Ouro sobre azul

Ouro sobre azul

Barnaba de Modena (1328-1386), madonna e a criança, 1370-75, louvre

Barnaba de Modena (1328-1386), madonna e a criança, 1370-75, louvre

No decurso do Concílio de Éfeso, no ano 431, o valor simbólico da cor ganhou também importância canónica. Neste encontro ecuménico, ao invés daqueles -os nestorianos- que sustentavam a ideia de Maria ser só mãe do Cristo-homem, porque lhes parecia absurdo uma criatura ser mãe do criador, saíram vencedoras as teses da maternidade divina de Maria que passou a ser doutrina da Igreja – a “Virgem Maria”.

Assim, Maria saiu reforçada na hierarquia da igreja católica e foram dadas indicações precisas na maneira de representar a “Mãe de Deus”: "recebe um manto azul, um azul-escuro, maravilhoso e caro, condizente com a rainha do céu". Estas directrizes são bem claras, não importa a semiótica da cor ou a mera reacção psicologia que cor possa provocar, Maria deveria ostentar as mais nobres cores: as mais raras, as mais dispendiosas. 
É sabido que o primeiro pigmento azul estável usado no mundo antigo veio do lápis-lazúli (Mesopotâmia), uma pedra semipreciosa que os egípcios transformaram em pó combinando com o dourado para adornar as urnas dos faraós. A escassez deste mineral fez com que os egípcios descobrissem novos azuis: o azul egípcio. Estes pigmentos bastante saturados variavam desde o tom azul safira até ao azul-turquesa. A raridade deste pigmento aliada à dificuldade na sua obtenção só tinha comparação com outro material precioso, o ouro, no que diz respeito ao seu valor monetário. É vulgar ouvir-se dizer que a perfeição é “ouro sobre azul”.