e económico espanhol.

É neste ambiente que podemos observar a pintura de Bruegel — não como uma simples ilustração de uma festa popular, mas como uma possível sátira social, religiosa e política.

A praça como palco da sociedade

Bruegel transforma a praça pública num enorme palco. Não existe uma personagem principal no sentido tradicional. O protagonista é a própria sociedade.

Tudo acontece diante dos nossos olhos.

Pobres, mendigos, crianças, religiosos, comerciantes, músicos, jogadores, amantes, bêbados, curiosos e representantes da autoridade cruzam-se num espaço onde o sagrado e o profano convivem lado a lado.

O pintor não organiza o mundo segundo uma hierarquia moral rígida. Pelo contrário, coloca em confronto duas forças que parecem disputar o domínio da cidade: Carnaval e Quaresma.

No lado direito encontramos a Quaresma. Uma figura magra, quase ascética, surge sentada numa espécie de carriola puxada por religiosos. Na cabeça transporta uma colmeia, símbolo de trabalho, cooperação e disciplina. Na mão segura uma pá e dois peixes, alimentos associados ao período de abstinência.

À sua volta desenvolve-se uma procissão religiosa. Freiras, frades e outros personagens transportam livros, rosários e ramos. O ambiente é marcado pelas matracas e pela solenidade própria da prática religiosa.

Mas Bruegel introduz aqui a sua ironia.

À saída da igreja acumulam-se os pobres e os necessitados. A caridade circula entre as personagens, mas também parece transformar-se num espectáculo. Junto à entrada do templo, a própria religião surge associada à circulação de dinheiro e às indulgências. A representação de Cristo crucificado, colocado junto de moedas, reforça a ambiguidade da cena.

É difícil não perguntar: onde termina a devoção e começa o negócio da fé?

Na penumbra da igreja, um sacerdote confessa e abençoa um fiel. No exterior, porém, a multidão movimenta-se de forma desordenada. O sagrado e o profano encontram-se separados apenas por uma porta.

Bruegel não precisa de acusar directamente ninguém. Basta-lhe mostrar.

Do outro lado, o Carnaval

No lado esquerdo, tudo muda.

A austeridade desaparece e entra em cena a abundância.

Carnaval é representado por uma figura corpulenta, quase grotesca, sentada sobre um enorme barril de vinho que funciona como se fosse uma carruagem. Na cabeça leva alimentos e, na mão, um espeto onde se acumulam carnes e outras iguarias.

É a vitória dos sentidos.

A música muda. As matracas religiosas dão lugar a instrumentos populares. O vinho, a carne, a comida e a música transformam a praça num espaço de prazer colectivo.

O Carnaval é o homo festivus, o homem que celebra a existência; mas é também o homo ridens, aquele que encontra no riso uma forma de libertação.

É o corpo contra a disciplina.

A abundância contra a abstinência.

O prazer contra a penitência.

A festa contra a regra.

Mas Bruegel não transforma o Carnaval num espaço de liberdade absoluta. Também aqui existe crítica. A gula, a embriaguez, a sexualidade, o jogo e a desordem são apresentados através do grotesco. O pintor não toma simplesmente partido pelo Carnaval: ridiculariza ambos os lados.

É precisamente nessa ambiguidade que reside a força da pintura.

Uma sociedade inteira dentro de uma praça

O extraordinário em Bruegel está também na capacidade de transformar acontecimentos aparentemente insignificantes em documentos de uma época.

Enquanto Carnaval e Quaresma se confrontam, a vida continua.

As crianças brincam. Umas jogam à panela; outras fazem rodopiar o pião. Os homens entregam-se aos jogos de azar. Mulheres trabalham junto ao poço. Há quem observe a cena das janelas. Um beijo é roubado junto a uma estalagem. Um homem recebe um balde de água sobre a cabeça. Alguém cobra impostos.

Há vendedores, mendigos, músicos, religiosos e amantes.

Há vida doméstica.

Há trabalho.

Há pobreza.

Há festa.

Há religião.

Há desejo.

E há morte.

Bruegel parece dizer-nos que nenhuma doutrina consegue controlar completamente a vida humana. Por detrás das grandes disputas religiosas e políticas continuam a existir pessoas que comem, bebem, trabalham, amam, jogam, sofrem e riem.

A verdadeira batalha talvez não seja entre Carnaval e Quaresma.

É a batalha entre aquilo que a sociedade determina que devemos ser e aquilo que efectivamente somos.

O Domingo de Ramos

Há ainda um elemento particularmente significativo: os ramos que aparecem em diferentes pontos da composição.

A sua presença pode remeter para o Domingo de Ramos, momento em que se celebra a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. O ramo torna-se, assim, mais um elemento de ligação entre a festa popular e a narrativa cristã.

É como se Bruegel colocasse dentro da mesma imagem diferentes tempos: o tempo religioso, o tempo litúrgico, o tempo profano e o tempo quotidiano.

A praça torna-se uma espécie de microcosmos da sociedade.

E talvez seja precisamente essa a grande inovação de Bruegel: a pintura religiosa ou moral deixa de representar apenas santos, reis e grandes acontecimentos para transformar o homem comum em protagonista.

Uma batalha sem vencedores

O combate não acontece com espadas, armaduras ou cavalos.

As armas são outras.

De um lado, o peixe, o jejum, a oração, o rosário, o livro e a penitência.

Do outro, o vinho, a carne, a música, o jogo, o sexo e a abundância.

É uma batalha sem verdadeiro vencedor porque Carnaval e Quaresma fazem parte da mesma condição humana.

O homem medieval e renascentista ri e chora; jejua e come; peca e arrepende-se; trabalha e festeja. A existência é feita de contrários.

Por isso, a pintura pode ser entendida como uma grande metáfora da ambiguidade humana.

Bruegel não parece interessado em dizer-nos simplesmente quem tem razão. O seu olhar é mais próximo da sátira: observa, regista e deixa que o espectador descubra o absurdo.

O riso torna-se, assim, uma ferramenta crítica.

Não é apenas um riso para divertir. É um riso que desmascara.

Bruegel, o homem que observa

E há ainda uma pequena provocação final.

Bruegel assina a pintura sobre a pedra que serve de mesa ao jogo de dados.

O artista está presente.

Não como personagem central, mas como observador.

Talvez seja essa a verdadeira posição de Bruegel: alguém que permanece à margem da batalha, olhando para os dois lados e registando a comédia humana.

Quem sabe se não estará escondido entre as personagens?

Quem sabe se não será aquela figura que observa silenciosamente a cena, como quem conhece demasiado bem os vícios e as virtudes daqueles que retrata?

Bruegel não nos oferece uma resposta.

Oferece-nos uma praça.

E nessa praça encontramos uma sociedade inteira.

Carnaval e Quaresma deixam, então, de ser apenas duas personagens alegóricas. Tornam-se duas forças que habitam dentro de cada ser humano: o desejo de viver e o medo de pecar; o prazer e a culpa; a liberdade e a disciplina; o corpo e a alma.

É talvez por isso que, mais de quatro séculos depois, continuamos a reconhecer-nos naquela praça.

Porque Bruegel não pintou apenas o seu tempo.

Pintou-nos a nós.

 

1998-2023 © Luís Carvalho Barreira




Notas:

[1] É a designação tradicionalmente dada a toda a norma ou disposição legal promulgada de forma solene por um absoluto que disponha sobre aspectos fundamentais do Estado, regulando questões como a sucessão no trono, as matérias de religião de Estado e outras. Na história do Sacro Império Romano-Germânico refere-se mais especificamente a um édito emitido pelo imperador. In Wikipedia

[2] Concílio de Trento realizou-se entre 1545-1563.

[3] H. Cox, Las fiestas de los locos. Ensayo sobre el talante festivo y la fantasía, Madrid, Taurus, 1983.