Vidago Palace Hotel, 1910
Arq. José Ferreira da Costa
Arquitectura, água e o ritual da viagem
Há lugares que não foram construídos apenas para serem habitados. Foram concebidos para serem percorridos, contemplados e experimentados. O parque e o Hotel Palace de Vidago é deles.
As cidades termais pertencem a essa categoria particular de lugares onde a arquitectura não pode ser separada da paisagem, nem a paisagem da água, nem a água dos rituais sociais que, ao longo dos séculos, se construíram à sua volta. O Vidago Palace Hotel nasceu precisamente dessa cultura. Inaugurado em 6 de Outubro de 1910, num ano em que Portugal atravessava uma das suas mais profundas transformações políticas — a implantação da República ocorreria apenas quatro dias depois —, o hotel materializava uma ambição muito anterior: transformar Vidago numa grande estância termal de dimensão internacional.
A água era o princípio.
O hotel seria a sua arquitectura.
A viagem, o ritual.
E a natureza o lugar de encontro...
Os lugares que nascem da água
Durante os séculos XVIII e XIX, as nascentes de água mineral transformaram-se progressivamente em lugares de peregrinação terapêutica, de sociabilidade e de lazer. A ida às termas deixou de ser exclusivamente uma deslocação motivada pela doença. Passou a ser também uma mudança de ares, uma interrupção do quotidiano, uma oportunidade de convívio, de descanso e, sobretudo, de representação social. Aristocratas, burgueses, escritores, artistas, médicos, políticos e viajantes começaram a frequentar as grandes villes d'eaux europeias: Baden-Baden, Spa, Bath, Vichy, Aix-les-Bains, Montecatini, Karlsbad ou Marienbad tornaram-se muito mais do que lugares onde se bebia ou tomava banho em águas minerais. Construíram-se à sua volta hotéis, casinos, teatros, galerias, parques, jardins, passeios, buvettes, balneários e avenidas.
A cidade termal tornou-se uma espécie de palco. E o aquista, simultaneamente, paciente e espectador.
O palácio das águas
É neste contexto europeu que devemos compreender o Vidago Palace. A ambição não era simplesmente oferecer alojamento aos visitantes das termas. Era criar uma experiência integrada de cura, luxo, natureza e sociabilidade. O hotel, os jardins, as águas e, posteriormente, o golfe, constituíram diferentes momentos de um mesmo ritual.
Em 1936, o complexo passou a dispor de um campo de golfe de nove buracos, desenhado pelo arquitecto britânico Philip Mackenzie Ross, reforçando a dimensão internacional da estância.
A combinação era particularmente poderosa: água, hotel, paisagem, desporto e ócio. O visitante podia tratar-se, passear, conversar, jogar, contemplar e ser visto. A cura deixava de ser um acto exclusivamente médico. Transformava-se numa experiência social.
A arquitectura como cenário, a natureza como espaço idílico.
A arquitectura termal possui uma característica particular: raramente se limita ao edifício. O verdadeiro projecto é o conjunto. O hotel relaciona-se com o jardim; o jardim conduz ao passeio; o passeio aproxima-se da nascente; a nascente conduz ao balneário; o balneário articula-se com o parque.
A arquitectura cria percursos. E os percursos criam comportamentos. É por isso que as cidades termais desenvolveram um repertório arquitectónico tão singular: pavilhões de nascente, balneários, colunatas, galerias, hotéis, casinos, teatros, jardins, parques e grandes promenades. Não eram elementos independentes. Faziam parte de uma mesma dramaturgia espacial.
O visitante chegava.
Instalava-se.
Bebia a água.
Caminhava.
Encontrava outros.
Observava e era observado.
Voltava ao hotel.
Repetia o ritual no dia seguinte.
A própria natureza organizava o tempo.
O Homem Novo
Existe aqui uma ideia particularmente interessante. A viagem às termas prometia mais do que a recuperação física. Prometia uma espécie de renascimento. O homem chegava carregando consigo a doença, o cansaço e os hábitos da vida quotidiana. Nas termas procurava deixar para trás esse estado anterior. A água tornava-se, simbolicamente, um agente de passagem entre dois estados:
doença e saúde;
cansaço e vitalidade;
passado e presente;
Homem Velho e Homem Novo.
A arquitectura participava dessa transformação.
O parque convidava à caminhada. A água convidava ao ritual. O hotel oferecia conforto. A sociedade oferecia convivência. E a natureza funcionava como cenário de regeneração.
A paisagem como experiência
Uma das grandes transformações introduzidas pelo termalismo moderno foi precisamente esta nova relação entre Homem e Natureza. Os parques termais não eram simples jardins decorativos. Eram espaços de experiência. As árvores, os caminhos, as perspectivas, as alamedas, os lagos e os edifícios eram cuidadosamente articulados para produzir uma determinada sensação de ordem, tranquilidade e descoberta. O visitante podia caminhar sem uma finalidade imediata. Podia ler. Conversar. Pensar. Ou simplesmente vaguear.
O passeio tornou-se uma actividade. A contemplação tornou-se parte da cura. E o tempo perdido deixou de ser necessariamente tempo inútil.
As grandes viagens das águas
Ao longo do século XIX, esta cultura termal produziu verdadeiras redes de viagem. As elites europeias deslocavam-se entre estâncias: Baden-Baden, Spa, Bath, Vichy, Aix-les-Bains, Montecatini, Karlsbad, Marienbad e muitas outras faziam parte de um circuito cosmopolita.
A viagem às termas era, portanto, também uma viagem social. Encontravam-se pessoas. Trocavam-se informações. Escreviam-se cartas. Publicavam-se notícias. Fotografava-se. Construíam-se memórias.
As termas tornaram-se lugares privilegiados para observar a própria sociedade em movimento. E é precisamente essa dimensão que me interessa recuperar quando penso na Viagem das Águas. Não apenas a história da medicina termal. Mas a história dos homens e mulheres que viajaram em direcção às águas.
Caldas da Rainha
O mesmo fenómeno pode ser observado em Caldas da Rainha.
No final do século XIX, Rodrigo Berquó projectou um conjunto de edifícios destinados ao ambicioso programa de transformação da cidade numa grande estância termal europeia. Os chamados Pavilhões do Parque acabariam por não desempenhar integralmente a função para a qual foram concebidos. A sua história posterior foi, contudo, igualmente reveladora: quartel, esquadra, escola. A arquitectura sobreviveu às funções para as quais havia sido pensada. E é precisamente aí que o património começa a adquirir outra dimensão. Um edifício não é apenas aquilo para que foi construído. É também tudo aquilo que aconteceu dentro dele. Ao lado do Hospital Termal, do Parque D. Carlos I e da Mata Rainha D. Leonor, os pavilhões constituem uma parte fundamental da memória arquitectónica e urbana das Caldas.
A cidade termal como organismo
O que encontramos tanto em Vidago como nas Caldas da Rainha é uma arquitectura que se transforma continuamente porque as próprias necessidades humanas se transformam.
A cidade termal é um organismo. Nasce da água. Cresce com os tratamentos. Expande-se com o turismo. Adapta-se às novas tecnologias. Transforma os seus edifícios. Reinventa os seus usos. E, em cada transformação, conserva fragmentos da sua memória. Por isso, preservar uma cidade termal não significa apenas conservar paredes, fachadas ou jardins. Significa conservar os rituais, os percursos, os modos de sociabilidade e as memórias associados à água. A água é o elemento que permanece.
2021 © Luís Barreira
