Iris da Sibéria

Na viagem a referência ao corpo do desejo, de delito, não implica necessariamente a representação verosimilhante de personagens ou de situações carnais. Há uma dimensão do desejo que está antes, depois, e para além das pessoas conhecidas: que são a solidão, a memória e o silêncio. Uma dimensão secreta habitada por sinais tão particulares que os sentidos quase não os conseguem captar. São viagens, por vezes, assombradas por imagens tão fulgurantes que a imaginação quase não as alcança reter. Um errante caminheiro que eternamente se perde em divagações e recordações.

Os cânticos ortodoxos e uma série de pinturas iconográficas extraídas de um todo corpo pictórico são aqueles que melhor representam a dimensão sólida e a memória profunda, talvez a instância fundadora, o ponto de ancoragem mais decisivo de toda a experiência vivida. E é por isso que não posso limitar ao mero reconhecimento das suas expressões secretas o desejo concupiscente.

Nunca soube o nome dela. Aliás, durante a minha estada, em Irkutsk, jamais proferiu uma palavra… e durante muito tempo julguei ser muda, até ao momento em que o seu canto agudo irrompe o espaço sagrado numa pequena igreja situada num ermo siberiano. Creio, não, tenho a certeza, que aquela experiência melómana foi a mais marcante da minha vida. Reconhecendo o esplendor litúrgico que permanece (ainda) nas gélidas terras dos Gulags, de Dostoiévski e de Tolstói, assisti a toda liturgia de pé – por norma, não há bancos nas igrejas ortodoxas -, à solenidade do rito conquistando o coração dos fiéis. Encostado a uma imagem evangélica de Cristo (“a paixão do povo russo” segundo Dostoiévski) o diálogo polifónico vindo da interacção das vozes agudas femininas e do som grave do diácono era, sempre, elevada pela voz angélica que eu julgara muda: verdadeiramente sublime.

Luís Barreira Lago Baikal, Sibéria, 1996 Fotografia Gelatin Silver print arquivo: F_224_119, 1996

Luís Barreira

Lago Baikal, Sibéria, 1996

Fotografia

Gelatin Silver print

arquivo: F_224_119, 1996

O clima na Sibéria é severo e quando o degelo aparece e a flora irrompe as marcas agrestes estão patentes a mais de um metro de profundidade, a ideia do gelo perpétuo. Recordo à medida que a memória se desvanece através do tempo e a história se depura, a figura formosa reflectida num poço pouco profundo. As águas cristalinas ao nível do solo não deixavam mentir a donzela espelhada. De cabelos soltos cruzados por um lenço descaído guarda viço e beleza de uma tenra idade. Um casaco de malha abotoado irregularmente aberto no espaço deixa antever um vestido de chita florido num antecipado corpo de mulher. Não muito longe, uma Dacha de madeira cuidadosamente esculpida, com as janelas coloridas de azul celeste, é tudo o que a memória enxerga, junto ao Lago Baikal. Fui tolhido naquele silêncio irrompido pelo gesto generoso daquela menina, quase mulher, oferecendo-me uma flor autóctone: íris da Sibéria. Poucas flores se podem comparar com a graça e beleza deste gesto arrancado da taiga siberiana. A paz induzida pelo corpo ondulante finalizado por pétalas de cor azul-violeta era semelhante ao perfume doce libertado, só interrompido pela brisa macia vinda do lago. Mas que formosura suportada por um talo melancólico. Foram raros os momentos que me catapultaram para a lucidez desejada. A taciturna criatura de olhar tímido provocava em mim um arrepio inebriante. Além do mais, nenhuma planta é mais bela e confiável quando colocada na mão de um homem. A Íris da Sibéria.


Lago Baikal, 1996